"Não. Não, senhor! Me solte, eu não quero..." — a governanta se apressou à porta, ao ouvir os gritos contidos à força, vindos do galpão.
A mulher correu ao encontro da adolescente que soluçava convulsivamente. Inclinada sobre a portinhola do curral, ajeitava a roupa que fora esgarçada. A governanta abraçou-a com uma mão e, com a outra, enxugou-lhe as lágrimas. Vendo que isso não bastava, usou a manga do próprio vestido e comprimiu o tecido contra os olhos da garota.
⏤ Dandara... por favor, me diga o que sucedeu... — disse a pernambucana, buscando uma resposta ao tom da gravidade.
Naucete ouvia as batidas do desespero contra um peito infantil que soavam num ritmo dissonante sobre a fina pele de um tambor de crioula avariado.
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⏤ Vou falar agora com o Coronel Sinom e com Sinhá Perpétua. Isso precisa acabar imediatamente — afirmou a administradora da casa-grande.
⏤ Por favor, não faça isso. Se eles souberem que eu denunciei, vou pagar caro... ⏤ implorou Dandara, passando as mãos sobre a face molhada e tentando recuperar o fôlego. — Está tudo bem agora — murmurou, mais para seu interior do que para sua interlocutora.
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⏤ Eles sabem de tudo. Nenhum mourão foi cortado no celeiro sem a aceitação do Coronel. Além disso, a própria Sinhá Perpétua já me perguntou quem gostava de me espiar e disse que se visse o Coronel se engraçando comigo rasparia meus cabelos — retrucou Dandara, com a voz trêmula.
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⏤ Tudo bem, não falarei. Mas juro pelos céus que um dia encontraremos uma forma de sair daqui juntas — garantiu a mulher, com os olhos marejados — sem saber como cumpriria aquelas palavras.
Enquanto a mocinha buscava reparar seu trauma no abraço acalentado, Naucete pensava nas ameaças que cercavam aquela criança e nas circunstâncias que lhe aprisionavam de todos os lados.
A senzala onde a menina vivia era um barracão com paredes de pau-a-pique, chão de barro batido e coberto com palha. A porta ficava voltada para o terreiro da casa-grande, de onde se via toda a movimentação pessoal. Sua mãe, consumida pela tosse, não resistiu alguns anos antes e se foi.
Numa manhã de trabalho forçado, o pai saiu para o campo e nunca mais voltou. A Dandara restou o amparo de alguns parentes próximos. Quando Naucete chegou e percebeu que a linda menina atraía os olhares dos capatazes,
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Algumas daquelas choças tinham suas portas vigiadas durante a noite. As famílias eram separadas por grupos: casados, solteiros e parentes de primeiro grau. No interior da habitação, uma lamparina de sebo animal projetava luz sobre rostos abatidos.
Na penumbra de um ambiente superlotado, os olhares se cruzavam sem um ponto focal conhecido. Com a respiração sufocante, o ar tornava-se úmido e pesado, no tempo em que dormiam todos amontoados sobre esteiras de madeira forradas pela folhagem seca da carnaúba.
Durante o dia, alimentavam-se de um mingau de milho pilado ou um punhado de xerém com toucinho de porco. Às vezes, restavam-lhes apenas as sobras dos senhorios: catado do feijão de corda, angu com alguns miúdos gordurosos do porco ou outros pedaços do fato do boi.
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⏤ A partir deste édito, todos os nascidos escravos estão amparados no artigo primeiro da Lei da Abolição que declara extinta a escravidão no Brasil.
Lutaria com tudo aquilo que estivesse ao seu alcance, inclusive com a própria vida, para moldar o espaço à sua frente.Toda aquela vivência de efusividade emocional levou Naucete às lágrimas do coração. Caminhou até os fundos do terreiro e agachou-se detrás de um grande pilão de madeira. Ali, seu silêncio pesava mais do que o ato de moer alimento e seus olhos buscavam as respostas para a dor que carregava nos ombros.
