O pioneirismo da Paraíba em conceder o direito do voto aos presidiários aconteceu nos idos de 2010, aproximadamente. A notícia deu em qu...

Feio é não saber o que é bonito

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O pioneirismo da Paraíba em conceder o direito do voto aos presidiários aconteceu nos idos de 2010, aproximadamente. A notícia deu em quase todos os jornais do Estado e foi, sem dúvida, uma grande iniciativa, um grande reconhecimento, cujo direito, já há muito tempo, mofava atrás das grades, dentro das gavetas, impedindo esse exercício de cidadania, durante longos anos.

Só nessa época, miraculosamente despertado por alguém menos amnésico, foi celebrado o bom resultado do ato, entregando em mãos, agora livres, a certeza (antes presa) de um direito, o de votar em eleições para a livre escolha dos seus representantes. Tudo isso, evidentemente, em atenção aos direitos e garantias fundamentais assegurados constitucionalmente.
Porém, algo me chamou a atenção: a forma como essa medida foi colocada na mídia. Publicaram fotos coloridas, estampadas de cara nas primeiras páginas dos matutinos paraibanos. Foram escolhidas seis apenadas da Penitenciária de Recuperação Feminina Maria Júlia Maranhão, na capital paraibana. Elegeram as mulheres mais bonitas, vestiram-nas de roupinhas curtas de grife, rostinhos maquiados, cabelos bem escovados, chamando a atenção até do mais distraído leitor.

Em poses, visivelmente ensaiadas, ilustravam as suas matérias - a matéria carne - e, simultaneamente, a matéria do jornal que me levaram, num piscar de olho, a ficar me interrogando:

- Onde ficaram as não dotadas de beleza?

Foi muito curioso o que fiquei a perceber. Imaginei, mas uma resposta me veio no ar, imediatamente: decerto, não tiveram o direito de participar daquele portfólio, ao meu ver, meio delituoso.

Aquilo me chamava a atenção: onde se encontravam as mais sofridas, sem graça, descabeladas? Pelo que vi, ficaram de fora. Provavelmente, eram as que não tinham um corpo exuberante, as que exibiam no rosto as rugas de suas penas, as sentenças dessa vida, dessa injusta vida desigual e sem absolvição.

Provavelmente, elas ficaram do lado de dentro, portanto, de fora, talvez porque elas haviam perdido em algum lugar o sorriso, o seu belo anatômico ausentou-se do corpo e sumiu o viver com profundidade, como diria Milan Kundera.

Suas faces, talvez, refletissem apenas o azedume do coração trancado e estampado no rosto. Aquelas, justamente, não serviam para aquele momento, pois iriam expor os seus desgostos, escancarar – quem sabe? – o arrependimento inalcançável ou o latejar das feridas de um mundo obscuro. Desse jeito elas ficaram proibidas de ouvir o farfalhar da primavera, diante de suas retinas tristemente encarceradas.

Inexorável! Temos que repetir o adágio popularesco que tantas vezes já foi dito e reafirmado: “Assim caminha a humanidade”. Justo porque não aprenderam que nem sempre o bonito é bonito ou o feio é feio. Enfim, feio é não saber o que é bonito.

Ao olhar nos rostos e nos cabelos das elegantes apenadas, engalanadas nas estampas coloridas dos jornais, produzidas, certamente, pelo capricho de maquiadores e estilistas contratados com seus produtos de beleza, vi-as pintadas na face oculta e inescrupulosa dos autores da trama, a adúltera e criminosa exibição do papel - tudo afivelado às intenções das políticas do disfarce e da autêntica mediocridade. Publicidade com segundas intenções!!! Vi e senti, mais uma vez, a falta de respeito por parte de políticos medíocres, isentos de alma, presos à desmesura de seus perfis bichados, infinitamente indecentes. Enfim, assisti a um deleite comemorado e realizado através de um marketing de imaginação impudica e discriminatória.

A marca do espírito roto, sem nenhuma posição moral, muito menos evolutiva, pretendeu, estrategicamente e sem penalidade nenhuma, dar evasão aos interesses de atingir o mais alto impacto e, por conseguinte, algumas metas eleitoreiras. Portanto, foram malévolas as intenções desse planejamento estratégico de terrível mau gosto e sem nenhum sentimento de humanidade.

E assim se processam essas fealdades maledicentes, apresentando performances cinicamente programadas. Portanto, mais um ato autoritário chamado "exploração política", para não dizer exploração de mulheres presas, pagando as duras penas, as suas penas, e tendo mais que fazerem parte do desfile dos incansáveis algozes em busca de seus currais eleitorais.

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  1. Belissimo texto Poeta 👏🏻👏🏻
    Pior é vermos que nada mudou de 2010 até os dias atuais. A "exploração política" só evoluiu com o tempo.

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