Haveria uma saída. Era obrigatório haver. Estava nos últimos tempos distante, muito mais distante do que deveria de coisas que o faziam be...

Sem olhar para trás

miniconto solidao presente passado
Haveria uma saída. Era obrigatório haver. Estava nos últimos tempos distante, muito mais distante do que deveria de coisas que o faziam bem.

O azul foi se tornando cinza e algumas pessoas outrora queridas perderam o encanto e a sutileza em ser grácil, mas nunca simplório, que o tocava e promovia o bem ampliando e prometendo vida.

miniconto solidao presente passado
A princípio pensava ser passageiro, como um desconforto útil, quem sabe um sinal, ou uma promessa de crescimento interior. Mas os dias, as semanas e os meses foram alongando este descompasso entre o passado e o presente parecendo negar a presunção de um futuro restaurador.

Procurou razões, observou-se com maior frequência e tentou mudanças racionais flutuando entre o vazio e uma mágoa imprecisa consigo mesmo. Procurou ajuda e sentia pressa em resultados, sem obtê-los.

O passado insistia em não voltar, como se lavasse as mãos ao presente, tal qual a sombra da copa de uma árvore que se estreitava indiferente a sua ação protetora. A luz o incomodava com sua enorme carga de realidade.

Resignou-se, foi vencido. No domingo, levantou-se cedo fez a barba, buscando um outro rosto e permaneceu em jejum, não sentia fome. Vestiu-se bem, girou o corpo por duas vezes na sala, registrou com detalhes o percebido, abriu a porta que o levava ao jardim e desprovido de esperança e com as mãos vazias se foi. Não acreditava mais na sua importância em ninguém.

Seguiu o caminho irregular das calçadas, sem olhar para trás.

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  1. Um personagem meu, romance "Arkáditch" ( ed. ideia, 2012 ) também toma essa resolução. De partir. Eis o trecho em que isso acontece: "Cinco minutos depois, ele sai de jeans, camisa xadrez, tênis velhos, mala na mão. Para apenas diante da grossa Bíblia aberta na estante sobre o móvel da sala, fecha-a – fechando também os olhos – ergue a cabeça, pensa: Um rumo! e abre o livrão ao acaso, o dedo para num lugar qualquer da página. E lá está:

    Já não vemos os nossos sinais, já não
    há profeta, nem há entre nós alguém
    que saiba até quando isto durará.

    – Deu um beijo na neném? – ouve atrás dele.
    – Claro – diz em voz baixa, voltando-se. – Tchau, Dona Dondon – e abraça-a, acaricia-lhe a cabeça branca, sai da sala, desce a escada, vai até o portão, vira-se acenando, vai embora devagar, na calçada.
    – Fernando!
    – O que foi?
    – O carro!
    – Não chega pra Padre Anselmo! Fica aí!
    – Mas!... – ela vai gritar alguma coisa, baixa a voz – Não faça isso com a menina, pelo amor de deus!...
    Ele se vai de cabeça baixa, mão esquerda no bolso, a outra com a mala, até que dobra a esquina para pegar o ônibus na rua de trás. Dondon então entra, vai até o quarto de Iolanda, ergue a neta do berço e chora baixinho, gemendo Painho foimbola, meu amoizinho! Painho foimbola!!... e beija-a, beija-a, beija-a, sem que Nonona acorde. Devolve-a ao sono dos justos, vai para o gabinete do marido, liga para Iolanda:
    – Minha filha, Fernando esteve aqui, ainda agorinha. Pegou uns trapos e se foi, ... deixando o carro estacionado aqui em frente. Eu gritei pra ele: O carro!, e o pobre respondeu: Não chega pra Padre Anselmo!
    Longo silêncio na linha."

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