Meu nome é Luiz e estou viajando há meia semana através de terras hostis, quase desertas. Não estou sozinho. Tenho a companhia de Augusto....

A conquista da montanha

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Meu nome é Luiz e estou viajando há meia semana através de terras hostis, quase desertas. Não estou sozinho. Tenho a companhia de Augusto. Aos poucos vamos deixando a civilização para trás, e vemos poucas pessoas, quase nenhuma moradia. A vida sem homens se torna silenciosa. Em certas ocasiões sentimos paz no silêncio; noutras, solidão e medo. Mas o medo se desfaz quando se tem objetivos. Precisávamos chegar, e foi para isso que viemos!

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No início éramos quatro, mas no primeiro dia um desistiu. Disse-nos que estava satisfeito com suas conquistas e optou por voltar. Aquilo nos abalou, mas decidimos seguir adiante.

No entardecer do segundo dia erramos o caminho, pois a estrada se bifurcou e escolhemos o lado que o coração pediu para seguir. A partir dali tudo o que víamos nos parecia familiar. Cada um reagiu de forma singular, em intensidade e anseios. Nossos sentimentos pulsavam fortemente, fazendo brotar emoções diversas, como prazer e melancolia, alegria e dor.

Em certo tempo percebi que o terceiro integrante da equipe começou a chorar. Estava visivelmente angustiado, e tão grande foi seu desânimo que nos convenceu de que nada mais lhe importava. Mas diferente do primeiro, que voltou para casa, ele que já não tinha forças, preferiu ali ficar. Agora éramos apenas dois. Continuamos. Alguns quilômetros depois encontramos um senhor. Pedimos para ele nos situar, pois parecíamos perdidos, apesar de acharmos que tudo o que encontrávamos fazia parte de experiências já vividas.

Disse aquele senhor:

— Vocês parecem perdidos e assombrados! Já sei... Estavam indo para a montanha... A montanha é o futuro... Erraram o caminho e agora seguem no sentido do mar. A montanha é o ponto mais alto do caminho; o mar, o mais baixo! Um erro que quase todos cometem... Esse lugar é o passado e nada de concreto existe aqui,
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é um imenso depósito de lembranças, boas e ruins. Elas machucam de qualquer modo, pois a maioria, que aqui vem, espera reparar seus acontecimentos infelizes, mas tudo que foi vivido é intocável e incorrigível. Por isso, tantos se angustiam! Nada se vive duas vezes, portanto! O presente é o instante que se despede do futuro e de si mesmo, pois tudo passa o tempo todo. Quem segue para o futuro e aqui vem apenas para revolver lembranças, como aquele que folheia um velho álbum de fotografias, encontra ricas lições e aprende com seus erros, e descobre, na saudade, o amor que sentia por aqueles que já não desfrutam do seu convívio. Mas os que aqui vem e esperam permanecer é como se perder em escura e densa floresta. Sinto que vocês se sentiram presos a esse lugar. Todos são tentados a ficar! Vão embora enquanto podem, vocês têm o futuro pela frente!

E foi assim que retomamos o nosso caminho rumo ao amanhã. Diferente do passado, tudo pela frente é novo e surpreendente, mas ao mesmo tempo assustador e cheio de desafios, por isso devemos estar atentos a tudo o que nos acontece.

Também muito nos ajudaram os ensinamentos e as advertências daquele senhor. Lembro que ficamos tão espantados que pensamos em desistir e voltar para casa, como fez o primeiro a sair da missão. Porém, disse o senhor: “Não, não... Não façam isso! Sigam em frente, vão aprender! E lembrem-se de pedir a Deus bom discernimento na hora de tomarem uma decisão, pois o erro é corrigível; o passado, não! O que aconteceu, aconteceu!

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Agora subimos a montanha. É um desafio que exige esforço e determinação. Paramos para descansar um pouco e contemplar a bela vista, a planície, o mar e a vastidão do passado. Mas como fomos instruídos a não olhar muito para trás, pouco nos prendemos e seguimos em frente. Continuamos a subir, o terreno fica escorregadio, perigoso, porém estimulante. Temos medo, medo de morrer, mas eu tento escondê-lo, e consigo; Augusto não tenta porque acredita que não consegue.

— Coragem, Augusto... Estamos quase lá!

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— Eu não consigo!

— Vai conseguir, sim!

— Eu tenho medo de cair. Você, não! Você parece bem... Não tem medo, Luiz?

— Todos sentem medo, inclusive os alpinistas! Eles sentem medo de altura... mas sabe por que não demonstram nem se desesperam? Porque estão ali para subir! O objetivo está no alto, então é pra lá que olham! Se você olhar para o que lhe assusta, vai valorizar isso e expor sua fraqueza! Uma hora depois alcançamos o topo. Do alto temos a sensação de que todas as coisas nos parecem menores, porém elas também se tornam distantes. É como ter um bom motivo para festejar e ninguém para compartilhar esse momento. Dizem que quem chega ao fundo do poço, só há a subida como caminho; do mesmo modo acontece quando se chega ao topo, você sabe que as coisas importantes estão na planície, por isso retorna.

Realmente, o desafio faz parte da natureza humana, mas depois que seus objetivos são realizados aquele que conquistou quer voltar e contar sua história. E é justamente por isso que alpinistas voltam para casa!

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