O poeta Jorge de Lima ao leito da morte, agonizante, sem perder a esperança, registrou em diário pensamentos que ajudam pessoas a edificar...

As últimas páginas são eternas

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O poeta Jorge de Lima ao leito da morte, agonizante, sem perder a esperança, registrou em diário pensamentos que ajudam pessoas a edificar novas paisagens. Sempre enriquecedora sua leitura.

Ocorreu-me lembrar do gesto do poeta alagoano ao escutar as palavras derradeiras do jovem prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, que encarou a proximidade da morte com serenidade. Somente homens penhorados com harmonia espiritual são capazes de elevados gestos.

Lendo o diário de Jorge de Lima somos atacados por emoção intensíssima. Foram escritos nos cinco meses antes da sua morte, em novembro de 1953. Escritos como protesto ardente de quem passava pela dor,
o lamento de esperança como remissão derradeira, numa tentativa de encontrar resposta para tudo o que passava consigo.

No silêncio do quarto, o poeta teceu seu diário com letras rutilantes, como instrumentos a tocar os acordes da sinfonia derradeira. Sentindo um fervor ao lembrar de tudo o que viveu e sentiu como homem de elevada sabedoria, precisava deixar registrado os últimos momentos do espetáculo da vida, que seria o derradeiro lampejo da alma.

O homem está sempre a romper barreiras invisíveis, a construir seus castelos por vias inexprimíveis e misteriosas, cada pessoa ao seu modo.

Assim como o jovem político não se abalou com o prenúncio da passagem iminente, torceu para os súditos mensagens de elevado significado, como a coroar a vida que sentia bela mesmo diante das adversidades. As últimas mensagens que lhe acudiam são como um adeus que ficará no coração e na mente de seu filho.

O escritor Ascendino Leite registrou em seu Jornal Literário que as últimas páginas de Jorge de Lima, falando da cessação de todo o ser, implorando a luz divina, arrancaram-lhe lágrimas. Assim como também trouxe-nos comoção os gestos do Bruno no leito do hospital.

André Gide, Goethe, Tolstói e tantos outros escritores e artistas recolheram de seus momentos derradeiros a culminância da glória literária para deixar a mensagem que expressa alto valor espiritual.

Nesse sentido, na devida proporção, vem à mente as palavras de Jesus aos amigos nos dias que antecederam sua morte e crucificação. Foram palavras de orientação e ânimo. As setes palavras derradeiras pronunciadas na Cruz culminam a grande lição de deixou. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.

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