"Não. Não, senhor! Me solte, eu não quero..." — a governanta se apressou à porta, ao ouvir os gritos contidos à força, vind...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 3)

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"Não. Não, senhor! Me solte, eu não quero..." — a governanta se apressou à porta, ao ouvir os gritos contidos à força, vindos do galpão.

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⏤ Sua negrinha ordinária, porca! Saia da minha frente agora. Na próxima vez, vai dormir com a gargalheira — esbravejou o feitor, logo que Naucete entrou no recinto.

A mulher correu ao encontro da adolescente que soluçava convulsivamente. Inclinada sobre a portinhola do curral, ajeitava a roupa que fora esgarçada. A governanta abraçou-a com uma mão e, com a outra, enxugou-lhe as lágrimas. Vendo que isso não bastava, usou a manga do próprio vestido e comprimiu o tecido contra os olhos da garota.

⏤ Dandara... por favor, me diga o que sucedeu... — disse a pernambucana, buscando uma resposta ao tom da gravidade.

Naucete ouvia as batidas do desespero contra um peito infantil que soavam num ritmo dissonante sobre a fina pele de um tambor de crioula avariado.

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⏤ Comadre, ele quis bulir comigo de novo... — delatou a mocinha trêmula.

⏤ Vou falar agora com o Coronel Sinom e com Sinhá Perpétua. Isso precisa acabar imediatamente — afirmou a administradora da casa-grande.

⏤ Por favor, não faça isso. Se eles souberem que eu denunciei, vou pagar caro... ⏤ implorou Dandara, passando as mãos sobre a face molhada e tentando recuperar o fôlego. — Está tudo bem agora — murmurou, mais para seu interior do que para sua interlocutora.

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⏤ Mas Dandara, isso não pode continuar. Vou pedir a Nhonhô que tenha uma conversa reservada com este malfeitor — argumentou a governanta.

⏤ Eles sabem de tudo. Nenhum mourão foi cortado no celeiro sem a aceitação do Coronel. Além disso, a própria Sinhá Perpétua já me perguntou quem gostava de me espiar e disse que se visse o Coronel se engraçando comigo rasparia meus cabelos — retrucou Dandara, com a voz trêmula.

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Naucete, horrorizada, abraçou-a ainda mais forte e prometeu:

⏤ Tudo bem, não falarei. Mas juro pelos céus que um dia encontraremos uma forma de sair daqui juntas — garantiu a mulher, com os olhos marejados — sem saber como cumpriria aquelas palavras.

Enquanto a mocinha buscava reparar seu trauma no abraço acalentado, Naucete pensava nas ameaças que cercavam aquela criança e nas circunstâncias que lhe aprisionavam de todos os lados.

A senzala onde a menina vivia era um barracão com paredes de pau-a-pique, chão de barro batido e coberto com palha. A porta ficava voltada para o terreiro da casa-grande, de onde se via toda a movimentação pessoal. Sua mãe, consumida pela tosse, não resistiu alguns anos antes e se foi.

Numa manhã de trabalho forçado, o pai saiu para o campo e nunca mais voltou. A Dandara restou o amparo de alguns parentes próximos. Quando Naucete chegou e percebeu que a linda menina atraía os olhares dos capatazes,
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passou a cuidar dela com maior atenção nas tarefas na propriedade.

Algumas daquelas choças tinham suas portas vigiadas durante a noite. As famílias eram separadas por grupos: casados, solteiros e parentes de primeiro grau. No interior da habitação, uma lamparina de sebo animal projetava luz sobre rostos abatidos.

Na penumbra de um ambiente superlotado, os olhares se cruzavam sem um ponto focal conhecido. Com a respiração sufocante, o ar tornava-se úmido e pesado, no tempo em que dormiam todos amontoados sobre esteiras de madeira forradas pela folhagem seca da carnaúba.

Durante o dia, alimentavam-se de um mingau de milho pilado ou um punhado de xerém com toucinho de porco. Às vezes, restavam-lhes apenas as sobras dos senhorios: catado do feijão de corda, angu com alguns miúdos gordurosos do porco ou outros pedaços do fato do boi.

