Uma noite dessas de pandemia, sonhei com Albertina a senhora que trabalhou por muitos anos na casa do meu avô, onde vivi desde que nasci. ...

Albertina, um ser especial

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Uma noite dessas de pandemia, sonhei com Albertina a senhora que trabalhou por muitos anos na casa do meu avô, onde vivi desde que nasci. Foi um abraço tão bom, tão alegre esse reencontro.

Quando eu era criança ela não gostava que eu ficasse na cozinha, mas eu estava sempre lá fazendo alguma traquinagem. Nessa época, a galinha era comprada viva na feira e morta no quintal, horas antes do preparo, e eu acocorada acompanhava tudo bem de perto, mesmo com os protestos dela. Um corte no pescoço, rápido para tirar o sangue e fazer o molho à cabidela,
o sangue ia direto para o prato fundo de ágata com sal e vinagre, batido como se fosse clara de ovo, depois tinha o ritual para depenar e chamuscar com fogo (essa parte eu gostava mais).

Depois de retirar os miúdos, abrir e limpar a moela sempre cheia de pedrinhas, tudo limpo, podia levar a galinha para a cozinha, para ser partida em vários pedaços, que já tinham donos: o peito para meu avô, as coxas e moela para o filho mais velho, as sobrecoxas para a filha mais nova, e eu queria era brincar com a galinha, aproveitar os últimos momentos dela inteira, e num descuido colocava a galinha depenada em pé, encostada em cima da bancada da cozinha. Eu me divertia, corria e ficava escondida, e logo vinha a voz de Albertina, “tira a garota daqui”, está brincando com a galinha do almoço de amanhã.

Albertina era uma figura muito interessante mesmo, ela só fazia o que queria e o que gostava, podia minha avó reclamar, minha tia gritar, ela nem ligava. Gostava de beber uma caninha ou qualquer coisa que tivesse álcool, era um aperitivo, só no dia de folga é que tomava mais um pouco, ou em dia de festa. Ia de mansinho e bebia todo o uísque do filho mais velho, de pouquinho em pouquinho, cada dia, geralmente antes do almoço. Quando descoberta, a confusão era grande, mas parecia que não era com ela.

Estava na família desde muito nova, foi para o Rio de Janeiro, para trabalhar na casa do meu tio, depois cansou de lá e voltou para nossa casa. Falava sempre dessa época com deferência, até a forma de a mim se referir como “a garota” veio desse tempo no Rio de Janeiro.

Ela gostava de andar muito a pé, longas distâncias, não pegava ônibus nem carona e tinha uma mala cheia de fantasias e roupas para as datas comemorativas. Quando era Semana Santa, acompanhava todas as procissões vestida com um vestido tipo mortalha roxa e uma faixa de Filha de Maria. No carnaval, uma fantasia para cada dia, marinheira, cigana, a que eu mais gostava era a de baiana. No 7 de setembro saía com um vestido verde e a bandeira do Brasil na mão. Nesses dias, ninguém contasse com ela, pois só voltava depois que acabasse todo o desfile.

O dia que ela gostava mesmo era 8 de dezembro, dia de Iemanjá, aqui na cidade. Ia para a festa na praia e depois, quando amanhecia, andava na beira mar para pegar as oferendas devolvidas pelo mar, sabonetes, perfumes, pulseiras, flores de plástico, pegava tudo. Ela adorava andar na praia e depois tomar banho de mar, com seu maiô dos anos 50. Era o lugar preferido, especialmente nos veraneios que ficávamos meses morando na casa de praia, era a época em que ela caminhava muito na beira mar. Saía logo depois que colocava o almoço na mesa, tomava uma caninha e ia caminhar e se banhar no mar, só voltava à tardinha, com as mãos cheias de coisas que tinha encontrado pelo caminho. Não adiantava minha vó ficar preocupada com ela.

Outra coisa que gostava era de cachorro; Era ela quem cuidava de Veludo, o pastor muito bravo do meu tio, que vivia preso no beco da casa, coitado. Quando se soltava, assustava toda a vizinhança, era um tal de fechar as portas que “Veludo está solto”.
Depois chegou lá em casa uma pequinês, a Laica, mas só gostava de Albertina, que conversava o tempo todo com ela. Eu nem chegava perto, pois ela rosnava para todos e queria morder, bem arisca.

Albertina não tinha pressa com nada, sempre fazia grande quantidade de comida. Minha vó também gostava que tivesse muita comida para se chegasse alguém, não passar debaixo da mesa. Com isso Albertina pegava o que sempre ficava do almoço e servia um “lanchinho reforçado” para o pessoal que trabalhava com as entregas na loja do meu avô, de quem ela tinha pena: eles pegam tanto peso, dizia quando minha vó procurava algo que sobrou para o jantar.

Gostava também de fazer todas as manhãs um café especial para o motorista, com macaxeira e carne. Às vezes, quando não tinha sobras, preparava o que havia, podia até ser o filé do filho mais velho, ela nem escutava as reclamações. Depois dizia é só comprar mais. E assim ia fazendo as coisas do seu modo. Era uma figura muito peculiar mesmo.

Viveu muitos anos, e quando se aposentou, Albertina foi morar na sua casa enfeitada com as oferendas de Iemanjá. Encontrávamos com ela vindo de Bayeux, à pé, pela Beira-Rio, parávamos para oferecer carona, mas ela não aceitava. Conversava um pouco, dava notícias, sabia das pessoas e seguia para a praia, como as tartarugas que nascem na beira mar e sempre voltam para o mesmo lugar.

Aprendi muito com ela, com a sua calma para fazer as coisas, independente do caos em volta, com sua forma de estar no mundo e viver a vida. Será por isso que gosto tanto de me fantasiar no carnaval? Tenho gratidão por todos os ensinamentos dos anos de convivência, muitos deles, só entendidos com o passar do tempo, no revirar do baú das memórias.

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