Ontem eu saí para ver a rua. Estava deserta e silenciosa. Uma mancha prateada no céu dizia que a lua estava lá. As nuvens esvoaçavam lembr...

Ventos do passado

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Ontem eu saí para ver a rua. Estava deserta e silenciosa. Uma mancha prateada no céu dizia que a lua estava lá. As nuvens esvoaçavam lembrando páginas de um livro que pareciam contar histórias de um passado distante.

Veio uma brisa fria com cheiro de chuva. E como numa espécie de encanto ouvi uma nuvem dizer:

“Se você quiser posso contar uma história?! “

Então ela começou a contar...

Cuité, julho de 1974.

A noite brincava com a lua e meia dúzia de estrelas quando a cidade adormeceu. O vento trouxe um nevoeiro que logo se transformou numa massa de nuvens negras. A quietude foi interrompida por um bafo gelado. Quando cresceu em intensidade agitou árvores, plantas e as roseiras da praça onde eu vivia há doze anos, desde o dia em que nasci.

Pingos soltos iniciaram a chuva que desabou apagando alguns postes da iluminação das ruas. Em minutos alagou calçadas, becos sujos e quintais, até deixar tudo lamacento e intransponível. A ventania uivou através das portas e janelas, carregou folhas, flores, pétalas e o mau cheiro do coreto.  O guarda encolheu-se dentro do capote surrado e se refugiou na marquise da prefeitura. Vencido pelo frio enfrentou a chuva e desapareceu na semiescuridão da madrugada.

Uma hora depois tudo se acalmou, e quando o céu se despiu daquelas nuvens as estrelas distantes já tinham ido embora carregando a lua que também se cansara de esperar. No lugar do negro surgiu uma atmosfera prateada. O sol veio depois, sua luz aqueceu a manhã e as paredes das casas centenárias.

Pedro também completara doze anos de idade e, às vezes, queria pensar como pessoa adulta, porém não podia ser diferente dos outros meninos que, como nós, moravam num lugar onde não tinha muito para oferecer.

A vida se resumia a aproveitar as coisas simples do interior distante da Capital e cumprir a obrigação de ir à escola todos os dias.

Pedro surgiu na porta de casa e bocejou um hálito azedo ao mesmo tempo em que esfregou os olhos inchados e remelentos de tanto dormir. Sentou-se no meio fio da calçada para aquecer o corpo e não demorou a me ver do outro lado da praça. Eu acenei para ele.

Deixou escapar um riso maroto, fez um grande esforço para se levantar, até que venceu a preguiça. Atravessou a praça, sentou-se ao meu lado. Passamos a olhar o movimento da praça e o vai-e-vem de carros e bicicletas que passavam espantando os passarinhos.

Agora os sinos tocavam dizendo que era domingo e que tinha missa na Matriz. Então vi dezenas de pessoas passarem em direção à igreja. Pedro enterrou a cabeça nos ombros e eu me encolhi nas mangas do pijama. Decidimos ficar assim por toda vida ou pelo tempo que viesse a coragem de tomar café, pegar a bicicleta e sair para jogar.

Pelas regras do campo do Urubu — um terreno baldio que ficava por detrás da Matriz de Nossa Senhora das Mercês — era minha vez de arrumar uma bola. Mas nem sempre tínhamos dinheiro para comprar uma. Mesmo assim, sempre dava-se um jeito. E o jeito às vezes era vender garrafas velhas, sementes de carrapateira ou qualquer coisa que se transformasse em dinheiro. Num último recurso o jeito era arranjar meias velhas e improvisar uma bola. E foi o que aconteceu, sem bola e sem dinheiro, eu pensava como fazer para pegar algumas meias no cesto de roupas. Minha mãe andava desconfiada, e reclamava do número crescente de meias descasadas.