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O choro infantil trouxe-lhe à memória suas reminiscências dos quarenta anos passados. Lembrou-se de Palmares e do progresso social estampado nas páginas do Diário de Pernambuco. Corria para ouvir o apito do trem sobre a linha férrea que ligava Alagoas a Pernambuco, transportando a colheita armazenada em toneladas de sacos de ráfia. Sentia o cheiro da fumaça que subia ao céu. O sol ardente queimava sua face e a menina escutava vozes familiares que celebravam as promessas de liberdade:

⏤ A partir deste édito, todos os nascidos escravos estão amparados no artigo primeiro da Lei da Abolição que declara extinta a escravidão no Brasil.

Lutaria com tudo aquilo que estivesse ao seu alcance, inclusive com a própria vida, para moldar o espaço à sua frente.
Toda aquela vivência de efusividade emocional levou Naucete às lágrimas do coração. Caminhou até os fundos do terreiro e agachou-se detrás de um grande pilão de madeira. Ali, seu silêncio pesava mais do que o ato de moer alimento e seus olhos buscavam as respostas para a dor que carregava nos ombros.

Olhou para cima e viu a o resplendor ofuscante da luz sobre o maciço rochoso. O remanso da montanha guardava a promessa de um frescor ao anoitecer. O gado mugia acompanhando a sua tristeza num bafejo arfante, como se pressentisse o seu abate iminente. Ao longe, o pasto e a plantação de algodão se erguiam, à espera de mais um dia de trabalho.

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Pensou em como Orací crescia depressa. Teve sorte: nascera filho de um homem livre; ainda assim, as escolhas do pai o colocavam ao lado de gestos marcados pela mordaz superioridade. Ouvia quase todos os dias os cativos dizerem que seus detratores haviam quebrado as pernas do futuro de seu povo. Aquilo feria o sopro de esperança capaz de fazê-la acreditar que haveria tempo para resistir e seguir em frente.

Sentada no quintal, Naucete sentia a indignação tomar-lhe o corpo, correndo como um fluxo em turbilhão de revolta. Aquela sensação rasgava sua razão,
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exigindo que ela arrancasse os pés fincados no chão rachado pela sequidão do estio. Mas recorria às estratégias que aprendera nas provações que vivera. Lutaria com tudo aquilo que estivesse ao seu alcance, inclusive com a própria vida, para moldar o espaço à sua frente. Faria como Taitale, que talhava um mundo melhor ao lado da morte que o rondava, na prática de seu trabalho de escultor. Ambos veriam o filho sorrir até a eternidade, em companhia a tantos outros nascidos num tempo em que a liberdade ainda sangrava, sem qualquer bandagem capaz de estancar a hemorragia da escravidão.

Aos senhores, restavam mãos calejadas presas à enxada sem paga. Aos serviçais, sobrava uma terra quase sempre cercada, tomada como saque consentido, marcada por correntes invisíveis que se erguiam diante do horizonte e pesavam sobre cada passo rumo ao futuro.

Quando Naucete nasceu, sua mãe era uma mucama. Na mesma época, Sinhá-dona tivera uma filha. Acometida por uma pneumonia aguda, não pôde amamentá-la, e a criança padecia no leito materno.

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Uma ama-de-leite foi chamada para alimentar tanto a filha da patroa quanto a recém-nascida de seu ventre. A sorte se inclinou para a pequena Naucete, que receberia a instrução semelhante àquela dada ao senhorio. Assim que Sinhá-dona recuperou as forças, trouxe a mãe de Naucete como “companhia” para o cuidado definitivo das meninas e, em contrapartida, prometeu oferecer a melhor educação para ambas.

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A princípio, havia uma desconfiança sobre a bondade da mulher. Com o tempo, porém, suas atitudes revelaram seus ideais de justiça e igualdade. Não se curvava às conveniências políticas nem econômicas. Conduzia o ambiente com arreios de ferro, e por isso, era respeitada pelos empregados.

