O último dia 20 de abril marcou mais um aniversário de Augusto dos Anjos. Há 137 anos, ele veio ao mundo; há 109, a força de sua poesia fo...

E para Augusto, nada?

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O último dia 20 de abril marcou mais um aniversário de Augusto dos Anjos. Há 137 anos, ele veio ao mundo; há 109, a força de sua poesia foi plasmada em um livro singular, sob todos os aspectos – título, vocabulário, ritmo, sonoridade, concepção... –, há 107, morria o homem e, com ele, o poeta, desconhecidos ambos, mas deixando um legado incomparável à literatura.

O mais estranho de tudo isso é que, diante da importância que Augusto dos Anjos tomou como poeta no Brasil, as instituições, pelo menos na Paraíba, não se pronunciaram. Uma única comunicação oficial a respeito de nosso maior poeta. Sequer uma pálida nota lembrando a efeméride, ainda que eterno seja o poeta: Secretaria de Cultura do Município, Secretaria de Cultura do Estado, outros órgãos culturais, Câmara Municipal de João Pessoa... Nada.
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A Assembleia Legislativa da Paraíba, em cujo rol de condecorações encontra-se a medalha “Augusto dos Anjos”, reuniu-se, no dia 13 de abril, para conceder a uma participante do BBB a medalha “Epitácio Pessoa”, a maior das honrarias daquela casa... Para o nosso maior poeta, dentre os maiores do Brasil, senão o maior, um silêncio que nos denuncia e envergonha.

No Facebook, não faltaram manifestações horizontais, lembrando, saudando e elogiando o poeta. O esperado numa rede social, que se alimenta diariamente do mesmo. Quase nada sobre a sua poesia. Em muitos dos casos, mais o homem por trás da poeta do que o poeta de substância, com uma poesia que continua a desafiar a crítica. A quem interessa o homem, a não ser a biógrafos? Quem era Augusto dos Anjos? Rico, pobre, feio, bonito, alegre, triste, branco, preto, alto, baixo, religioso, ateu? Bom marido, bom filho, bom pai ou nada disso? De direita, de esquerda, de cima, de baixo, de dentro, de fora, engajado, alienado? A quem interessa isso, a não ser a quem gosta do circunstancial e não do essencial?

Como já dissemos, a sua biografia interessa aos biógrafos e nada há de excepcional, no que diz respeito às adversidades ou venturas por que o homem Augusto dos Anjos passou. Elas não diferem daquelas por que milhões de outras pessoas passaram e passam na vida. Nisso, ele é uma pessoa comum. Interessa, sim, por excepcional, a sua poesia, o que escreveu, o que nos legou, a maneira como se distanciou completamente e continua distanciado da literatura que se faz e se fez no Brasil.

Interessa-nos o poeta e alguma circunstância de sua vida, quando exigida pela transfiguração poética, quando universalizada. O poeta não precisa de aplausos ou de elogios redundantes. Não nos interessam Augusto dos Anjos e o engenho Pau d’Arco reais. Interessa-nos essa mediação da engenhosidade artística que nos dá um eu-poético atormentado pela perturbação do ciclo circadiano e que se, à noite, vê-se minguar, num minguado quarto, angustiado em suas visões por uma lua não menos, durante o dia enxerga a exuberância bucólica do ambiente do engenho, antes triste e alucinatório, vivificado, depois, pela luz do sol.

O poeta quer ser lido, sentido, estudado, analisado, interpretado, compreendido, declamado. Quer causar sensações as mais variadas com a sua poesia; deseja a estesia provocada pela criação que transforma o prosaico em poesia, como a aranha sempre tecendo a desventura do eu. Ler e difundir o poeta é, pois, o maior elogio que se lhe poderia fazer, a maior homenagem que se lhe poderia prestar.

Há muito que venho propondo o “Dia de Augusto dos Anjos”, a ser comemorado no seu aniversário, com leituras públicas e abertas aos interessados. Leituras que o apresentem à juventude, que sejam levadas às escolas, que contribuam para o conhecimento de sua poesia e para a consolidação de sua memória; leituras que vão além do elogio fácil. No dia do seu aniversário, como membro da Academia Paraibana de Letras, publiquei no Ambiente de Leitura Carlos Romero, um artigo sobre o soneto “Último Credo”, de modo que fiz da minha análise a homenagem que a APL poderia prestar a Augusto dos Anjos, patrono da Cadeira nº 01. Sei, no entanto, que isso não basta ao poeta maior, sem par. É nosso dever fazê-lo cada vez mais vivo.

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  1. Ângela Bezerra de Castro25/4/21 11:04

    O problema é que a Paraíba ainda não tem olhos para alcançar a dimensão de Augusto e fazer dele a sua referência maior, nele reconhecendo sua identidade. Infelizmente, nossa pobreza de espírito se reconhece no Big B. E, assim , destina-se a Medalha Epitácio Pessoa à mediocridade, sem qualquer consideração aos valores que o nome do Patrono representa. Precisamos crescer, nos educar, para que, um dia, Augusto seja para nós o que Camões é para Portugal. Por enquanto, não conseguimos sequer a simples indicação: ESSA É A TERRA DE AUGUSTO DOS ANJOS.

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  2. É para a gente não parar de se indignar, Ângela!

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  3. Caro, Milton.
    Vivemos uma crise de valores. O pior, é que é uma crise que afeta padrões morais e estéticos. Perdemos o senso, tanto num quesito, como noutro. Como já tive a oportunidade de comentar com você através do Correio das Artes,"a burrice é invencível". Estamos destinados a perder essa batalha. Como disse linhas acima a professora Ângela Bezerra de Castro "a Paraíba não tem olhos para alcançar a dimensão de Augusto". Não só a Paraíba, mas o país.
    Mas voce, meu caro não deve esmorecer. É bom saber que ainda temos gente deste lado da fronteira. Há uma luz (um candieiro, seria melhor) no fim desse túnel. Talvez possamos reverter o resultado dessa batalha que muitas vezes penso estar perdida.

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  4. Meu amigo Paiva! Lutaremos até o fim! A poesia de Augusto de Anjos me envolve e, cada vez mais, sinto que é o maior poeta do país!

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