De existência breve – embora “a arte seja longa” –, Jurandy Moura faleceu aos quarenta anos de idade, vítima de um desastre de...

Jurandy Moura, o poeta e o homem

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De existência breve – embora “a arte seja longa” –, Jurandy Moura faleceu aos quarenta anos de idade, vítima de um desastre de automóvel. Foi um dispersivo. O único livro que lançou, “A Vida simples”, somente o fez graças a uma espécie de ultimato do ensaísta, crítico e ficcionista Geraldo Carvalho, cujas Edições Caravelas publicaram, além de Jurandy e do próprio Geraldo, Maria José Limeira, Archidy Picado e José Leite Guerra, autores até então inéditos.

Recentemente, a Professora Carminha Moura, viúva do poeta, recolheu e selecionou alguns poemas dispersos de Jurandy, que devem ser publicados pela Editora Linha D’Água, do economista Heitor Cabral. O título, “Iluminuras”, tomado de empréstimo a Rimbaud, condensa a concepção do autor a respeito do mundo e da arte poética.

Pois bem. Se a poesia de “Iluminuras” é solar, nem por isso deixa de ser noturna. Quer dizer, se o eu lírico procura expor, desvelar o mundo, este parece negacear o corpo, na medida em que os poemas são impregnados por uma atmosfera volátil, fluida, responsável pelo sortilégio da lírica de Jurandy Moura.

Embora contasse apenas dezoito anos de idade, quando da publicação da antologia da Geração 59, não se pode dizer que os seus poemas de então já revelassem um menino-prodígio. E ainda bem que foi assim, pois a condição de menino-prodígio nem sempre vaticina ou assegura um futuro promissor ao poeta-aprendiz. O de Jurandy foi conquistado a duras penas, a custo de muitas leituras, conquanto ele já o delineasse nos sete poemas publicados na coletânea. Ou seja, nos poemas de “Iluminuras”, “reencontramos quase as mesmas linhas de força da poesia inicial”, o que já mostra um poeta consciente do seu “projeto-do-mundo e do seu ofício de escrever/criando”.

Os poemas da antologia nos revelam um Jurandy tributário da Geração de 45, do surrealismo, de um certo Jorge de Lima, e das múltiplas influências do leitor voraz e veraz que sempre foi e continuou a ser por toda a vida. Mas apesar da visão original do mundo, nem sempre a articulava e a resolvia através da linguagem. Às vezes, a emoção corria à frente da linguagem, sem que esta conseguisse alcançá-la para evitar os exageros das efusões ingenuamente sentimentais. Que o diga o poema “Louca loucura”, em que o poeta, diferentemente dos seus poemas que soam como música de câmera, quase sempre em surdina, grita a plenos pulmões:

“A noite acende o meu desejo de ser louco/ (...) Ele sabe do meu desejo de uma louca loucura./ (...) Quando eu pisar numa pedra ela dirá: é louco. Quando eu passar pelas ruas as casas dirão: é louco. Então eu poderei cantar,/ eu poderei chorar, eu poderei amar”.

Esse é o Jurandy Moura compatível com os seus verdes anos. O outro, embora já se entremostre na antologia, somente se revelará aos poucos, quando, fruto do labor e da pertinácia, saberá encontrar e diferençar a sua voz entre as muitas com as quais dialogou para a elaboração dos seus poemas.

Há um poema sem título, em “Iluminuras”, que desnuda o Jurandy de vida dionisíaca, gauche, “marginal”, agônica, compatível com o final que lhe foi reservado pelo destino. Ou, antes, por ele mesmo, uma vez que se deixou levar de roldão, à deriva, cegamente, vida afora insubmisso à vontade dos homens e dos deuses, administrando, ao seu modo, a sua trajetória terrena:

“(...) à merda as palavras vãs (...) MELHOR MORRER DE VÍCIO QUE DE DELICADEZAS ANTES MORRER DE BALA/QUE DE MEDO (...) Não lhe falte o fósforo ao cigarro a chama viva em meio à fumaça Vai alta a noite os dias sempre passam os abutres da fome a si mesmo desgastam ainda é duro o combate coração aberto ao mundo não se extinga a alegria buscada embora no gargalo da garrafa”.

