Quando A União me adotou na revisão, em 1951, recebendo salário como “pessoal de obras”, o jornal acabava de fazer seus 58 anos. Juviniano...

O Dois de Fevereiro

Quando A União me adotou na revisão, em 1951, recebendo salário como “pessoal de obras”, o jornal acabava de fazer seus 58 anos. Juviniano Joaquim Fernandes era o mais velho dos funcionários, nomeado em 1901, mas desde os 15 anos mexendo como aprendiz de encadernação. Seria a ele que os redatores do futuro haveriam de recorrer a cada aniversário da casa. E saíam frustrados pelo pouco que colhiam do velhinho ali calado a um canto.

Alcançou Tito Silva? – perguntavam. Respondia que o viu passar uma ou duas vezes, mas já não era o chefe. Já aposentado,
Juviniano era mantido no balcão da gerência, encarregado das assinaturas. Emprestava um dinheirinho a juro e não é difícil que essa viração interferisse em seu humor.

De qualquer modo era ele o testemunho mais próximo dos que tiraram o primeiro jornal, numa casa sem eira nem beira ao lado da sede, verdadeiro palacete. Pôr os olhos nele, tentar seu testemunho, fazia-nos sentir uma meia contemporaneidade com o monumento que a história consagrava.

Enquanto viveu, o 2 de fevereiro era com ele repartido. De pele morena já bem enrugada, sobrando por entre as fitas largas do suspensório, morreu antes do prédio, porém com acompanhamento, com bem mais respeito e consideração do que a construção clássica em harmonia com palácios e conventos que a cada governo da velha república ganhava o seu acréscimo. De Camilo de Holanda, de João Pessoa, de José Américo.


C
arlos Augusto de Carvalho, meu companheiro de revisão, de redação e desde antes, da Casa do Estudante, deixa a mesa cheia de provas e vem com o copo de café e o pão rançoso da noite para essa mirada entre as colunas romanas da varanda que nos arejava do corpo à alma: “Vendo daqui, Nêgo, mesmo que a luz da praça não ajude, a gente se vê melhor”. Traduzindo, a gente tem que pensar grande.

E é esse parceiro em tudo solidário – desde a Casa, na aventura da idade, no rumo da profissão e da própria vida, como nas surpresas adversas, que este 2 de fevereiro me faz lembrar, há anos e anos de sua morte.

Soava bem seu nome: Carlos Augusto de Carvalho. Nome que ajudaria o advogado e até o político como seus conterrâneos Soares Madruga e os Leite Chaves, mas terminou rendido ao que pagava menos: o jornalismo. Com a criação da Secretaria Extraordinária de Comunicação, aparece Noaldo Dantas à procura de um texto enxuto e claro, e de gente de dedicação exclusiva. Deu para Carlito. E nisso ficou preso, mas aberto, espontâneo e fiel ao seu círculo de amizades e afetos.

Não há possibilidade de imaginar A União como símbolo de aspirações que não me venham à memória iluminada, entre aquelas antigas colunas de sonhos, preservadas pela fotografia de Rafael Mororó, desfilando na cabeça da fila Carlos Augusto com Oswaldo Duda Ferreira, José Barbosa de Souza Lima, Marcilio Coutinho, Manuel Costeira Neto... Fiquemos por aqui.

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  1. É isto, meu professor.
    Temos de relembrar, que foi pelas suas mãos que muitos de nós se iniciaram nas artes gráficas, vendo você diagramar páginas de jornal que não deviam nada aos grandes jornais da época.

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