Início da década de 1880. O tráfico de escravos da África para o Brasil já havia acabado. Nas Américas, apenas o Brasil e Cuba mantin...

O Dragão do Mar, o Almirante Negro e o Poeta

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Início da década de 1880. O tráfico de escravos da África para o Brasil já havia acabado. Nas Américas, apenas o Brasil e Cuba mantinham ainda o regime escravista. O declínio da atividade açucareira no Nordeste e a expansão das lavouras cafeeiras em São Paulo fizeram surgir, no país, um tráfico interno de escravos, que era feito entre as províncias do Nordeste para o Sudeste.

Ao mesmo tempo, crescia o movimento abolicionista. Agremiações emancipadoras despontavam por toda parte, e, no Ceará, não foi diferente. No final de janeiro de 1881, um navio atracou no porto de Fortaleza para que fosse embarcado um grupo de escravos que iria ser vendido no Sudeste do país. Instados pelo jangadeiro negro José Luís Napoleão, os demais praieiros se recusaram
a transportar nas suas jangadas, do porto até a embarcação, aquela infeliz carga humana.

Aquela foi a primeira reação, registrada pela história, ao transporte interprovincial de escravos no país. Julgando-se incapaz para liderar a continuação da paralisação, José Napoleão passou o comando do movimento ao prático do porto, Francisco José do Nascimento (o Chico da Matilde, o Mestre Chico) também humilde como ele, mas muito respeitado pelo seu conhecimento das águas da barra.

A partir daí, pela inabalável recusa dos jangadeiros em fazer o traslado para os navios, não houve mais nenhum embarque de escravos no Ceará. Chico da Matilde, mesmo com todas as perseguições que sofreu, por conta da sua atitude, integrou-se ao, cada vez mais intenso, movimento abolicionista cearense, que se alastrou da capital para interior.

Em primeiro de janeiro de 1883, em ato com a presença do líder abolicionista fluminense José do Patrocínio e de Chico da Matilde, na pequena cidade de Acarape (que depois teve o seu nome mudado para Redenção), foram alforriados todos os escravos do município. No dia 25 de março de 1884, quatro anos antes da abolição do regime escravista no país, em ato assinado
pela Princesa Isabel, o governador do Ceará decretava a extinção da escravidão na província.

No mês seguinte, Chico da Matilde, como um dos principais artífices da extinção da escravatura no Ceará, embarcou, em um navio, que antes transportava escravos, para ser homenageado pelos abolicionistas do Rio de Janeiro. Levava na embarcação a sua jangada de seis paus, que fora denominada “Libertadora”. A sua chegada ao Rio era, assim, anunciada no jornal carioca Gazeta de Notícias: 


“Por estes quatro ou cinco dias chega o ‘dragão do mar’. Assim é conhecido no Ceará o jangadeiro Francisco do Nascimento, pratico do porto e senhor dos verdes mares bravios da terra de Alencar”. 

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, o Mestre Chico teve apoteótica recepção, sendo carregado em um grande cortejo pelas ruas da cidade. Durante as duas semanas em que passou no Rio, o Dragão do Mar foi aclamado e objeto de diversas homenagens, em uma delas a sua jangada foi levada, em uma grande passeata, para ser depositada no Museu Nacional, como símbolo da libertação dos escravos cearenses.  

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Após retornar ao Ceará, com o passar dos anos, o Dragão do Mar voltou a ser o Chico da Matilde, o humilde prático do porto, e foi assim que o escritor cearense Gustavo Barroso, nos seus tempos de criança, o conheceu: 

“A alcunha dos dias de glória voou-lhe dos ombros como uma capa malatada que o vento leva, evaporou-se como a espuma das vagas que o alísio lhe soprava nas faces […]”.

Esquecido, nos livros em que a História do Brasil é apresentada aos estudantes nas escolas do país, o Dragão do Mar, passados mais de cento e trinta anos da sua participação no movimento libertador do seu povo, teve o seu nome inscrito (através de lei federal de 2017) no Livro dos Heróis da Pátria, que é depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade, edificado em Brasília, a partir de um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer.


