O bom escritor é aquele que sugere mais do que diz. O que esconde suas ideias nas entrelinhas e deixa o leitor mergulhar para ir buscar os ...

O bom escritor

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O bom escritor é aquele que sugere mais do que diz. O que esconde suas ideias nas entrelinhas e deixa o leitor mergulhar para ir buscar os sentidos escondidos pela estrutura aparente. Na poesia, pelas suas qualidades intrínsecas, como a concisão e a elipse, a sugestão é mais recorrente do que na prosa, o que não significa que o prosador – contista, novelista ou romancista – se exima de sua utilização. Constato um dos belos exemplos de sugestão em poesia, justamente, em uma estrofe do poema “Tristezas de um Quarto Minguante”, de Augusto dos Anjos, cujos elementos descritivos e narrativos o aproximam da prosa.

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Na segunda parte desse poema (estrofes 12-18), em que o eu-lírico, insone, decide se deitar, continuando, porém, desperto e sentindo virem “à imaginação sonhos dementes” (estrofe 13, verso 49), vemos a origem dos seus delírios noturnos. É o momento em que se constrói uma imagem a sugerir a morte por enforcamento, de que podemos extrair também a sugestão de um ato suicida. A possibilidade de suicídio é logo rechaçada pelo eu-lírico, para quem a morte é certa e inelutável – “a alfândega, onde toda a vida orgânica/há de pagar um dia o último imposto” (“Os Doentes”, parte III, estrofe 30, versos 117-118) –, mas não a morte através de um ato voluntário. Julguemos a estrofe 12 de “Tristezas de um Quarto Minguante”, na sua inteireza (versos 45-48):

“Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.”

A estrofe é nitidamente prosaica, como podemos observar pelo seu vocabulário denotando a miudeza trivial de um quarto de dormir: gancho, chapéu, corda, lençóis. O tratamento que se dá a esses elementos é que os faz poéticos: os lençóis balançado numa corda, lembrando mortalhas, incomodam o eu-lírico, preso num ambiente angustiante de um quarto de dormir que, à medida que “a lua magra” (estrofe 2, verso 6) faz-se mais minguante, ele igualmente míngua. O incômodo é menos por lembrar a morte do que pela sugestão de suicídio por enforcamento. Ideia prontamente recusada, com a resolução de desmanchar “o amontoamento dos lençóis”, remonta a “Monólogo de uma Sombra”, por o eu entender que o suicídio é um dos “martírios das criaturas”, (estrofe 28, versos 163-169).

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Selecionei ainda alguns trechos em prosa, para verificarmos esse poder de sugestão do escritor. Dois de Machado de Assis e três de Émile Zola.

Em duas passagens de Dom Casmurro, Machado diz da condição social de Capitu e de Bento Santiago. A de Capitu por um texto sugestivo in praesentia e a de Bento, cuja sugestão vem in absentia. Nas mãos de um escritor qualquer, a situação social que separa as duas crianças seria revelada de maneira simplória e direta, dizendo-as uma rica e bem de vida, Bento, e outra pobre, Capitu. Os dois trechos se encontram distanciados, mas retomando o mesmo tema. O primeiro está no Capítulo XIII – Capitu:

Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ela mesma dera alguns pontos.

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O fato de o trecho estar envolto numa aura de amor infantil e idílico tem o objetivo de desviar o leitor da revelação da pobreza de Capitu. A informação sobre o “vestido de chita, meio desbotado” se perde na descrição da amada, de que Bento “não podia tirar os olhos”. É um convite ao leitor para que também não retire os olhos dessa visão amorosa de Capitu, cujas mãos “eram curadas com amor”, mãos que a menina “trazia sem mácula”. São recursos estilísticos de desvio da atenção de que se impregna o espírito do leitor embevecido com o início do namoro, mais do que as informações a respeito de “ofícios rudes” ou que “água do poço e sabão comum” é que tratavam as mãos amadas melhor do que os “sabões finos” ou as “águas de toucador”.

Vejamos o outro trecho, pertencente ao Capítulo XXXII – Olhos de Ressaca:

Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares...

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Nesse momento, o leitor está preocupado em saber, tanto quanto Bento Santiago, qual o sentido da definição de José Dias para os olhos de Capitu, “olhos que o Diabo lhe deu... assim de cigana oblíqua e dissimulada” (Capítulo XXV – No Passeio Público). Outro fator ajuda a desviar a atenção: Bentinho, ao saber que Capitu se encontra sozinha na sala penteando os cabelos, deseja pregar-lhe um susto. A dupla expectativa não faz o leitor prestar, necessariamente, a atenção na descrição do espelho – “espelhinho de pataca, comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão” – e, principalmente, no tom confessional dirigido ao leitor – “perdoai a barateza” –, estilisticamente reforçado pelos parênteses. Em suma, Capitu é pobre, mas sua pobreza é vista pelo olhar complacente, indulgente e embevecido de quem está descobrindo o amor. E o leitor é levado por essa ideia.

