Quando José Lins do Rego publicou Usina , em 1936, e ofereceu a Graciliano Ramos, o romancista alagoano, que a intelectualidade brasileira...

'Usina': mais de 70 anos de antecipações

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Quando José Lins do Rego publicou Usina, em 1936, e ofereceu a Graciliano Ramos, o romancista alagoano, que a intelectualidade brasileira viria a entronizar depois, era preso político confinado na Ilha Grande.

Em Memórias do Cárcere, encontra-se o registro da explosão de sentimentos provocada pela dedicatória. Sentimentos aparentemente paradoxais, mas que se fazem compreensíveis pela circunstância vivida. Quase de revolta contra o amigo que se arriscara na solidariedade da homenagem. O recado através de Heloísa revela o nível da preocupação:

"Diga a José Lins que deixe de ser burro. (...) E enviar bilhete é doidice. Se ele quiser falar comigo, mande um recado por intermédio. Coisa verbal. Nada de escrito."

O Brasil vivia sob a presidência de Getúlio Vargas, caudilho cujo papel Graciliano caricaturiza em traços burlescos: "Era um prisioneiro como nós; puxavam lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais."

Usina era o quinto romance do paraibano que já firmara na literatura brasileira uma linguagem inovadora, plasmada sobretudo na estilização da oralidade e da expressão popular; uma temática que propiciava a redescoberta do país e uma vigorosa forma de narrar que confundia a crítica ainda sem parâmetro para a leitura da simplicidade habilmente construída.

Cândido Portinari ▪ 1939
Recebendo Zelins na Academia Brasileira de Letras com o discurso intitulado "Sois um tema literário e humano bastante complexo", Austregésilo de Athayde contesta claramente equívocos e preconceitos repetidos sobre o grande escritor da várzea da Paraíba. E estabelece a perspectiva indispensável para a abordagem de seus romances, esclarecendo-a com o recurso da comparação:

"As vossas facilidades são enganosas aparências que se desfazem com a meditação da obra e do homem, assim como sucede com as paisagens distantes, muito simples nas grandes linhas da dimensão fotográfica, porém de perigoso e complicado acesso para os viajantes das montanhas, dos vales, das florestas e dos descampados que de longe se confundem em lisuras verdes e plácidos caminhos."

O compromisso de revisitar Usina, no aniversário de 70 anos, implica essa certeza da dificuldade. Porque não basta repetir a história e as avaliações críticas anteriores. É preciso acrescentar. Descobrir significados. "Infundir vida"

Usina não se inclui entre os romances de Zelins mais estudados, embora encerre o chamado Ciclo da Cana-de-Açúcar, recorrência permanente, quando se trata do grande narrador paraibano.

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No ano do lançamento, o livro foi saudado com entusiasmo por Jaime de Barros, em Salvador. E, no Rio de Janeiro, pelo poeta Manuel Bandeira que cria uma bela imagem para definir o estilo do romancista em cuja obra, segundo sua avaliação, "está o ponto de partida da verdadeira prosa brasileira".

"O estilo de José Lins do Rego é um estilo de cheia de rio barrento, libidinoso, arrastando tudo que encontra na cabeça de água; troços de mocambo, porteiras de engenho, árvores derrubadas, gado afogado, o diabo." Em 1973, Hélio Pólvora afirma a permanência de Usina, mesmo que o considere o menos estimado, entre os romances pertencentes ao Ciclo da Cana-de-Açúcar. A importância do artigo está no combate aos que ainda desprezam a escola regionalista e na releitura de José Lins do Rego "como um dos tributários do novo romance hispano-americano bordado nos mitos da terra e do homem".

Verifica-se que o percurso da crítica literária, em relação a Zelins, é tortuoso e desigual. Nele será sempre necessário separar as afirmações fundamentadas na análise, na leitura criteriosa, das motivadas por razões que se originam no conflito histórico modernismo x regionalismo, com suas profundas implicações ideológicas.

