Discreto ao modo do conquistador sonso, ei-lo, camuflado entre seus pares, se bem que de maneira inócua diante do brilho prateado que o rev...

A parábola da vida


Discreto ao modo do conquistador sonso, ei-lo, camuflado entre seus pares, se bem que de maneira inócua diante do brilho prateado que o reveste, sorrindo para mim como o menino traquino que se regozija quando sua má-criação, engenhosamente levada a cabo, finalmente lhe é atribuída, garantindo-lhe, apesar da pisa, a massagem no ego travesso. Ali está, na imagem clonada pelo espelho, todo faceiro, o meu primeiro cabelo branco. Um pêlo branco! Qual não é a surpresa de se deparar com o primeiro cabelo branco?

Ele me aparece num lugar estrategicamente escolhido: sobre o peito esquerdo. “E por que não no couro cabeludo?”, pergunto-me, curioso. Poder-se-ia atribuir tal escolha a um fato nobre. O tórax em vez da cabeça, o coração em vez do cérebro, a emoção em vez da razão. Seria sua escolha uma indicação de que o envelhecer deve ser compreendido pelo lado espiritual e não pelo caráter estritamente biológico, material? Não, a sua escolha não tem nada de transcendental, é apenas uma esperteza que deve aqui ser relatada. A cabeça não lhe era lugar seguro, pois os seus primos que ali residem estão partindo cedo com a calva proeminente. Nas têmporas poderia ser, pois os cabelos que ali fixam morada são como flagelados da seca, que mesmo diante das vicissitudes da vida dura na caatinga, mantém-se na terra inóspita de onde brotaram, nutrindo-se com calangos e fé. Mas ali também não, pois há o risco de um surto de vaidade – sempre ela – culminar numa tintura, e a sua condenação a uma eterna cor violeta – apesar de na embalagem constar preto – ou “acaju”. A barba nem se fala. Uma navalhada e lá estaria ele, caído, gosmento pelo creme de barbear, sujeito a toda sorte de encontros desagradáveis no sistema de esgoto.

No peito, ali sim é um bom lugar. Um porto-seguro. Os cabelos do peito não caem. Pelo contrário, para cada cabelo da cabeça que se vai parece que nasce uma tropa no resto do corpo. Que lógica! E quem danado pinta os cabelos do peito!? Nunca se ouviu falar, pelo menos não é fato divulgado pelas propagandas de tintas. Raspar o peito!? Não se tratando de um nadador profissional ou de uma dragqueen, ninguém raspa o peito, pelo menos é o que se pensa. Um lugar estrategicamente escolhido.

O que dizer do nosso primeiro cabelo branco? Aos vinte e oito anos apareceu-me, no peito, meu primeiro pêlo branco. Com a queda de cabelo e as rugas eu nunca me preocupei. Esses sinais do passar do tempo acontecem devagar, acompanham nossas venturas, são companheiros numa longa viagem de sabores e dissabores. Mas o cabelo branco não. Ele não fica claro aos poucos. Da cor original passa ao branco, sem nenhum pudor.Um dia está você se olhando no espelho, escovando os dentes ou tirando sujeira do nariz, e lá está ele, todo branco. E o fatídico e inevitável pensamento – e não quero aqui fazer terror com o leitor que já tem mais que o pioneiro cabelo branco no corpo – vem a minha mente: “terei, finalmente, chegado ao ponto descendente na parábola da vida? Será que após o glorioso e inconseqüente aclive da mocidade cheguei na ladeira vertiginosa da maturidade? Afinal de contas, estou ficando velho!?” E lembro-me do filme “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”, cujo título se torna sugestivo quando você descobre que ele conta a história de pessoas que acabaram de concluir a faculdade.

E agora me pego a pensar se devo extirpá-lo [sim, o cabelo branco] do meu corpo, e viver da doce ilusão de que o tempo não passa, “relativisando-o” como na teoria do gênio alemão, procrastinando o envelhecimento, olvidando que “a vida é uma contagem regressiva”, como alguém apropriadamente já observou, escondendo-me das recordações do passado, preferindo que a morte me pegue sorrateira, numa emboscada, pois assim a vida seria bem mais agradável; ou se devo mantê-lo e orgulhosamente cultivá-lo como a maior lembrança de que passei por todos esses anos, e que, feliz – de longe em sua maior parte –, vivi cada idade, lembrando da infância, de quando minha linda mãe carinhosamente ensinou-me a amarrar os cadarços dos sapatos, das brigas no colégio, das quais saía sempre derrotado pelo colega mais robusto, dos mimos dos meus irmãos, que mesmo depois desse cabelo branco ainda continuarão a tratar-me como criança, do namoro adolescente e afoito na varanda, flagrado pelo pai da moça, dos muitos amigos, uns que permanecem outros que partiram, do banco de reservas, conseguido a duras penas, no time da escola, das paixões correspondidas, e de outras nem tanto – tudo bem, estas em maior número que aquelas –, dos grandes companheiros da faculdade, do sublime amor, vacilante e inseguro, que, contrariando os contos de fadas, insiste em não ser eterno, do elogio, ainda que suspeito por vir de um amigo, à crônica mal acabada.

As duas opções são legítimas e têm lá suas vantagens. Por enquanto, vou ficar com a segunda. O cabelo branco não é um mau presságio, mas um marco comemorativo que me mostra que já faz vinte e oito anos que meus pulmões receberam a primeira carga de ar poluído, e que continuo inspirado na arte de viver. Já fui agraciado com vinte e oito, espero que venham mais alguns anos. Afinal, ainda não escrevi nenhum livro, não plantei nenhuma árvore e sequer, assim suponho, tive um filho, que é o mais fácil – e mais esperado! Mãos à obra, então.


Douglas Antério é advogado e cronista
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