Pelo sobrenome e por seu envolvimento com o ensino, especulava-se que fosse filha de professores. O marido, administrador da companhia ferroviária The Great Western of Brazil Railway, passava longos períodos fora de casa. Ainda assim, ambos se envolveram com o plantio de cana-de-açúcar, negócio de grande valor para o comércio com a Europa. Falava-se que a Sinhá-dona via na escravidão a perpetuação da vergonha do capital explorando o trabalho compulsório, algo que em sua terra já havia ficado no passado. Orientava feitores e capatazes a não tomarem ações deliberadas sobre a criadagem sem a sua permissão.

Mesmo com todas as regalias de uma “dama de companhia”, Naucete crescia em contato com os seus. Junto a outras crianças de mãos habilidosas, seus corpos miúdos ensaiavam a cadência da semeadura,
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como numa canção infantil. No trabalho, entoavam cantigas ancestrais, enquanto abriam pequenas covas, lançavam as sementes, aguavam a terra seca e cobriam os rasos buracos com terra molhada. Noutras vezes, corriam para colher o capulho aberto, retiravam os capulhos já estourados, deixando os verdes para o tempo da colheita. Batiam a flor para separar a casca do algodão limpo, enchendo pequenas sacas com “ouro branco”. Como os lotes do plantio se davam por quadras, precisavam observar se a flor do algodão estava esbranquiçada e pronta. Ziguezagueavam pela plantação em busca dos algodoeiros mais floridos.

Nos dias de descanso, Naucete e as outras crianças entoavam a canção do passatempo:

— Escravos de Jó, jogavam caxangá. Tira. Bota. Deixa ficar. Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue e zá.
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Enquanto a menina se tornava de moça, os investimentos na manutenção da malha ferroviária no Nordeste acumulavam prejuízos. Novos projetos ferroviários foram comprometidos. A família de Sinhá-dona decidiu retornar à Inglaterra em busca de novos desafios em seu país.

Naquela altura, a mãe de Naucete já havia falecido, mas sua patroa prometeu não deixá-la desamparada. Ofereceu-se para intermediar uma colocação “digna e confortável” junto aos contatos oligárquicos do marido. Foi então que o esposo de Sinhá-dona mencionou Coronel Sinom, grande latifundiário paraibano interessado na expansão ferroviária do Brejo.
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Ele acompanhava o desdobramento da malha férrea do Nordeste, que chegaria à cidade de Bananeiras, e assuntava com a empresa sobre como a construção da estação Borborema poderia favorecer seus negócios em Cuité.

O Coronel via um imenso potencial de escoamento logístico para a compra de seus insumos e a exportação de produtos. Confidenciou que precisava de uma governanta para administrar as rotinas do casarão diante das provações em tempos de liberdade. Sinhá-dona buscou contato com Perpétua, recomendando Naucete e detalhando sua trajetória desde a infância e os muitos anos que ela servira fielmente à sua casa. Meses depois, chegou a resposta via telégrafo: a família de Sinom pedia a presença da jovem com urgência. Despediram-se aos prantos. Sinhá-dona chorava no ombro da menina que criara, antes de embarcá-la no trem para Campina Grande, onde um carro-de-boi a aguardava, com destino a Cuité.

No último abraço, lembrou-lhe a força conquistada ao longo dos anos. Pediu-lhe que jamais deixasse morrer o sonho da liberdade que romperia os grilhões da opressão.
No próximo capítulo, a chegada de Naucete rompe o equilíbrio silencioso da fazenda e desperta resistências veladas entre criados e senhores. Ao mesmo tempo, Nhá Perpétua reforça sua imagem de mulher devota, mas sinais inquietantes começam a surgir sob a aparência de santidade, chamando a atenção do Vigário e envolvendo o Coronel em uma confissão inesperada. Ruídos noturnos, objetos ocultos e murmúrios da criadagem passam a dar forma a segredos que ninguém ousa nomear. A tensão aumenta quando Sinom retorna de viagem trazendo um animal que prometia prosperidade ao rebanho. O experimento termina deixa como herança um bezerro estranho, voraz e indomável. Crescendo rápido demais e espalhando medo pelos campos, ele marca o início da lenda do boi-da-cara-preta.

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