Na lição de Manuel Bandeira, uma "unidade de ordem superior" se completa com Usina. "E vista destas alturas, a obra de Zelins assume uma importância como talvez não tenha nenhuma outra de ficção em nossas letras." De modo que é preciso ler Usina sem perder de vista Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê e Moleque Ricardo. Pois entre eles, constata-se uma sequência espaço-temporal e significativa recorrência a motivos, temas e personagens.

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Esse quinto livro de Zelins se compõe de duas partes: O retorno e Usina. Na primeira, tem início a viagem de volta. E voltar, na ideologia do romance, não será uma forma de renascer.

O moleque Ricardo, saído da prisão em Fernando de Noronha, embarca na segunda classe, seguindo de trem à procura do Santa Rosa. Mas não é a viagem ao "paraíso perdido", como afirmam alguns críticos, para concluir que o escritor idealiza a vida nos engenhos e mascara a miséria dos trabalhadores da cana-de-açúcar.

Na visão crítica do narrador, Ricardo deixara o Santa Rosa "há oito anos, fugido como de um presídio, de uma ilha de trabalhos forçados. Fugira de lá para não ser um alugado e fora pior do que isso." (U. p. 40)

C. Portinari ▪ 1938
Portanto, as duas alternativas que o escritor expõe para a vida do personagem são igualmente dolorosas e degradantes criando-se para ele a imagem da vida como um beco sem saída.

No campo, o alugado. O eito. O regime de trabalho que representa o último degrau na escala social. O sucedâneo da escravidão. Daí, na retórica da narrativa, o Santa Rosa é equiparado a um presídio, a uma ilha de trabalhos forçados.

Na cidade, muitas descobertas e novas formas de sacrifício e de exclusão. Até o encarceramento em Fernando de Noronha que fez de Ricardo uma pessoa ainda mais sofrida, só e sem perspectiva.

De modo que, em Usina, voltar não sinaliza para o reencontro. Mas para a desesperança, a solidão e a morte.

"O coração do negrinho de outrora voltava murcho, como se um bicho qualquer tivesse chupado tudo o que ele tivesse de seiva." (U. p. 3)

"Ele voltava e a vida que lhe apareceu foi uma vida de encarcerado sem esperança. (.....) Aonde encontrar uma pessoa, um ente de carne e osso para conversar, ter confiança?" (U. p. 33)

Foi nesse estado de espírito que pensou no Santa Rosa, em mãe Avelina e em Rafael, seus únicos pontos de referência.

Quando sentia "uma ânsia, uma vontade de gritar naquele carro para todo mundo: Eu sou um negro infeliz, sem amigos, sem mulher, sem vontade de amar." O moleque Ricardo é um personagem-síntese do trabalhador rural,
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C. Portinari ▪ 1934
no êxodo para a cidade. Mais que um expatriado. Um homem sem lugar no mundo. Um excluído da possibilidade de viver. Um personagem denso, de grande simbologia, profundamente enraizado na realidade socioeconômica e cultural vivida pelo autor, com rara sensibilidade, e recriada na ficção com a força de uma profecia.

Por essa razão, Graciliano se espanta com O moleque Ricardo e confessa em carta ao amigo:

"Não encontrei figura semelhante às dos romances negros que aqui lemos. Os seus negros e os seus mulatos são muito diferentes."

Compreende-se o espanto do mestre Graça, explicitando-se essa diferença. É que Zelins acabava de dar vida e humanidade a um personagem complexo, cujo grau de verossimilhança era inexistente na ficção brasileira.

Um personagem que tem sua força simbólica atualizada com a passagem do tempo.

Quem não identifica, na realidade contemporânea, os milhões de Ricardos excedentes, marginalizados pela revolução tecnológica e pela ideologia da globalização? Milhões de Ricardos para quem sobrou a última classe e nenhum destino.

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C. Portinari ▪ 1934
Outra característica que diferencia a construção ficcional de José Lins do Rego é a densidade dramática que ele imprime aos seus personagens, sem distinção da classe social que representem. É um aspecto do tratamento dispensado à cultura popular, fonte original de sua criação, que não se deforma na superficialidade da abordagem folclórica. A obra de Zelins elimina não apenas o distanciamento entre a cultura erudita e a popular mas, sobretudo, a hierarquia entre essas duas formas do saber.

