Sempre que ouço Avôrai, uma das mais belas canções de Zé Ramalho, que fala do seu avô, um tipo bonachão e ao mesmo tempo árido como a terr...

Horácio não era Jesus

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Sempre que ouço Avôrai, uma das mais belas canções de Zé Ramalho, que fala do seu avô, um tipo bonachão e ao mesmo tempo árido como a terra do agreste, vem à lembrança mestre Horácio. Como Avôrai, Horácio era um velho de botas longas, barba longa e branca, e alforje de caçador. Morava numa casa simples de duas águas, num cabeço de serra cercado por mato denso, cortado por caminho de pedras, serpenteado, difícil de subir.

” A contemplação só vale se houver esforço... Você pode até, de algum modo, desfrutar o que não se esforçou para conseguir, mas não haverá encanto nem contemplação porque a alma continuará pequena. A alma depende do esforço da subida, ela só cresce com sacrifício”, dizia a um e outro que o visitavam.

Era um homem cheio de mistério, e de histórias. Eu tinha 13 a 14 anos de idade e passava uns dias na fazenda do meu avô, divisa da Paraíba com o Rio Grande. Mestre Horácio estava lá. Ele viera da chapada do Araripe, nascera no vale do Juazeiro, no tempo de padre Cícero.

Contava para quem quisesse ouvir que viu muitas coisas, que testemunhou famintos subirem a ladeira do Horto atrás de comida e serviço, que viu cangaceiros armados chegarem para pedir a benção ao santo padre, e que não chegou a testemunhar o milagre da hóstia com a beata Maria do Araújo, mas que a conheceu. Dizia que tal acontecimento tinha mudado para sempre a imagem da região e a do Padre.

Padre Cícero rezava missa na capela de Nossa Senhora das Dores com a presença de muitos fiéis, foi quando, na hora de receber a hóstia consagrada, a beata Maria de Araújo não pôde degluti-la, pois ela transformara-se em sangue. Era o milagre do “Meu-Padim-Padre-Cícero”, que a Igreja considerou um ultraje à Santa Ceia, e o povo celebrou como a visitação do Cristo no sertão.

Contava que ele sempre estava cercado por seguidores que o ouviam e o acompanhavam para onde quer que fosse. Horácio cresceu ouvindo suas histórias, lendo o que ele dizia que lesse e fazendo o que dizia que fizesse.
Anos mais tarde começou a peregrinar sertão afora, andando a pé pela terra estéril, e vagou tanto que acabou chegando nessas bandas.

O tempo, os conselhos e as histórias o deixaram místico, rezas e remédios caseiros o tornaram quase santo.

Certo dia o velho passava pelo caminho, de frente à casa da fazenda, foi quando vi a mulher de um dos vaqueiros se dirigir para ele com expressão muito angustiada. Eu já sabia da sua história, fazia um tempo que seu filho vivia acamado depois de ter contraído doença grave e sem cura. Agora o estado de saúde se agravara ainda mais.

Minutos antes eu estava com minha avó no alpendre, e aquela mulher chegou, chorosa. Eu não sabia o que dizer, mas vovó tentou acalmá-la do seu jeito, escolhendo as melhores palavras. Ela lhe disse que Deus ia providenciar tudo, e que tudo ia ficar bem.

Confesso que senti vontade de chorar, mas tudo o que fiz foi encher bem os pulmões para suportar a emoção e saber como Deus ia providenciar as coisas e como, diante daquele impasse, as coisas iam ficar bem.

A mulher se aproximou e o velho Horácio fez o que qualquer pessoa emocionalmente equilibrada faria, mostrou-se sereno e muito atencioso, limitando-se a ouvir.

Então a pobre mulher disse que Deus não podia levar seu filho, que ela o queria perto dela, mesmo enfermo, mesmo inconsciente. E tanta era sua desilusão e desespero que, por fim, pediu ao mestre que lhe fizesse um remédio para o filho sobreviver. Mas como ia fazer? Embora fosse respeitado pelas rezas e receitas caseiras que serviam para curar coisas simples, o velho era um ser humano cheio de pecados e defeitos, como a maior parte das pessoas. “ Milagres, deve ter pensado ele, ficam para Jesus Cristo, e eu não sou Jesus Cristo!”

E sabendo do estado do doente e que nada poderia fazer para salvá-lo, fez o que podia fazer: um remédio para a mãe! E o remédio foram estas palavras:

“Eu vi muitos filhos morrerem e vi o desespero e a dor de muitas mães, Maria viu seu filho padecer, ser crucificado e morto. O sofrimento é um estado pelo qual todos passarão em algum momento, faz parte da vida. Deus entregou seu filho mais amado à humilhação e ao suplício na Terra e depois o libertou no Céu. Ele quis dizer que a dor pertence ao plano terreno, e a qualquer um que nele viva. Portanto, a dor não existe apenas no seu pranto! “

“Volte para casa e conforte seu filho, chorando não confortará nem a si mesma. Um dia alguém vence, um dia alguém perde, e aquele que não lutar perderá duas vezes, uma vez por não ter se esforçado para sair em busca da vitória, a outra por saber que a vida não lhe fez o menor sentido.”

“A vida é um eterno combate. Durante o dia flechas vão querer acertar seu peito, durante a noite fantasmas vão querer roubar seu sono. Mas Deus é vigilante e protege o homem bom, e não esqueça: Quando rezar, agradeça, mesmo diante da dor e da adversidade. Não afirme que Deus é mau só porque o momento é difícil e o caminho enladeirado e espinhoso.” “O sol nasce até para o cego e o fim chega até para o rei, só o tempo é permanente, e como não somos o tempo, esse próprio tempo marcará o nosso fim. Portanto, agradeça por cada minuto que a vida oferece, por cada instante que passar com seu filho, pois mais vale um minuto na vida de quem sabe quanto lhe resta do que toda a vida de quem acha que a possui. ”

Aquela mulher voltou para casa levando consigo o ânimo sereno como o melhor remédio para a adversidade e a paz no coração como o melhor remédio para o egoísmo, e entendeu que a injustiça estava no mundo, não em Deus porque se ele fosse injusto para uns certamente seria uma ameaça para todos.


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