Você já viu o sol nascer em Chipre? Ele surge como o carro de fogo de Apolo e suas faíscas põem gotas de ouro sobre o Mediterrâneo azul. U...

Entre a paixão e a agonia

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Você já viu o sol nascer em Chipre? Ele surge como o carro de fogo de Apolo e suas faíscas põem gotas de ouro sobre o Mediterrâneo azul. Uma brisa atravessa as montanhas e agita as águas claras, enchendo o coração dos homens de pequenos risos.

Neste cenário, Pigmalião pega seixos na praia. Os mais redondos e lisos. Finos presentes para ela: conchas do fundo do mar, pássaros de cores impossíveis, os lírios mais perfumados e lágrimas de âmbar tiradas de árvores mortas há milênios.

Mal entra em casa e se vê escravo da beleza dela. Aproxima-se com cuidado, fecha os olhos e encosta os lábios nos de Galatea. Beija-a com calma, fala de amor e suas carícias são tão ansiosas que ele teme machucar a amada. Mas seus beijos são devolvidos, como todos os dias. O corpo imóvel, frio, o faz gritar de frustração e desespero. Fora apanhado pela armadilha de sua própria arte.

Cansado, observa a perfeição da escultura que havia criado e agora ama. Ele, que extraía seres do mármore bruto, vivia sua maldição particular. Estava sozinho há muito tempo e havia jurado permanecer assim. Todas as cortesãs da ilha lhe pareciam desperdiçar suas vidas. Não escondia seu desgosto pelo que a natureza plantou tão profundamente naqueles corações. Elas também o odiavam.

Embora sentisse falta de um corpo de mulher na cama fria e silenciosa, Pigmalião jamais se deixou arrastar para um casamento. O amor nunca o encontrou, até que sua habilidade o traiu.

Em tarde inspirada, quando céu e mar se tingiam de cores, começou a esculpir uma nova estátua. Sua solidão deu a ela uma beleza tão rara, que nenhuma outra mulher jamais igualou. Chamou-a Galatea, por sua cor de leite.

Os dias se passaram e Pigmalião se torturava de desejo ao tocar o rosto delicado de sua obra. Arte tão bem executada, convertida em armadilha. Agora, sua beleza o subjugava de dia, sua perfeição o seguia no sono. O marfim simulando carne o confundia,
por vezes lhe parecia que ela estava prestes a respirar – e sua mente lutava contra tal loucura.

Ele sabia que seu desejo o enganava e já não se iludia sobre o amor que o dominara. Identificara há muito os tons cada vez mais suaves que usava para falar com ela. Tinha consciência das ricas roupas com que a vestia e das joias que pôs em seu corpo.

Com um riso amargo, toca os anéis nos dedos, o colar no pescoço, os pingentes de pérolas nas orelhas graciosas e os ornamentos dourados a adornar os seios. “Todos tão belos, mas não se comparam à sua nudez de luar”, diz para si mesmo, enquanto a deita em uma cama luxuosa, cobrindo-a com lençóis tingidos por carmim do Líbano, deitando sua cabeça reclinada sobre o mais macio travesseiro. E seu tempo se passa entre a paixão e uma agonia que lhe rasga o peito de cima a baixo.

Tudo mudou no dia festivo de Afrodite. As multidões celebravam nas ruas de Chipre, novilhas com chifres cobertos por pontas de ouro caminhavam para os sacrifícios à deusa e o incenso queimava nos altares. No templo, Pigmalião pôs sua oferta: “Se é verdade, ó deusa, que podeis dar todas as coisas aos mortais, eu imploro para ter como minha esposa…”. Interrompeu a frase. Não ousou completar o que havia planejado dizer: “…minha estátua de marfim”. Refletiu sobre a loucura que diria em voz alta e, num lamento, completou: “alguém como a minha estátua de marfim”.

Do altar, a dourada Afrodite ouviu. A deusa leu o coração de Pigmalião, soube claramente o que a oração significava e deu um sinal de que atenderia ao seu apelo: três vezes a chama saltou no ar, alta e brilhante.

Quando voltou, Pigmalião foi diretamente para a sua amada. Inclinou-se sobre ela e beijou-a muitas vezes. Sentiu maciez nos lábios da estátua e a beijou de novo. O marfim dos seios parecia mais suave ao toque, como cera derretendo ao sol. A dúvida o atormentava e ele não desejava abrir os olhos. Queria reter a sensação nova e sentia medo de constatar mais um engano, mas suas mãos percebiam calor. As veias pulsavam sob o teste cuidadoso de seus dedos. Abriu finalmente os olhos. Galatea o encarava timidamente, corada, também ela com o amor estampado no rosto.

Depois que a lua cheia surgiu nove vezes sobre o Mediterrâneo, ela lhe deu uma filha, Pafos, que emprestou seu nome à ilha onde viveram os amantes.

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