Minha mãe também andara falando a respeito da prima Helena, que viria passar uns dias em nossa casa. Quando esse dia chegou vi surgir, bem na minha frente, uma jovem alegre e envolvente que parecia ter uma vez e meia a minha idade. Ela sorriu e me abraçou, apertando-me contra seu peito macio.

Quando a gente tem doze anos é muito jovem para controlar as emoções e as fantasias, e mais tarde os delírios decorrentes dessas fantasias. Apaixonei-me por Helena logo na primeira semana.

Antes peço desculpas aos leitores se acrescento algumas belezas a ela, que possivelmente tenham existido apenas em minha imaginação. Mas eu tinha todos os motivos para admirá-la. Talvez o encanto estivesse no rosto, nos olhos estreitos, no riso contínuo ou simplesmente no jeito de andar. Eu ainda não sabia quase nada sobre sexo, mas suas pernas cheias e os seios firmes me causavam, de algum modo, desejo ou, pelo menos, fascínio. Ao tempo que os dias iam passando Helena foi se descontraindo, e por ser mais velha, acredito que ela não tardou a perceber o que eu estava vivendo, e penso que, por capricho ou malícia, passou a provocar-me com pequenos e discretos gestos. Percebi, mais tarde, que a diferença de idade empancou uma aproximação, vez ou outra, denunciada em seu riso ou num olhar, ou ainda na graciosidade do andar e no seu ar dissimulado.
Quando ela passava, dava-me desejo de ir a toda pressa aonde ela ia, mas continha-me, e sofria por isso. Então veio a ideia do cesto que atiçou-me a imaginação, como um sopro quente que incendeia um campo de folhas secas, espalhando fogo mundo afora sem nenhum controle. Enquanto ela passava e fazia uma graça eu, astuciosamente, tecia o meu plano. Agora havia uma chama dentro de mim, algo difícil de controlar.

O cesto era grande, de vime, cheio de frestas, cabendo-me confortavelmente dentro dele, e o melhor de tudo é que ficava justamente no quarto onde Helena estava hospedada. Quando acabava o banho, enrolava o corpo na toalha e corria para o quarto cantarolando. O plano de me esconder no cesto para vê-la se vestir, sem dúvidas, era genial, mas envolveria muita adrenalina pelo que eu ia ver e pelo medo de não dar certo. E o que me fazia seguir adiante? Era o sentimento de que menino nunca pensa que seus planos podem dar errado. Então pensei em suas coxas grossas, nos seios firmes e em seu rosto intenso e feliz deixando a toalha cair, num requebro, bem na frente.

“Estás pensando em quê?” – Perguntou Pedro.

A maioria dos meninos da turma do Urubu residia na praça e na 17 de Julho, uma rua de casas com quintais cercados por pendões que se estendiam até um despenhadeiro, de onde se tinha bela vista da lagoa, que banha o lado sul da cidade.

Dali também se via, em suas margens verdejantes, algumas criações de vacas e porcos, além de um cacimbão profundo e de boca larga que, puxado por um grande cata-vento, abastecia um dique e meia dúzia de banheiros públicos. O cacimbão bem lembrava a cratera de um vulcão extinto, e a gente sabia que não podia estar ali porque era contaminado, fundo e escorregadio, mas menino nunca se importa com o perigo.

Não havia lugar melhor para se pescar porque nem bem o anzol era arremessado e já um peixe graúdo começava a se debater na água barrenta, que os meninos diziam ser mistura das fossas de muitas residências e do esgoto da maternidade que ficava duas ruas acima.
Os peixes graúdos pareciam cevados, mas ninguém se atrevia a levá-los para casa.

Esses pensamentos desapareceram porque, de repente, a porta se abriu e o terraço se encheu de água de colônia. Minha mãe enlouqueceu quando me viu de pijama e despenteado.

— Você ainda está desse jeito: assanhado, de pijama e descalço!? Cabelo que parece nunca ter visto pente!... Ainda sequer tomou café!... Entre imediatamente se não quiser que chame seu pai... Você sabe que ele faz isso melhor que eu, não sabe? — Perguntou ajustando a saia.

