Era onde ele espatifava o minguado dinheiro recebido como escrevente de repartição pública estadual. Andava na ginga. Paletó lascado atrás...

Noivado perene

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Era onde ele espatifava o minguado dinheiro recebido como escrevente de repartição pública estadual. Andava na ginga. Paletó lascado atrás, relógio de marca maior, anel de bacharel em Direito reluzindo no dedo. Pouco ajudava em casa, a feira era feita com a pensão deixada pelo pai quase analfabeto, comerciante de miudezas, e algumas outras despesas imprevistas pelo cansaço dos pés da mãe dele a costurar num overloque. Os outros irmãos viviam de biscates que mal davam para uma sessão de cinema ou um sorvete com as namoradas.

Exibicionista. Pendurado em contas e agiotas sustentava aquela ilusão em parecer o que não era, nem poderia ser. Pouco letrado, fora agraciado com o emprego por um político amigo. Tinha uma namorada que já adquirira estabilidade há quase quatro décadas. Noivo em promessa. Casar sabia Deus.
Tinha na eleita um pouso de final de semana, quando passava o domingo sob os carinhos e cuidados gastronômicos, uma galinha bem preparada, um feijão verde, um vinhozinho, rede, cochilo, cafuné. Ela, mesmo sabendo do destino franzino, pensava no véu e na grinalda. Ele não era mal-intencionado, diga-se, apenas queria experimentar o deleite em ser solteiro rico, multiplicando o parco ordenado em sua cabeça suntuosa em fantasia.

Fumava muito. A tosse se encompridava. Melhor ir ao pneumologista. E a radiografia acusou a mancha inegável. Tuberculose. Internamento por um ano. Fruto colhido de insones trajetos no jogo de baralho, num azar da Amaro Coutinho. Uma lamentação de todos. Interno em longo prazo.

Recebeu alta definitiva. Comentavam que o caminho do altar agora, estava aberto para as núpcias tão esperadas e comentadas. A pobrezinha não merece tanto adiamento. Houve a reunião do conselho familiar, a mãe presidindo, ficou decretado o casório.

Esqueceu a jogatina. Quanto ao matrimônio, continuou adiando.. Continuou a manter as visitas à noiva. Gostava dos cafunés. Nunca trocou a aliança para a mão esquerda.

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