Só sei que vou te amar I À quantas anda a secura de tua boca? Fulgura ainda em teus lábios a liga do beijo? Entendas que...

Só sei que vou te amar

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Só sei que vou te amar
I À quantas anda a secura de tua boca? Fulgura ainda em teus lábios a liga do beijo? Entendas que é breve o que se diz eterno. E que a intenção revela-se no mesmo segundo que a mão esbofeteia. II Esse teu ar sério de sapatos pretos... Percebes que esse para-raio na manhã de Sol, convida ao pouso? Esse medo indissolúvel de tua face denuncia o temor das grossas nuvens. III Estou aqui, sentado. Sobre minha cabeça chocam-se as nuvens. Sou indiferente; não porto guarda-chuvas, dispenso relógio, sei perfeitamente as dúvidas que pretendo ter. IV Começo a perceber um certo arrepio de santidade através da tua camiseta. Não economizo, dou da mão às duas faces! Remexi a culpa que me compete. Cuspi a língua que me consome. Somente o riso, na ante-véspera de teu gozo ou seu mamilo rijo de agora – esse futuro e presente – horizontalizam meus pensamentos. V Bebi a cachaça das encruzilhadas; Roubei hóstias nas sacristias; o tridente do diabo enfiei no r*bo da mãe de santo e fiz pior: encarei no olho do homem! Deito sujo em tua cama. Assim quero te dar meu desejo. O frescor da pureza? Não encontrarás na minha pele.
Cúmplice
I Não trairia esse dorso por mais que pudesse Deixei que o cheiro perdido em sua nuca retardasse o amanhecer. Enquanto dormias desfiz os gestos de seus arroubos. II Não trairia esse gosto mesmo se quisesse. Já coloquei todos os parênteses em nossa existência. A porta ficou fechada para a monotonia da brisa. O Sol aqui desfiou a esteira sob a areia para incendiarmos nossos pés III Não trairia esse gozo por mais que esquecesse Aprendemos juntos a revirar as gavetas e destronar deuses. A tradição dos dias tropeçou no tapete da entrada de casa. IV Não trairia esse rosto por mais que outra me envolvesse Na casa cada crime vira papel de parede Os filhos aprenderam sobre a mentira de alguns beijos. Não desperdiçamos intenções no café da manhã. V Não trairia esse furor por mais que sofresse Aprendi a usar um olho para revolver o chão. Testamos a saúde celebrando verdades prematuras Não sobra espaço entre as mãos que se apertam Por essas bandas a luz não veste cor de monotonia. Não trairia este momento por mais que vivesse.
Sedutor
O convite espreita o ouvinte ausente. No olfato extinto encontrei razões para justificar tua chegada. Não tardei por sibilar-te: boa noite. Pendurei no vértice de teus seios Um raro broche de flandre, para que o passeio dos gatos interrompam o descanso noturno do teu peito. (e para que te excite os miados do cio) Do halo de sol que me inquietou o dia fiz um perfume. Revirei a angústia de tua língua. Em nome da perfeição, não desmenti, no fim da noite, o que te pareceu verdade.

COMENTÁRIOS
  1. Muito bom, Jorge Elias! "Esse teu ar sério / de sapatos pretos", " a liga do beijo", "um certo arrepio/ de santidade /através da tua camiseta". Muuuito bom.

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  2. Parabéns Jorge Elias, por sua inesgotável verve e pela profícua produção poética.

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