Nessa época de final de ano é comum recebermos uma quantidade enorme de mensagens, às vezes piscando cheias de Papai Noel, árvores enfeita...

Cuidar é acima de tudo um ato de amor

Nessa época de final de ano é comum recebermos uma quantidade enorme de mensagens, às vezes piscando cheias de Papai Noel, árvores enfeitadas, guirlandas e frases com Feliz Natal! Próspero Ano Novo! Chamou-me atenção uma mensagem do laboratório produtor da Novalgina, um vídeo com o título “um ano de colo”, com Marcos Piangers, autor do livro Papai é Pop, em que ele compartilha histórias e conversas sobre paternidade. Ele tem muitos seguidores nas redes sociais, e aborda temas bem interessantes do dia a dia das famílias e criação dos filhos.

Na mensagem da novalgina, ele relata um momento de estudos com as filhas, quando estão pesquisando sobre a origem das civilizações e a evolução da humanidade, e fala de uma antropóloga que define como o primeiro sinal de civilização a cicatrização do fêmur, com essa possibilidade de cuidado, a sobrevivência foi um marco. Trechos da fala me sensibilizaram, que nos fazem refletir:

“Tornamo-nos civilizados mesmo, quando exercitamos o cuidado. Não estamos aqui sozinhos, precisamos nos esforçar no cuidado de quem está ao nosso redor, quando reforçamos os laços de confiança uns com os outros. Espero que 2020 tenha sido um ano de reflexão sobre isso, um ano que nos tornou mais humanos!”

Nunca fui entusiasta das festas de final de ano, de comprar presentes com lojas cheias, ansiedade e desgaste para mim desnecessários. Natal então, não gosto mesmo. A festa de ano novo, sim, eu gostava, sempre com esperança de renovação, uma alegria como o carnaval. Mas fui perdendo o encanto depois que o maior animador da nossa família, meu irmão Nal, foi fazer a festa no céu. Gosto das comidas que são feitas apenas nessa época, e de encontrar as pessoas queridas, mas, sem a euforia que vai tomando as casas e as ruas. Acho que esses momentos são bons mesmo para as crianças que podem encontrar primos e primas, receber presentes, dormir tarde, essas coisas….

Neste ano de 2020 estou ainda mais alheia às festividades natalinas, e gostaria que muitos estivessem assim também. Ando mais preocupada com a pandemia que ainda está aqui rondando todas as casas e lugares. Por isso a mensagem da novalgina me tocou tanto. Comecei a lembrar dos meus estudos para conclusão do curso de Comunicação, lá pelos idos de 1994, quando estudei a visão holística (olhar o todo). Era algo até estranho de se falar, no ambiente acadêmico daquela época, e sofri com isso, mas, permaneci com minhas convicções que se tornaram ainda mais presentes nesses tempos de isolamento e Covid-19.

Lembrei também do mestrado em saúde pública, quando li muito sobre a ética do cuidado, a humanização do atendimento, e como me apaixonei pelo Sistema Único de Saúde, sua história, suas lutas. Terminei passando 20 anos no Ministério da Saúde. Quantas matérias escrevi, linhas do tempo, publicações e relatórios… Quantos conteúdos selecionei para a Biblioteca Virtual, quantas conversas sobre equidade e direito de todos… Depois, muitas coisas vivi na implementação e gestão das políticas de saúde, e como me encantei com tudo isso.

Criei laços, fiz amigos e compartilhei sonhos, pessoas queridas que me alimentam de amor até hoje. Como ficar indiferente com essa falta de cuidado por um bem público tão precioso, tanto desfazimento de tudo, a cada dia mais um projeto, mais uma conquista de anos indo por água abaixo? O SUS não merece. A população em especial, que só tem o sistema público, não merece, não deveríamos destruir um patrimônio como este, tão imprescindível. O Brasil precisa do SUS!

Mesmo em casa não consigo ficar alheia. Isso tudo fez e faz parte de mim, do meu ato de cuidar. Não posso fazer quase nada, a não ser no meu entorno, no que estiver ao meu alcance. Mas posso sim, falar dos profissionais que estão lutando dentro e fora das unidades de saúde, dos técnicos e gestores que batalham neste cenário de quase um ano de pandemia, que se empenham para que mais vidas não sejam perdidas, e para que o SUS não seja destruído. Posso sim, falar desse cuidado diário, na dedicação desses profissionais, que, com certeza, estão bastante cansados, precisando de cuidados também. E só tem um jeito: cuidando de nós próprios, não sendo mais um nas ruas a contaminar, não sendo mais uma internação a lotar os hospitais.

Como podem ser verdadeiras as mensagens de Natal com tanto desamor aos outros? Como pode tanta falta de respeito à saúde de todos? Este deveria ser exatamente o momento de estarmos solidários, mas parece que o Natal desses novos tempos só tem valor para o comércio e para o consumo. O espírito de fraternidade passa ao largo.

Sei que não é assim em todas as famílias, e que muitas ações solidárias acontecem, mas não precisamos ir muito longe para ver o que está acontecendo. Shoppings lotados, os bares da orla cheios de pessoas sem máscaras, distribuindo vírus para todos os lados. Sabemos que os casos de covid-19 têm crescido bastante, especialmente pós eleições. Quem tem um mínimo de sensatez sabia que isso poderia acontecer. Agora vem a promessa, ou não, das vacinas, e, com essa possibilidade, uma parte da população já se sente “protegida” e sai de casa normalmente, voltando à velha rotina de final de ano.

Penso que o cuidado de forma ampla e holística é a saída para esses tempos de pandemia, pois ela ainda não passou. Precisamos largar o negacionismo, precisamos nos cuidar, cuidar dos nossos e do próximo. Falta pouco. É só conseguirmos continuar com as medidas de proteção e evitar aglomerações. Quanto mais pessoas nas ruas, mais tempo teremos que ficar isolados. Estamos todos cansados disso tudo, eu também estou, mas não há outra forma, pelo menos no momento.

Nem todo o sofrimento que vivemos em 2020 está sendo capaz de sensibilizar. Não temos mais a possibilidade de “cicatrizar nosso fêmur”, para voltarmos a ser civilizados e passar a cuidar uns dos outros. Passamos a ser marionetes de desejos fúteis como ir à balada, ao bar, à praia, pensando que a imortalidade chegou. Não somos mais capazes de exercer o cuidado com o outro, mesmo que esse outro esteja próximo ou que não saibamos quem é.

Nos ensinamentos cristãos, ensina-se a fazer o bem sem olhar a quem. Será que isso não está mais em uso? Será que a fraternidade e o amor ao próximo também estão em desuso? Até onde precisamos chegar para perceber que nada levamos dessa vida, apenas aquilo que podemos dar? E que hoje, ficar em casa, não nos aglomerarmos, pode ser o nosso maior presente? Cuidar é acima de tudo um ato de amor. Vamos espalhar cuidado!

Feliz 2021!


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  1. Brilhante reflexão🙏🙏🙏
    Parabéns Rejane Vieira👏👏👏
    Menos consumo..mais doação/ compatilhamento!!!
    Paulo Roberto Rocha

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