Aos doze, treze anos, vive-se alheio à celeridade com que a mão invisível do tempo arranca folhinhas de calendário e as lança para longe. ...

Nefertiti

alberto lacet memoria seletiva infancia cinema avo
Aos doze, treze anos, vive-se alheio à celeridade com que a mão invisível do tempo arranca folhinhas de calendário e as lança para longe. Já a página daquela memorável década dos sessenta começara então a dobrar-se, ainda que eu, sem saber ainda, tivesse já começado a formar meu acervo indelével de lembranças referentes a ela.

E eis aqui uma delas: outra vez é sábado. A hora é próxima ao meio-dia, e a Pick-Up Rural freia rente à calçada. Pela porta da frente quem desce é Dondonzinha Dantas. O motorista abre então uma porta mais recuada e por ela sai uma menina que irá servir de companhia à idosa senhora. Pelo outro lado do carro, desce outra mulher, na casa dos 30 anos. São mulheres Dantas. Gente rica.

Dondom segue com a menina em direção à porta da casa e bate as palmas. Chama pelo nome de minha avó, enquanto a outra mulher, bem mais jovem, permanece parada na calçada, sem pressa. Vejo-a tentando estirar algumas nervuras que, pelo tempo da viagem, formaram-se no casaco, que cobre todo o vestido, e que tem gola e punho de vison. Na cabeça, uma espécie de touca felpuda.

Em seguida, de um modo que, apesar do tempo, arrisco ainda a dizer que fosse impaciência abrandada de resignação, perpassou entre os dedos as voltas de um colar de pérolas, desvencilhando-as, e, por último, ajeitava sobre a cabeça o que era na verdade um daqueles gorros russos, uma chapka, sem abas, de coloração quase negra, feito talvez com pele de Mangusto (o animalzinho siberiano que daria ao futuro pintor por quem meu destino esperava, seus mais preciosos pincéis). Em seguida, a mulher começou a andar. Para minha decepção, passou da casa da avó e continuou calçada abaixo. Mas, era tarde. Eu estava siderado.

O fato de ter uma altura como até então não lembrava de ter visto em outra mulher, já teria sido o bastante para prender minha atenção, sem falar no luxo um tanto bizarro com que se vestia. E tinha os detalhes do rosto, pois, acima de tudo, aquela era a primeira vez que eu via alguém totalmente desguarnecido de pelos no corpo. Tomado de susto com ela – talvez maravilhado -, em nenhum momento, desde que a vi, consegui tirar os olhos da pessoa.

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Para esconder o que ela própria considerasse talvez uma espécie de deficiência física, a moça cobrira-se de disfarces. Em termos de eficácia, porém, não raro os disfarces deixam a desejar. Assustara-me talvez a verificação (a possibilidade) de que ela houvesse se vestido de tal imponência apenas para disfarçar a falha genética, fruto dos sucessivos casamentos consanguíneos na família, e que, inobstante, não acarretava maiores consequências que um compreensível prejuízo, quem sabe contornável, para a autoestima de uma mulher. Suspeito, hoje, que a artificial sobrancelha, azulada, longa talvez em demasia, e regularmente arqueada, numa concepção geometricamente simples da forma, fosse na verdade uma tatuagem. Creio que não existissem cílios postiços à época, e o jeito fosse contornar o olho com lápis lazuli, como fizera ela, ganhando com isto, embora levemente, certo exotismo de rainha egípcia.

No entanto, era bela.

E era como se o cinema estivesse ali, outra vez, bem pertinho de casa, e prendendo minha atenção, como antes estivera naquele começo de noite dos anos 50, e aqui, outra vez, voltando à infância remota. Desta vez a um começo de noite em que fui até à porta da casa e vi aquela luz resplandecer na direção da rua, a partir de uma meia esquina, situada a apenas 3 casas da minha.

Havia ali uma quebra no alinhamento das casas, que formava um ângulo próximo aos 30 graus, suficiente, no entanto, para esconder a origem da luminescência que eu vira. Também escutava sons partindo de lá.

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Lembro-me de ter dado uma olhada para dentro de casa e não ter visto ninguém que me impedisse de dar uma escapadela até lá, e, na sequência, de ter escorregado para a calçada e andado lentamente na direção do burburinho, numa progressão quase interminável em que riscava o dedo na barra inferior das casas, como se puxando um invisível cordão de Ariadne para não me perder na rua imensa e escura. Marchava lento, temeroso e obsessivo, como se em direção à uma luz no fim do túnel. Assim até atingir a esquina.

Naquela meia esquina iniciava-se – disto eu saberia depois – a fachada de um elegante bangalô, onde morava o Dr. Moacir Dantas, único médico da Freguesia. Logo após esta casa visualizei a edificação vizinha. Ali havia uma pequena aglomeração de pessoas diante de uma porta. Na parte de cima do vão tinham dependurado uma lanterna Collemam, que lançava sua luz para a rua. As pessoas lembravam um enxame de besouros atraídos por ela. Naquele primeira excursão noturna que até então fizera na vida, eu tinha acabado de descobrir o cinema.