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Novembro de 1910. Assumia a Presidência da República o marechal Hermes da Fonseca. Uma semana após a sua posse, o marechal se encontrava, à noite, em uma recepção, onde se executava a belíssima Tannhäuser , de Richard Wagner. De repente, um grande estrondo abalou o local, estraçalhando vidros e cristais. Minutos depois, chegava a notícia de que embarcações da Marinha, que estavam fundeadas nas “águas da Guanabara”,  haviam se rebelado. O disparo havia partido do encouraçado Minas Gerais, na época um dos mais modernos e potentes navios de guerra do mundo.


Aderiram à sublevação o encouraçado São Paulo, o cruzador Bahia, e outras embarcações da Armada, que se encontravam no local. A Marinha, diferentemente do Exército, tinha os seus oficiais originários das camadas mais altas da sociedade. Embora houvesse se modernizado, com relação a embarcações e equipamentos, persistiam inalteradas as degradantes condições — vindas do tempo do Império — a que eram submetidos os praças lotados nos navios.

Ao contrário da oficialidade, os marinheiros eram quase todos de origem pobre e com pouca instrução, a maioria constituída de descendentes de escravos. O excesso de jornada de trabalho, a péssima alimentação e a prática dos castigos corporais tornavam insuportável a vida dos marujos nos navios de guerra. Uma punição de 250 chibatadas dada a um marinheiro do navio Minas Gerais, aplicada na frente de toda a tripulação formada no convés da embarcação, despertou a revolta nos praças. Mesmo com o marujo desmaiado, as chibatadas continuaram a ser dadas.

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Quando o regime republicano foi instaurado no país, em 1889, um dos primeiros atos (o decreto de número 3) do novo governo acabava com os castigos corporais na Marinha. Durou pouco tempo essa determinação. Cinco meses depois, um novo decreto, de número 328, restabelecia as punições corporais, mas, limitando-as (no caso de faltas graves) a “apenas” 25 chibatadas.

Curiosamente, esse decreto não foi publicado nos jornais, como era comum na época, nem consta a sua numeração nos arquivos de legislação disponibilizados no site da Presidência da República. Felizmente, o ato normativo foi preservado para a história por mãos diligentes. O castigo corporal, na prática, voltou a ser adotado sem obedecer à limitação do número “módico” de 25 chibatadas, que havia sido determinado no decreto de 1890.

A noticia da punição de 250 chibatadas dadas ao marujo do “Minas Gerais” despertou a revolta nos praças que estavam nas outras embarcações fundeadas no local, que decidiram reagir. Na data e horário acordados para o levante, os marinheiros assumiram os comandos dos navios. Após o tiro de advertência contra a cidade, foi enviado pelo rádio o seguinte comunicado: 


“Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República, ao ministro da Marinha. Queremos resposta já e já. Caso não tenhamos bombardearemos cidade e navios que não se revoltarem. Guarnições Minas, São Paulo, Bahia.”

Comandava o levante de cerca de 2.400 praças dos navios rebelados, um marinheiro chamado João Cândido. Conservava seu roto uniforme branco, apenas com um lenço vermelho no pescoço, que o diferenciava dos demais e o identificava como o Almirante daquela armada insurgente. João Cândido manteve submissa, por cinco dias, sob a mira dos canhões da sua esquadra, a cidade do Rio de Janeiro e toda a estrutura de poder sediada na antiga capital do país.

Com o governo impotente para enfrentar os amotinados, foi aprovado, às pressas, no Senado e na Câmara, um projeto de anistia aos revoltosos. Confiantes na boa-fé do governo, que decidira acabar, terminantemente, com o castigo de chibatadas nos navios, os sediciosos deixaram as embarcações e se apresentaram, em terra, às autoridades.

Começava, a partir daí, a mais cruel perseguição aos marinheiros envolvidos na revolta. A maioria foi desligada da Marinha, muitos foram fuzilados, outros presos. João Cândido e outros cabeças do movimento foram aprisionados em condições sub-humanas. É dele o depoimento ao jornalista Edmar Morel, autor do livro “A Revolta da Chibata” (Paz e Terra, 2016):

“Foi horrível. Dos dezoito camaradas no meu cubículo, só escaparam dois. Eu e o ‘Pau da Lira’ [...] o resto foi comido pela cal, jogada com água dentro do subterrâneo”. 

