O ambicioso e cínico presidente do Partido dos Trabalhistas não se importa com os métodos que pode utilizar para chegar ao poder. Ai...

De política e políticos

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O ambicioso e cínico presidente do Partido dos Trabalhistas não se importa com os métodos que pode utilizar para chegar ao poder. Ainda que expurgado pelo seu partido, ele encontra meios de manipular antigos companheiros e se associa à imprensa para desacreditar o novo governante, na tentativa de forçar uma renúncia que lhe permita voltar ao governo, pois acredita ser o único que poderá consertar o país. O país, por sua vez, acompanha um crescimento da direita, pelo fato de que a população, passa a perceber que a diferença entre direita e esquerda está apenas no discurso.
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Os métodos e as práticas são as mesmas, porque a ambas só interessa uma coisa: estar no poder e nele se perpetuar.

Calma, pessoal, estou me referindo à Dinamarca, mostrada ficcionalmente na série Borgen (Netflix, 2010-2013). Para quem gosta de ação, a série é morna, mas para quem aprecia uma trama cuja verossimilhança interna – a única exigida na ficção – disputa passo a passo com a verossimilhança externa, ver-se-á, então, diante uma boa série. Borgen (denominação para o castelo que abriga, ao mesmo tempo, a sede do parlamento, do Supremo Tribunal de Justiça e o gabinete do primeiro-ministro) é, antes de tudo, uma aula de política. Da boa política e da má política. É uma série que se encontra no mesmo nível de Rita, também dinamarquesa, abordando os problemas da educação.

A má política fica por conta dos meios escusos que os políticos viciados utilizam para chegar ao poder; dos discursos retóricos, da confusão deliberada entre o público e o privado, na conivência do poder estatal com o poder financeiro, de quem recebe ordens, e assim vai.

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A boa política está encarnada em Birgitte Nyborg, presidente do Partido Moderado, que se vê, pela sua honestidade, simplicidade e transparência, guindada ao cargo de primeira-ministra da Dinamarca, não sem muita luta contra os homens, sempre prontos a predar uma mulher. Mas a aula de boa política não reside no fato de que a população lhe dá uma parte desse credenciamento, ao lhe conceder aumento das cadeiras de seu partido no Parlamento, através do voto. Está na maneira como ela vai aprender a tratar com políticos que a desdenham ou que a veem com condescendência, pelo fato de que ela é mulher. É de espantar que em países adiantados, com uma população mais esclarecida, a mulher ainda seja tratada dessa forma.
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Sidse Babett Knudsen (Birgitte Nyborg), em Borgen ▪ Fonte: Imdb
E a série não descarta o assédio sexual, dentro ou fora da política. De qualquer forma, Birgitte Nyborg tem que lutar mais do que qualquer outra pessoa para se impor e poder governar, ainda que com grande dificuldade.

Uma lição que a série nos dá através da personagem é que existe uma dignidade no trato da coisa pública que não pode ser negociada. A separação entre a coisa pública e a coisa privada é uma delas. É a base da democracia republicana. O primeiro-ministro anterior, Lars Hesselboe, líder dos Liberais, vê desabar as suas chances de continuar no cargo por causa de uma merreca de 71 mil coroas (cerca de 7000 euros), despesas da mulher numa viagem política a Londres, pagas com o cartão corporativo... Que inveja, meu Deus!

Outra lição é que não dá para governar sem alianças, sobretudo, num regime parlamentar. No entanto, pode haver alianças estabelecendo limites. Se um governo faz alianças indiscriminadas e não estabelece limites torna-se refém dos seus “aliados” (a inveja só aumentando...).

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Antes de partir para a última lição, ouso dizer que o parlamentarismo é o que me parece o melhor sistema de governo para uma democracia. Basta um voto de desconfiança no parlamento, por causa da perda do apoio político da maioria, e o governo cai, estabelecendo-se novo gabinete. É infinitamente menos traumático, além de mais rápido e menos oneroso do ponto de vista financeiro, do que o presidencialismo atingido pelo impeachment. Já passamos por dois na história recente de nossa claudicante república, com a perspectiva de passarmos por mais. Enquanto não desenlaçamos esse nó, o país se esfacela. A maturidade política está longe de ter aportado no Brasil.

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Como última lição, vemos que o orçamento público é coisa séria, seriíssima, diria José Dias, que pode determinar a queda de uma primeira-ministra ou primeiro-ministro. Há uma responsabilidade enorme em se aplicar bem os recursos públicos, pois governo não gera recursos, governo toma recursos através de impostos. Dinheiro que pertence ao povo e que deve retornar a ele, contribuindo para o bem-estar coletivo. Ainda, também, não aprendemos isto, achando que governo tem dinheiro e que ele dá dinheiro, quando institui um benefício social. Como se trata de algo de extrema seriedade, o orçamento tem que ser transparente e, sobretudo, deve beneficiar a população, em larga escala, a quem o dinheiro pertence. A Dinamarca, por exemplo, apesar de um futebol de nível – há alguns anos chegou a encantar o público em uma Copa do Mundo, sendo chamada de “Dinamáquina”, além de ser campeã europeia –, jamais empregaria dinheiro público em estádios inúteis ou sediaria eventos dispendiosos, tendo a necessidade premente de construir e aparelhar a infraestrutura de hospitais e escolas.

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Uma população com acesso à educação e à saúde é a mais apta a escolher seus representantes e, quando eles não correspondem, é também a mais apta a fazê-los correr, por meio do voto, para que eles não se reelejam. Se a democracia é o pior dos regimes políticos, excetuados todos os outros, como disse Churchill, ela também não existe para que escolhamos, necessariamente, os melhores, mas para evitar que os piores se perpetuem no poder.