Aproximo-me, e, na portaria está um dos meus tios, que, tão logo me percebe ali, me ordena que entre. Naquele momento, e desta forma, tomava meus primeiros contatos com um mundo que, além dos inevitáveis atroares de revólveres e cascos de cavalo ecoando na sala, iria me trazer, mas isto somente na década seguinte, o glamour de suas estrelas, cujos filmes, no entanto, haviam-se gestado naqueles mesmos anos 50 em que pude entrar em um cinema pela primeira vez.

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No passar do tempo, em outros locais e datas, fui verificando que as estrelas dos filmes vestiam-se também espalhafatosamente, em roupas orladas com as mesmas felpudas peles de pequenos animais siberianos, como a que eu vira envolvendo o corpo daquela Dantas, (mulher da qual eu não viria jamais a saber o prenome), embora essa mesma sequência de fatos, em que primeiramente uma mulher se transforma em protótipo, e só depois é que surgem possíveis variações suas nas telas do cinema, explique facilmente a razão para jamais ter apagado da mente o fio dessa lembrança.

Impressiona perceber como se pode, às vezes, evocar mundos tão afastados de nossa vida. Como é possível tornar redivivo o que até agora jazeu quase adormecido na memória, ainda por cima em uma riqueza de detalhes que chegam a dar testemunho de aspecto climático, expressão facial, gestual, etc.

Uma das mais preciosas ferramentas da memória talvez seja sua seletividade. Quando uma lembrança nos chega, 50 anos depois, surge sem estridência, a imagem que nos chega é, muitas vezes, mero fiapo do que um dia foi seda brilhante, quando quase todas as vozes que então ecoavam em volta dela encontram-se agora caladas ou na surdina. Cessado, porém, todo burburinho, e possível no entanto vasculhar em torno do objeto da lembrança, quem sabe reconstituir um dos quadrantes da cena, com elementos de maior substância, filtrados pelo tempo.

Penso em uma espécie de milagrosa autópsia, cujo propósito não fosse, no entanto pretensioso ao ponto de pretender ressuscitar o morto, mas fazer voltar a enxergar em sua quase inteireza o momento vital de uma pessoa pelo conjunto dos inumeráveis detalhes anatômicos que, aos poucos, irão sendo escrutinados por lenta vivissecção das partes, embora para tanto, mais do que fundamental seja a ação da escrita se movendo dentro de sua reconhecidamente extrema maleabilidade. Será ela, portanto que aos poucos irá soprando para trás o véu do esquecimento, e ao mesmo tempo grafando o que se acaba de desvelar. A escrita em seus ritmos e compasso, seus recuos e esperas, seus insidiosos avanços.

Por outro lado, me vejo agora forçado a dizer que jamais me daria à tais memorizações se, por acaso nos anos subsequentes aos primeiros tempos narrados não tivesse me tornado um dos interlocutores favoritos de minha avó, embora num ramo de assunto que, sou tentado a classificar, e sem trocadilho, como talvez aquele mais afeto às suas memórias afetivas.

Fui aos poucos percebendo que, desde a tenra idade me coubera sempre um certo papel de passivo orelhão,
quem sabe um insuspeitado, improvisado oráculo de fancaria, espécie de gambiarra da alma de minha avó, para confidências de toque levemente segredoso, mas, enfim, passíveis de serem contadas a um neto.

Ela que, mais e mais, passara a enxergar em mim alguém genuinamente interessado em ouvir até mesmo os arcaísmos e pérolas do seu tempo de mocinha, e que sempre se mostrava surpresa com aquele meu riso rompendo incontrolável diante das repentinas e absolutamente espontâneas imitações que ela fazia, das falas e gestos das pessoas arroladas em suas histórias.

Certa vez em que estava a janela, chamou minha atenção, e eu parei com os lápis e o caderno que ela me dera para que ficasse por ali, sentado ao chão e, um pouco aos seus pés, desenhando. Disse-me, Arrberrto (pronunciava dessa forma), veja, meu fio, como Deus é bom. Fez este céu azul e tão bonito, que, ficamos horas olhando para ele, já pensou se no momento da Criação se tem resolvido por um céu vermelho? Não sei a idade que teria, ali, talvez contasse uns 5, 6 anos, no máximo, mas um pequeno raio da lógica inerente a cada um de nós me atravessou a alma e respondi-lhe na bucha, Vovó, disse-lhe, se Ele tivesse feito vermelho, a senhora reclamaria do azul. Ela então retesou o pescoço, recuando um pouco a cabeça enquanto apertava os olhos como se para me enxergar pela primeira vez, e não disse palavra. Sem querer, eu a tinha apanhado de surpresa.

Mas, por aqueles anos, o cinema de meu tio fechara suas portas, desde que ele se fora da cidade, tangido por uma desavença de rua. Passaria ainda um tempo refugiado na fazenda ‘Liberdade’ de Manuel da Silveira Dantas, o Silveira, no Vale das Espinharas, uns sopés ao Norte da serra de Teixeira, antes que sua mãe o enviasse de vez para o Piauí. Deixaria num dos quartos de despensa as duas reluzentes e complicadíssimas máquinas de projeção cinematográfica, marca Kodak, bem como as pilhas de discos de 78 rpm que através de uma difusora incendiavam os começos de noite, e que tanto haviam servido de chamariz para os filmes.
Fragmento do título inédito:
“As 3 Dantas”

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