O verso “MELHOR MORRER DE VÍCIO/ QUE DE DELICADEZAS”, se não chega a ser uma apropriação intertextual, remete o leitor para o Arthur Rimbaud do poema “Canção da torre mais alta”, mais especificamente aos seguintes versos do simbolista francês: “Mocidade presa/A tudo oprimida/ Por delicadeza/ Eu perdi a vida”.

Este, aliás, é um poema que destoa do universo da poesia de Jurandy Moura. E isso porque os demais, na sua maioria absoluta, primam pela elegância, pelo comedimento, pelo decoro, pelos bons modos. São, enfim, poemas delicados, lhanos, suaves, contemplativos, nos quais o eu lírico, em nenhum momento, utiliza a palavra MERDA ou termos afins.

No caso, é necessário observar, a palavra MERDA reina única, absoluta, soberana e insubstituível, pois só ela, apenas ela, pode expressar o clima de angústia em que se debate um eu lírico que, atento às lamúrias de Rimbaud ante a mocidade perdida, extraviada, por conta da repressão e das conveniências sociais, grita em letras garrafais: “MELHOR MORRER DE VÍCIO/ QUE DE DELICADEZAS”.

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Quando convocado para prestar um depoimento sobre João Cabral de Melo Neto, no livro “João Cabral de Melo Neto – Retrato falado do poeta”, da professora Selma Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco, Ferreira Gullar estabeleceu um lúcido cotejo entre o homem Cabral e a sua poesia: “A razão da poesia de João Cabral é esta que já falei primeiro, como todo poeta é uma necessidade existencial dele, psicológica inclusive, necessidade de ordem numa pessoa que tem uma fragilidade interior muito grande. Ele então se constrói, porque o mundo é inventado por nós, nós somos invenções nossas, nós nos inventamos, então João Cabral se inventou o contrário do que ele era, ele se inventou um poeta racional, objetivo, equilibrado e formal”.

Enfim, se o apuro formal, a contenção e a harmonia dos poemas de Jurandy Moura serviram de ponto de apoio e de equilíbrio à sua fragilidade, o verso “MELHOR MORRER DE VÍCIOS/ QUE DE DELICADEZAS” resume o seu estilo de vida e soa como um epitáfio.

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  1. Parabéns👊👊👊👊👊👊👊
    Sérgio de Castro Pinto👊👊👊👊
    Endosso o conentario de Francisco Gil Messias...
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Devo dois grandes momentos a Jurandy Moura. Quando fiz o teste para O Salário da Morte, em Pombal, vi que me saíra muito mal e disse ao Linduarte Noronha e ao José Bezerra Filho que procurassem outro ator. Jurandy soube disso e me mandou o livro "O Ator de Cinema", de Pudovkin, em que o autor conta que estava numa turnê com "O Jardim das Cerejeiras" do Tchékov, quando, numa cidade em que havia um... jardim de cerejeiras, resolveram fazer um ensaio in loco..., com que ele viu o desastre que lhe tornou clara a diferença da interpretação teatral para a cinematográfica - em que o ambiente é real e a câmera, íntima. Foi o que me permitiu passar do palco pra tela. Logo depois do filme, já em João Pessoa, escrevi meu primeiro romance, "Israel Rêmora" e levei os originais para Jurandy que, uma semana depois, me disse "Está muito ruim". No que fui argumentar, me cortou: "Não vamos discutir. Ponha a data de hoje na capa, vá escrever outra coisa e, daqui a seis meses, retorne ao livro, que você passará a ler como leitor, não como autor." Fui escrever "A Canga". Seis meses depois, nova leitura do "Israel" e o impacto. Refiz o livro e ganhei o Fernando Chinaglia com ele. Passei a submeter meus originais, sempre, a três ou quatro bons leitores, antes de publicá-los. O "Relato de Prócula" foi salvo por Ivo Barroso. Estou, neste momento, sob o nocaute de pareceres negativos de meu novo poema longo, "1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite" - e a voz que ouvi foi a de Jurandy me dizendo novamente "Bote a data na capa, vá escrever outras coisas e volte ao livro daqui a seis meses".

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