Charles Rhoades Senior se descobre com insuficiência renal grave e precisa de um transplante urgente, se quiser continuar vivendo. O probl...

O Clássico: lição para a vida

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Charles Rhoades Senior se descobre com insuficiência renal grave e precisa de um transplante urgente, se quiser continuar vivendo. O problema é que o hospital não o vê como candidato para um transplante elegível, tendo em vista a sua longa vida de desregramento na bebida e nos charutos. Seu filho, Chales Rhoades Junior, Chuck, não é compatível como doador. Seus outros filhos, fora do casamento, também não o são.

Billions (2016) / Div.
Quando a sua ex-nora, Wendy Rhoades, o visita e anuncia que também não pode ser doadora de um rim, ela informa Charles a respeito do sucesso que a Medicina vem obtendo com o xenotransplante. A sua resposta é que seu grego estava enferrujado. Ela lhe explica tratar-se de transplantes usando rins de porcos, não perdendo a oportunidade de alfinetar com sarcasmo o ex-sogro: como ele era um tanto chauvinista, deveria aproveitar para adicionar mais um pedaço para combinar com o seu caráter.

Rhoades responde que prefere a morte e, depois de alguns segundos de reflexão, diz que a única coisa que aprendeu com os gregos era que os grandes trágicos não mostravam cenas de morte no palco (os gregos chamavam de proscênio, esclareço), com elas acontecendo fora da vista dos espectadores (na cena, lugar onde os personagens trocavam de roupa
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Billions (2016) / Div.
e onde ocorriam as mortes, esclareço novamente). O velho reflete mais um pouco e arremata:


“Viver, viver é que é o drama (no sentido grego da palavra, óbvio!), a grande lição da aula, muitas lições a aprender”.

Numa cena de menos de um minuto da série Billions (EUA, Brian Koppelman, David Levien e Andrew Ross Sorkin, 2016), em um cenário em que luz e obscuridade se combinam com perfeição, apesar de ser dia, o roteirista nos dá algumas lições sobre a tragédia. A primeira delas é uma questão prática – nem sempre é possível representar cenas de morte, no espaço reduzido do proscênio –, que atende, também, aos efeitos da fabulação: evitando-se as cenas de sangue, o impacto sobre o público, quando sabe do ocorrido, é muito maior. A segunda lição é de ordem da trama, essencial para que entendamos o que é uma tragédia grega. A morte é irrelevante, não sendo, necessariamente, trágica. Trágico ou dramático (ainda no sentido grego...) é viver, viver e sofrer as consequências, pois o sofrimento ensina, conforme apregoa claramente o Coro, no Párados Lírico do Agamêmnon, de Ésquiloπάθος μάθος (verso 177).

O terceiro ensinamento é de ordem filosófica, essencial, contudo, à tragédia, com o ensinamento moral que é. O herói trágico vive uma aporia (ἀπορία), uma situação sem saída. Se houver solução para o seu problema, não é tragédia; se ele morre, não haverá o sofrimento, que ensina, e o sentido do trágico se evola.
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Billions (2016) / Div.
Charles Senior vive a aporia típica do herói trágico, ele é o potente-impotente, pois de nada lhe adiantam a riqueza e a prepotência que ele cultivou por toda a vida.

A lição mais importante, contudo, é a de que Charles Rhoades Senior traz para a sua vida o ensinamento da tragédia, que ele estudou nos tempos do colégio, aprendendo, embora tardiamente, que os textos trágicos não são mera ficção vazia ou embolorados textos obsoletos, escritos numa língua que interessa a poucos e cada vez menos. Lição maior da importância dos estudos clássicos, que faz ecoar nos seus ouvidos de herói caído, a verdade que sai da boca do Coro do Édipo tirano, no Êxodos da tragédia:

Ó habitantes da minha pátria Tebas, vede, Édipo, este aqui, que conhecera os ilustres enigmas e era o mais poderoso varão, quem dos cidadãos não contemplou, sem inveja, suas venturas, agora dirigindo-se a quão grande torrente de terrível miséria! Cabe ao mortal existente observar este finalizado dia, ninguém procurando ver-se feliz, antes de o termo da vida ter atravessado e nada de algo doloroso tendo sofrido.

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  1. Professor, porque ele diz, " e algo de nada doloroso tendo sofrido!

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  2. O homem só poderá dizer-se feliz, Hugo, se atravessar toda a vida sem ter sofrido algo doloroso.

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