Retirado da prisão, como louco, João Cândido foi internado em um hospício. Constatada, depois, a sua sanidade foi, novamente, aprisionado e submetido a um Conselho de Guerra. Funcionou na acusação, como promotor, João Pessoa, que viria depois a ser Presidente da Paraíba. O Almirante Negro foi absolvido por unanimidade e, ao ouvir a sentença, chorou abraçado a Evaristo de Morais, o advogado de defesa. Mas, ele e seus companheiros de rebelião, permaneceram expulsos da Marinha.

Até a sua morte, em 1969 (aos 89 anos), João Cândido sobreviveu de pequenos biscates, durante certo tempo vendendo peixes na Praça XV, no Rio de Janeiro. Em 2008, o Presidente Lula sancionou lei que concedia “anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento”, restaurando, quase um século depois, a anistia concedida em 1910, que foi sonegada pelo governo da época a humildes praças, que reivindicavam apenas o direito de um tratamento humano da parte da Marinha.


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Meados de 1974. João Bosco e Aldir Blanc, que já formavam uma das mais brilhantes parcerias da música popular do Brasil, submeteram, à aprovação prévia da censura, uma nova canção. Os versos de Aldir Blanc para a música uniam dois personagens esquecidos pela nossa história oficial: o “Dragão do Mar” e o “Almirante Negro”. Essa magistral conexão entre dois momentos da vida brasileira só poderia ser fruto da percepção de um atento leitor da história do Brasil,
como era o caso de Aldir Blanc, que vivia imerso em livros.

Mas não foi fácil, para os compositores, conseguir que a censura aprovasse a letra da nova música. Aldir Blanc relatou, em depoimento, a última das várias vezes em que ele foi à Polícia Federal para tentar liberar a canção, que se chamava “O Almirante Negro”:

“Eu entro — aí é que eu acho um negócio revoltante —, vem um cara de paletó e gravata, com o paletó aberto com o coldre aparecendo, andando de um lado para o outro. A coronha do revólver só faltava passar no meu nariz. O cara de repente diz para mim assim: “Mas, então... Vocês estão errando o foco. Vocês estão mudando a letra, insistindo, insistindo e o problema é ó...”. E esfregava o dedo na pele do braço. Eu não entendi. “Toda hora esse troço na letra aí, o negro isso, o negro aquilo.” [...] Aí eu saio de lá zonzo, tomo uma cerveja a um quilômetro dali, falo com o João sobre esse troço e a gente transforma em “O Mestre-Sala dos Mares”

A letra original do samba “Almirante Negro” (não aprovada pela censura da Polícia Federal) era assim:


“Há muito tempo nas águas da Guanabara ♩ O Dragão do Mar reapareceu ♩ Na figura de um bravo marinheiro ♩ Que a história não esqueceu ♩ Conhecido como Almirante Negro ♩ Tinha a dignidade de um mestre-sala”

Na letra aprovada pela Censura e que foi gravada, originalmente, por Elis Regina e, depois, por João Bosco , o título passou a ser “O Mestre-Sala dos Mares”, o “marinheiro” dos versos teve que ser alterado para “feiticeiro” e o “Almirante” virou “navegante”.

“O Mestre-sala dos Mares” se transformou em dos grandes clássicos da música popular do Brasil na segunda metade do século passado.


As letras de músicas feitas por Aldir Blanc são, em grande maioria, de temas líricos (90% delas, na estimativa do próprio Aldir). No entanto, quase sempre ele é mais lembrado como um compositor de canções de crítica social, de viés político. Essa vinculação talvez se deva à preeminência na sua obra de músicas como “O Bêbado e a Equilibrista ”, que foi o hino da anistia aos exilados políticos durante a ditadura militar, e de “O Mestre-Sala dos Mares”.

Aldir Blanc morreu, aos 74 anos, em maio de 2020. Foi da primeira leva das vítimas do Covid-19.

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  1. Parabéns por mais um belo artigo de sua lavra. Que muitas pessoas possam ler e tirar importantes lições sobre a nossa sociedade e cultura.

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  2. Um texto ágil e bem escrito, com audição possível para tantas gentes! Histórias do nosso povo. Histórias de muitas resistências, Flavio. Precisamos desse encontro. Gratidão!

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  3. Neide Bezerra29/3/21 15:24

    Havia esquecido de me identificar. Não gostei desse "unknown". Kkkk

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  4. Texto lapidar, Flavio. Traz à tona lições quase esquecidas da nossa memória social. Senti-me brindado com uma narrativa elegante que se equilibra justamente com a devida fidelidade a fatos históricos.

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