— Sei — respondi. Pedro ficou desconfiado e alisou os cabelos. Tentou arredar-se para o terraço vizinho, mas não houve tempo. Ela continuou:

— Seu irmão foi à missa...  Só você desse jeito... Parece um moleque de rua! Entre! Vá banhar o rosto e tomar seu café! — exclamou irritada. — Vamos, entre, entre, vá!!

Eu girei a cabeça e a observei sem muita pressa. Disse:

— Vou já.

A silhueta de minha mãe cresceu diante de tamanha desobediência. Continuei sentado.

— Eu falei imediatamente! Ouviu, ou não ouviu?

— Ouvi sim, senhora!

— Você sabe o que é imediatamente, ou não sabe? — Perguntou, quase gritando.

— Sei sim, senhora.

— Então entre. Agora!

— Sim, senhora.

Mas não me levantei.

— E por quem está esperando?

— Ninguém, não... já vou, já vou!

Obedeci, mas andei devagar sem levantar a cabeça. Entrei, encostei a porta e deixei minha mãe desaparecer na esquina. Esperei algum tempo e ressurgi procurando Pedro, que disse espantado:

— Sua mãe estava uma fera!

— Já foi?

— Já.

Nesse instante ouvi a casa estremecer. O grito do meu pai veio do corredor:

— Você escutou sua mãe?

— Escutei, sim senhor! – respondi numa voz muda e arrastada.

— Quer que eu vá aí lhe buscar?

— Não, senhor!!!

Mas ainda deu tempo de avisar, baixinho:

— Daqui a vinte minutos no trapiá, Pedro. Leve as balinheiras, ouviu?

— Vinte minutos! Se passar disso, vou embora! E não esqueça das meias...

O Trapiá era uma árvore que ficava perto do campinho, o ponto de encontro da meninada das imediações.

— Cadê as meias? Você ficou de trazer!

— Não deu. — Disse-lhe sem explicações.

Então, sem bola e sem meias para fazer uma, decidimos ir pescar no cacimbão. E foi justamente por falta de um par de meias velhas que nessa manhã aconteceu um dos fatos mais angustiantes da nossa infância.

Pedro e a maioria de nós não sabia nadar e ninguém se importava com isso. Todos parecíamos felizes em volta do cacimbão vendo as boias fundearem a todo instante quando, de repente, ele se desequilibrou e caiu de barreira abaixo. Foi uma gritaria. Embora todos mostrassem desespero, ninguém teve coragem de pular para socorrê-lo, não por não querer, mas por saber que quem entrasse na água ia morrer também. Eu vi Pedro desaparecer na superfície do cacimbão, vi suas mãos se agitarem num aceno derradeiro. Dizia-se que alguém que morre afogado, antes de sumir, de todo, ressurge por duas vezes. Foi o que aconteceu. Pedro desceu e subiu, depois novamente e depois desceu para não voltar nunca mais. Foi quando ouvimos alguém pular na água. Era um dos donos daquelas criações. O homem estava por perto e ouviu nosso desespero. Pedro escapou por milagre, estava mole e pálido como um prato de coalhada. Então o homem o virou de costas e pressionou na altura dos pulmões, aí ele começou a tossir e vomitar.

Eu não gostava de ir às missas porque não entendia quase nada do que o padre italiano falava nas homilias, mas depois do que aconteceu a Pedro fui com minha mãe por quatro domingos seguidos, por remorso e como forma de agradecimento. Apesar de ter rogado ao Senhor que me perdoasse por tantas falhas, faltas e responsabilidades e de ter prometido, diante da cruz, que não voltaria a repeti-las, dias depois voltamos a pescar no cacimbão como se nada tivesse acontecido, e sem qualquer sentimento de culpa, escondi-me por vários vezes no cesto de roupas, a ver, encantado, o belo corpo de Helena que propositalmente demorava uma eternidade para se vestir.

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