Não dá para ser igual à Dinamarca, como muitos que sonham com uma educação igual à finlandesa. Mas dá para aprender com eles, ainda que a ficção seja o nosso Norte. Aprender mesmo, exigindo dos políticos, por exemplo, nas próximas eleições, um programa para a saúde e para a educação, exequível e detalhando de onde virão os recursos, quando iniciará e por que regiões do País. Se nada aprendermos com o que está acontecendo, continuaremos a viver a inutilidade do bater panelas e a expressar o doentio da histeria sem limites.

Falemos de algo ainda mais importante, a Educação. A primeira-ministra da Dinamarca, Birgitte Nyborg, como já afirmamos, não se intimida diante dos homens, e até de algumas mulheres,
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que lhe fazem uma oposição suja, não acreditando que uma mulher possa governar. Em pleno século XXI, num país adiantado e bem economicamente, o protagonismo de uma mulher mais do que incomoda, ele ofende muitas pessoas. Birgitte, contudo, enfrenta com firmeza e sem temor, todos que atravessam o seu caminho, querendo desacreditá-la, ainda que o preço para isso seja ver a família degringolando. Ironia das ironias: seu idealismo, sua força de trabalho, sua inteligência, sua educação e seu charme estão a serviço do bem-estar dinamarquês, com propostas exequíveis, honestas e transparentes, mas a política, a boa política, suga a energia que ela não tem para dedicar à família.

Merece atenção o projeto de educação que ela tem para a Dinamarca. Proposta de uma educação de excelência, atingindo todas as crianças e jovens dinamarqueses, para que, no futuro, eles não precisem recorrer ao assistencialismo de Estado, vórtice onde boa parte da verba estatal é turbilhonada, com retorno pífio. Que a assistência social deva existir, é um fato, mas que vire assistencialismo sem perspectiva de mudança, só vicia.

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A educação tem esse poder de transformação, quando preparada e planejada nos seus mínimos detalhes e com uma infraestrutura sólida, a partir de investimentos contínuos, que trarão resultados benéficos, como uma sociedade educada, esclarecida, dotada de bons profissionais e de cientistas. O problema é um só: quantos querem esse tipo de sociedade?

A primeira-ministra apresenta o seu projeto de uma nova Dinamarca, a partir da revolução educacional, mas os recursos devem sair de algum canto para financiá-lo. Apesar de país rico e detentor de tecnologia
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de exportação, o projeto pode nem ser aprovado, pois os partidos, na briga por espaço político e por poder, não querem abrir mão de percentuais das verbas dos ministérios que eles controlam, condição sine qua non para a formação de um governo de coalizão. O olho está focado no poder, não na sociedade. Cada qual apresenta um argumento pontual, que serve apenas para o hoje, teimosamente cegos para a transformação benéfica que ocorrerá paulatinamente com o desenvolvimento que a educação trará.

Esse episódio em Borgen serve de mote para falarmos do Brasil. Que governo apresentou um projeto de Estado para a educação? Não estou falando de projeto de governo ou de promoção pessoal. Estou me referindo a um projeto detalhado, com apontamos para a saúde, no sentido de como vai ser a escola, a sua infraestrutura de esporte, arte, biblioteca, laboratórios, assistência médico-dentária, alimentação adequada, com profissionais bem pagos e cobrados nas suas responsabilidades. Detalhando, inclusive, quando, como e por onde iniciará; de onde virá a verba que o financiará, verba que jamais poderá ser diminuída ao longo do tempo. Estou com 69 anos de idade, mais de 50 dedicados à educação e nunca vi nada nesse sentido.

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Quantos de nós, que nos dizemos aberta e orgulhosamente progressistas, cobramos de nossos representantes um projeto que poderá nos tirar da miséria em que vivemos; projeto capaz de criar milhões de empregos a médio prazo? Quantos políticos demonstram interesse em um projeto assim? E não demonstram por dois motivos: a população não exige e, em exigindo, essa transformação pela educação diminuirá consideravelmente o curral eleitoral que persiste na nossa sociedade.

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Reflitam que a ficção mostrada na série não é mera invenção ou fantasia. A ficção sai da realidade e, de um modo mais metonímico ou mais alegórico, a reflete. A ficção de Borgen é metonímica, porque perfeitamente plausível com aquilo que costumamos chamar de realidade. Imaginem, agora, que a Dinamarca é um país com uma área menor do que a Paraíba (43.100 km2 contra 56.500 km2) e uma população um pouco maior (6.000.000 contra 4.500.000 habitantes). A Dinamarca com um aliado que impede o crescimento de miseráveis e sem-tetos – o frio – enfrenta problemas para a implantação do seu projeto. Como nos haveremos de sair, se os problemas de nosso país continental, abrigando diversas Dinamarcas em seu território apresenta problemas estruturais seculares e, atualmente, sangra, dilacerado por uma briga cruenta e insensata de poder, sem que os interesses da população sejam escutados?

Não vejo saída, a não ser com uma ampla frente nacional para um projeto de educação sólido, consistente, que vise o futuro, sem descuidar do hoje.

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  1. Seu oportuno texto expõe um programa de governo para qualquer candidato sério, Milton. A ficção, como se vê, pode dar boas lições à realidade. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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  2. Obrigado, Gil! A Educação deveria ser o Norte de todos.

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  3. Parabéns, Mílton. Quem nos dera ter um governo assim! E os votantes também.

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  4. Sérgio Rolim Mendonça

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