Olhou para cima e viu a o resplendor ofuscante da luz sobre o maciço rochoso. O remanso da montanha guardava a promessa de um frescor ao anoitecer. O gado mugia acompanhando a sua tristeza num bafejo arfante, como se pressentisse o seu abate iminente. Ao longe, o pasto e a plantação de algodão se erguiam, à espera de mais um dia de trabalho.
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Sentada no quintal, Naucete sentia a indignação tomar-lhe o corpo, correndo como um fluxo em turbilhão de revolta. Aquela sensação rasgava sua razão,
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Aos senhores, restavam mãos calejadas presas à enxada sem paga. Aos serviçais, sobrava uma terra quase sempre cercada, tomada como saque consentido, marcada por correntes invisíveis que se erguiam diante do horizonte e pesavam sobre cada passo rumo ao futuro.
Quando Naucete nasceu, sua mãe era uma mucama. Na mesma época, Sinhá-dona tivera uma filha. Acometida por uma pneumonia aguda, não pôde amamentá-la, e a criança padecia no leito materno.
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Pelo sobrenome e por seu envolvimento com o ensino, especulava-se que fosse filha de professores. O marido, administrador da companhia ferroviária The Great Western of Brazil Railway, passava longos períodos fora de casa. Ainda assim, ambos se envolveram com o plantio de cana-de-açúcar, negócio de grande valor para o comércio com a Europa. Falava-se que a Sinhá-dona via na escravidão a perpetuação da vergonha do capital explorando o trabalho compulsório, algo que em sua terra já havia ficado no passado. Orientava feitores e capatazes a não tomarem ações deliberadas sobre a criadagem sem a sua permissão.
Mesmo com todas as regalias de uma “dama de companhia”, Naucete crescia em contato com os seus. Junto a outras crianças de mãos habilidosas, seus corpos miúdos ensaiavam a cadência da semeadura,
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Nos dias de descanso, Naucete e as outras crianças entoavam a canção do passatempo:
— Escravos de Jó, jogavam caxangá. Tira. Bota. Deixa ficar. Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue e zá.
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Naquela altura, a mãe de Naucete já havia falecido, mas sua patroa prometeu não deixá-la desamparada. Ofereceu-se para intermediar uma colocação “digna e confortável” junto aos contatos oligárquicos do marido. Foi então que o esposo de Sinhá-dona mencionou Coronel Sinom, grande latifundiário paraibano interessado na expansão ferroviária do Brejo.
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O Coronel via um imenso potencial de escoamento logístico para a compra de seus insumos e a exportação de produtos. Confidenciou que precisava de uma governanta para administrar as rotinas do casarão diante das provações em tempos de liberdade. Sinhá-dona buscou contato com Perpétua, recomendando Naucete e detalhando sua trajetória desde a infância e os muitos anos que ela servira fielmente à sua casa. Meses depois, chegou a resposta via telégrafo: a família de Sinom pedia a presença da jovem com urgência. Despediram-se aos prantos. Sinhá-dona chorava no ombro da menina que criara, antes de embarcá-la no trem para Campina Grande, onde um carro-de-boi a aguardava, com destino a Cuité.
No último abraço, lembrou-lhe a força conquistada ao longo dos anos. Pediu-lhe que jamais deixasse morrer o sonho da liberdade que romperia os grilhões da opressão.
No próximo capítulo, a chegada de Naucete rompe o equilíbrio silencioso da fazenda e desperta resistências veladas entre criados e senhores. Ao mesmo tempo, Nhá Perpétua reforça sua imagem de mulher devota, mas sinais inquietantes começam a surgir sob a aparência de santidade, chamando a atenção do Vigário e envolvendo o Coronel em uma confissão inesperada. Ruídos noturnos, objetos ocultos e murmúrios da criadagem passam a dar forma a segredos que ninguém ousa nomear. A tensão aumenta quando Sinom retorna de viagem trazendo um animal que prometia prosperidade ao rebanho. O experimento termina deixa como herança um bezerro estranho, voraz e indomável. Crescendo rápido demais e espalhando medo pelos campos, ele marca o início da lenda do boi-da-cara-preta.



















