Estar recluso numa UTI, e espreitar o entorno, a quem quer que seja é sentir-se incomodado como se estivesse numa ante-sala da morte. A...

Percepções sobre céu e inferno: transcendência em UTI

Estar recluso numa UTI, e espreitar o entorno, a quem quer que seja é sentir-se incomodado como se estivesse numa ante-sala da morte. A racionalidade imposta pelos nossos sombrios e atuais cotidianos impõe-nos esta trágica e nua verdade. Os frios números da dura realidade se encontram expressos nas inexoráveis estatísticas que atemorizam, e pairam sobre todos infelicitados. Tristeza para os que vão. Felicidade para os raros que conseguem dela sair.

No sombrio tempo contemporâneo impera o sentimento de que a morte está à espreita e nos impõe a dura transcendência de que esta virá impetuosa, sem pedir licença. O tempo de viver, apenas, se reparte entre um abrir e fechar de olhos. Estranhamente, dilacerante é conviver com o sentimento de que um dia a mais, é sempre um dia a menos.

De repente, o prazer de todos os dias, de abrir os olhos que sorriem para a vida que em segundos, pode não mais ser perene. O dia surge radiante e cálido, e ao nosso mirar está a natureza que viceja compartilhando com a alegria dos viventes. Subitamente, o que seria mais um dia de celebração, me atingiu um ritmo cardíaco declinante dando às claras sensações de desaceleração e de inesperado declínio. As aurículas e ventrículos tão preciosos dão sinais imprecisos e convulsos, anunciando que a distância e o tempo nos aproximam e sinalizam que a morte ronda. Passo a viver uma mise en scène, e protagonizar um grave enredo ao mais comum dos mortais: simplesmente morrer.

E, celeremente, percebi que os meus batimentos, que tanto na minha vida se exultaram com belas e intrépidas emoções, em muitos anos, já não eram os mesmos. O coração vacilante não creditava mais ao cérebro, e a todos os órgãos, a energia e a eletricidade vital. O corpo demonstrava passos cambaleantes, a respiração ofegante, e a oxigenação dos pulmões se revelava precária. Os batimentos cardíacos se refletiam de modo grave em ritmo declinante e destemperado, o que sinalizava um estado de torpor arrítmico comandado por um bloqueio total que poderia estar anunciando a proximidade de uma morte súbita.

Médicos experientes me vociferaram: busque socorro! Olhei em paz ao meu lado, e fui acudido por um filho querido, também chamado de Francisco, que pelas mãos divinas estava ali numa grave hora. Acomoda-me num bólido, e infringindo todas as cautelas do trânsito, num ritmo alucinante, percorre 150 kms e calmamente diz – “Vamos, Pai.” E num piscar de olhos chegamos ao hospital.

Celeremente, me desembarcam numa UTI, diante da insistência de desatinados batimentos que já não ultrapassavam um percentual mínimo. O coração iria me decretar morte súbita.

Com o olhar vago, vejo uma UTI e seu sinistro ambiente. Tudo o que ninguém deseja. E de pronto, a aleatoriedade. De modo involuntário vão surgindo inconsistentes divagações e pensamentos. Não havia desespero. Sabia que tinha uma caminhada difícil, e, tinha a certeza de que diante das minhas orações obteria a benevolência divina.

Tive a felicidade de acalmar os meus filhos na porta da UTI. Dediquei-lhes o meu sorriso e os meus gestos de paz como um sinal de que eles me esperassem. Não iria demorar. Tinha certeza que o meu coração não iria ser indelicado com eles, e menos ainda comigo. Logo ele, que tanto havia dividido comigo mais momentos de felicidade do que de amargura. Havíamos de continuar juntos.

A Covid, tempos antes me atingira. Passou célere. E eu alegremente a observei dobrando a esquina. Pressentia desde que me enfurnei na UTI, e acreditei, mesmo vendo o lado soturno e desalentador daquele ambiente quase funesto, que iria mais uma vez ter um sursis divino que me restituiria a doçura da vida. Assim o foi.

Ninguém entra numa UTI impunemente, há sempre um preço a pagar. Hoje, apenas um mês depois, tenho a mais absoluta convicção do drama que significou para as 460.000 mil vítimas que vivenciaram o término de suas vidas cercados de desespero e dos sons aterradores do sofrimento. Um ambiente onde ressoavam gemidos e aterrissava a morte.

O pesadelo passou. E com coração novamente forte, tributário da cirurgia, solfejando alegremente num diapasão que o continuará sintonizado com a minha doçura de viver. Com clara percepção, sei hoje o que significa ir ao inferno e ressurgir em paz rumo ao céu da vida em paz. Longe, muito longe da mescalina de Huxley, me distanciei do mundo, viajei e vi quase tudo.

Cumpre-me agradecer aos que me propiciaram a alegria de me sentir redivivo.

Aos meus filhos, pelo afeto, em especial Francisco, que, competente e arrebatado, me conduziu ao hospital como um distinto Samaritano, iluminado pelo espírito franciscano da extremada e virtuosa amiga médica, Dra. Maria de Lourdes Lopes. Igualmente aos médicos Marco Antônio Barros, ao competente cirurgião André Avelino de Queiroga, e aos uteístas que me acudiram nos meus dias e incontáveis horas, meus distinguidos agradecimentos e homenagens.

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  1. Li seu texto como se estivesse vivendo, eu mesmo, o pesadelo. Também já tirei finos na Indesejada e sua descrição da poderosa experiência vai abrir os olhos de muita gente.

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  2. Obrigado sempre Solha. Seu admirador de sempre guiado há lustres pela admirável e querida Márcia Kaplan que nos aproximou.Abrs fraternos.

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  3. Barreto, bom vê-lo vencedor na luta desesperadora dentro das quatro paredes de uma UTI. E feliz mais ainda por continuar saboreando seu cativante estilo no escrever o pensamento e as emoções que lhe sacodem o espírito

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  4. A UTI é o próprio purgatório terrestre. Lá se ouve ranger de dentes e choro de almas penadas.
    Brilhante e agradável texto, amigo Barreto. Muito bem escrito, como lhe é peculiar.
    Parabens!

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