Por isso, nos seus personagens, a condição de deserdados pelo sistema produtivo não é obstáculo para a expressão dos conflitos interiores. Dos grandes conflitos que constituem em todos os tempos a marca essencial da humanidade. Zelins redimensiona e restaura, para sempre, o que a ideologia da exclusão reduziu e estigmatizou no falso conceito de "homem simples do povo".
Guilherme Rogato ▪ 1932
É este o sentido da galeria que começa com Ricardo, continua com Bentinho e Aparício e se completa com o mestre José Amaro.

Seria essa a provável tradução para o espanto de Graciliano Ramos.

Há quem defenda que a primeira parte de Usina é superior à segunda. Certamente, considerando os recursos narrativos.

Mal começa O Retorno e o narrador de terceira pessoa já se confunde com o monólogo interior. O tempo é o da duração da volta. Um tempo que se acumula na dupla viagem: a que segue pelos trilhos e a que se processa na memória do personagem, trazendo para o presente da narrativa o recente passado de Ricardo. A vida como presidiário em Fernando de Noronha e a sobrevivência no Recife, após a saída do presídio.

O fluxo das lembranças reproduz o mesmo ritmo do trem, arrastado e repetitivo, na sequência das estações de um longo calvário. E nelas a reiteração dos grandes temas que constituem o universo ficcional de Zelins: o desamparo, o sofrimento, a solidão e a morte.

Mas, na constituição temática de Usina, um aspecto ainda não incluído na obra do autor. A abordagem da homossexualidade como uma ampliação do enfoque reservado ao amor.
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C. Portinari ▪ 1941
Ou ao "estatuto do corpo", como diria Drummond.

O romancista expõe a relação de Ricardo com o cozinheiro do presídio, Seu Manuel, sem nenhum eufemismo. Tratando-a com a mesma liberdade, riqueza de detalhes, sentimentos e emoções que reservou a outras manifestações da sexualidade.

É um ponto de vista desafiador que se antecipa ao debate aberto da questão e às mudanças de mentalidade que só as últimas décadas do século XX iriam propiciar.

Na vivência conflituosa de Ricardo, reflete-se o medo da censura, a realidade da interdição social. Mas o amor do cozinheiro louro se sobrepõe a todas as resistências.

"Para Ricardo, naquelas noites de chuva, naquelas noites pesadas da ilha, fora-lhe Seu Manuel uma mãe, uma rapariga, um irmão. Tudo que tinha era para lhe dar. Um amor mais feroz que o de Isaura na hora boa, mais pegajento que o de Odete." (U.p.20)

O narrador não julga. Expõe e confere, sem jamais reproduzir o preconceito ou deixar-se conduzir por ele. E, nas reflexões do personagem, vai crescendo a importância desse amor que mais se afirma na qualificação que lhe é atribuída.

"Ninguém no mundo tivera para ele um amor como aquele de Seu Manuel. Ele, Ricardo, seria um Deus se quisesse para o outro. Seu Manuel rezava para ele, cantava, trabalhava. O dia de Seu Manuel, os pensamentos, a alegria, a tristeza, tudo era dele." (U. p. 23).

O tema não fica restrito à circunstância do presídio. Ricardo lembra dos homens-mulheres do engenho, embora fossem em menor número. Nessas lembranças se destaca "Mané Pereira que dormia na cama de vara com moleques que eles todos conheciam." E com a ressalva de que "na frente do negro velho ninguém ousava uma palavra, um dito safado. Respeitavam o coitado, não diziam nada que não fosse da maior consideração." Como se vê, Zelins dedica ao tema um tratamento inusitado, indo de encontro ao interdito, confrontando um tabu que nem a televisão, hoje, consegue enfocar sem se expor à censura.

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C. Portinari ▪ 1941
A comparação entre os amores vividos por Ricardo é um importante recurso retórico que se repete com frequência na narrativa, estabelecendo sempre a superioridade do relacionamento homossexual: na dedicação, no prazer, na delicadeza, nas múltiplas formas de sentimento reconhecidas nesse amor.