Os últimos trechos pertencem ao livro Le ventre de Paris (O ventre de Paris, 1873), romance de Émile Zola. O primeiro trecho (Capítulo II), mais do que os dois anteriores de Machado de Assis, se tivesse caído nas mãos de um escritor inabilidoso seria um verdadeiro desastre. Como não sou romancista, apresentarei o trecho na sua língua original, seguido de uma tradução operacional minha, assim, os que conhecem a língua francesa poderão fruir melhor o texto:

“Lisa, debout, mangeait un morceau de boudin tout chaud, qu’elle mordait à petits coups de dents, écartant ses belles lèvres pour ne pas les brûler; et le bout noir s’en allait peu à peu dans tout ce rose.”

“Lisa, de pé, comia um pedaço de boudin muito quente, que ela mordia a pequenas dentadas, separando os lábios, para não os queimar; e o pedaço negro desaparecia, pouco a pouco, em todo aquele rosa.”

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O boudin é um tipo de embutido condimentando, muito apreciado na França, feito de sangue e gordura de porco. Há vários tipos, mas o que Lisa está comendo é o preto, “boudin noir”, no jargão da cozinha francesa. Lisa é a dona de uma charcutaria, estabelecimento especializado no fabrico e comércio de salsichas e embutidos de várias sortes. Nova e bonita, Lisa é esposa do irmão de Florent, Quenu, que o abriga no seu retorno a Paris, após 7 anos de ausência. A cena que acabamos de reproduzir é o final de um dia de trabalho no estabelecimento de Lisa, flagrado por Florent, aparentemente, sem qualquer interesse que não seja o de mostrar a personagem comendo o produto que ela mesma fabrica. No entanto, é notório como o ato inocente de se comer um pedaço de salsicha se reveste de sensualidade e de erotismo.

O romance, na sua filiação naturalista, embora não se limite ao programa dessa escola literária, contribui, ao longo de sua narrativa, com o apelo sensorial da sinestesia, em que entram os odores quentes, gordurosos e picantes das salsichas e linguiças, tanto quanto o cheiro acre e marinho dos peixes, vendidos nos Halles, o grande mercado parisiense, como o que se impregna pelo corpo da Bela Normanda, a vendedora de peixe (Capítulo III):

“C’était un parfum persistant, attaché à la peau d’une finesse de soie, un suint de marée coulant des seins superbes, des bras royaux, de la taille souple, mettant um arôme rude dans son odeur de femme.”

“Era um perfume persistente, pregado na pele de uma fineza de seda, um suor gorduroso de maré escoando dos seios soberbos, dos braços de rainha, do talhe flexível, deixando um aroma rude no seu cheiro de mulher.”

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Do sensorial para o sensual a fronteira é tênue e sutil, nunca ultrapassada, sempre sugerida no romance. Aí reside a grandeza do escritor. Em um determinado momento, Lisa encontra-se no porão do mercado de aves, com o jovem Marjolin lhe mostrando cada detalhe daquele espaço. Apaixonado pela bela charcuteira, ele perde a timidez diante dela e se sente estimulado, por causa da atmosfera do ambiente, a abraçá-la, cheio de desejos. Ela o repele com um murro forte, entre os olhos, fazendo-o desmaiar. A maneira como se descreve essa atmosfera de um cheiro forte e sensual, antes da ação que nós comentamos mostra como um grande escritor como Zola constrói a cena com o tom certo de ambiguidade, em que o odor das aves vivas, num local escuro e quente embriaga, pela pouca circulação do ar, mas ao mesmo tempo excita o instinto sensual (Capítulo IV):

“Depuis un quart d’heure qu’il était [Marjolin] dans le sous-sol avec la belle Lisa, ce fumet, cette chaleur de bêtes vivantes le grisait.”

“Depois de um quarto de hora que ele estava no subsolo com a bela Lisa, esse odor, esse calor de bestas vivas o embriagava.”

Como dissemos, anteriormente, nas mãos de um escritor inábil, o flagrante revelado pelo trecho citado, em que Lisa come um pedaço de boudin, e mesmo o acima poderiam descambar para o mau gosto, com um viés pornográfico. Nesse último caso, a embriaguez provocada pela pouca circulação de um ar viciado se tornaria excitação e faria assomar as bestas vivas que, saídas do âmbito das aves, se fixariam apenas nas duas pessoas ali presentes.

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O duplo sentido de um quarto minguante, que reflete uma angústia existencial; o olhar amoroso, que desvia a atenção da classe social; a ambiguidade de situações sensoriais, que levam à sensualidade e ao erotismo, são recursos estilísticos que ocultam sentidos e, ao mesmo tempo, os revelam, quando o leitor se sente instigado a ir além da horizontalidade do texto. Da meia luz do quarto ao ambiente escuro e sinestésico de um porão de aves, passando pelo reflexo de um espelhinho de pataca, a lição que permanece é que importa não o que se escreve, mas como se escreve. E isto serve para a leitura.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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