"De noite Seu Manuel ia para o quarto dele. Trancavam-se e o criminoso de três mortes botava a cabeça de Ricardo nas pernas, passava as mãos na carapinha, como nunca mulher nenhuma teria feito com ele. (...) aquelas mãos que se ensanguentaram alisando sua cabeça com a delicadeza que nem Isaura nem Odete souberam ter." (U.p.15).

Percebe-se, claramente, que o romancista tem um plano estabelecido para o tratamento do tema. Uma convicção ideológica que domina todas as cenas. É uma forma de amor que ele está trabalhando em sua narrativa. Não um desvio de conduta ou uma anormalidade. E a conclusão de Ricardo é categórica:

"Via assim que havia amor no mundo e que o amor era capaz de mover o mundo." (U. p. 23).

Em mais de setenta anos, inexiste o registro da crítica a essa antecipação do grande romancista. Encontra-se, levemente, a referência. Mas nenhuma análise, nenhuma leitura.

A segunda parte de Usina trata da ascensão e queda da Bom Jesus. Dr. Juca reúne vários engenhos da família e investe na nova forma de produção. A princípio, máquinas modestas. Depois, entusiasmado com a perspectiva do lucro, aposta em máquinas modernas. Mas os gastos desenfreados, o endividamento excessivo e a oscilação do preço do açúcar levam a Bom Jesus à falência.

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C. Portinari ▪ 1947
Fechando a série que denominou "um tanto enfaticamente de Ciclo da Cana-de-Açúcar", Zelins já compreendia que a sua obra ultrapassava infinitamente essa circunstância.

E hoje, relendo Usina, é comovente constatar que, vivendo a realidade da industrialização incipiente, o grande romancista trata, com a maior ênfase, dos problemas que, no final do século XX, irão apresentar-se como desafios cujo enfrentamento se faz condição para a sobrevivência da espécie humana.

Usina coloca em discussão os aspectos da ecologia que constituem, hoje, preocupações mundiais. A devastação dos ecossistemas, da biodiversidade, a poluição das águas e a degradação dos homens. E em sua percepção o que sobressai é a visão de conjunto, a apreensão da problemática no vértice de suas implicações. Não se trata de salvar apenas as baleias ou o mico leão-dourado ou as tartarugas marinhas.

A obra de Zelins antecipa a consciência crítica de hoje que preconiza uma articulação ético-política entre os três registros ecológicos: o do meio ambiente, das relações sociais e o da subjetividade.
▪ Do livro da autora, Um certo modo de ler, Editora Ideia, 2008

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  1. Delícia de estudo a respeito de Zé Lins! Do que ele fez sobre o ciclo da cana-de-açúcar, com sua série de romances, a senhora fez uma análise que - numa História da Arte - teria o nome de "horizonte alto", ao contrário do que eu tinha com as panorâmicas e travellings vividos nos muitos anos em que fui o encarregado de fazer os pareceres sobre propostas de financiamentos das usinas de açúcar e álcool de nossa região, na agencia centro do Banco do Brasil, onde - num dia de 1982 - recebi ligação do Fernando Teixeira, pedindo-me que adaptasse Fogo Morto para o teatro, tendo em vista a inauguração do Espaço Cultural José Lins do rego por Burity, o que me foi bastante fácil , porque - seis anos antes - eu fora o Tenente Maurício da adaptação cinematográfica do romance, torturando o Mestre Amaro ( Jofre Soares ) e derrubando, na escadaria da cadeia de Pilar, com uma bofetada , o Coronel Vitorino Carneiro da Cunha, vulgo Papa-Rabo ( o nosso Rafael de Carvalho ) . No mesmo ano fui um delegado na adaptação de A Bagaceira - o filme Soledade, de Paulo Thiago -, em que, a cavalo, trouxe, com uma corda no pescoço um personagem vivido por Sávio Rolim, que fora - dez anos antes - o grande Menino de Engenho do Walter Lima Jr. Assim, imagine o prazer que tive ao ler este seu ensaio, permitindo-me a visão "voo de pássaro", sub specie aeternitatis, do que conhecera de forma bastante pedestre, dizendo a cada instante: "Isso!", "exato!", "confere!" Zé Lins iria gostar!

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