Pouco depois da hora média que marca momento de oração para os cristãos católicos, percorríamos a calçada da Praça 1817, espremidos por ...

Um passeio pela memória

Pouco depois da hora média que marca momento de oração para os cristãos católicos, percorríamos a calçada da Praça 1817, espremidos por transeuntes e carros, seguindo o rastro da memória de caminhantes imputáveis de culpa pelo abandono de casas que do passado carregam a marca do silêncio.

Éramos dois solitários homens do interior, que traziam consigo sinais do tempo e as sombras dos lugares de onde viemos, mas justificados em cada rua desta cidade pelos momentos vividos ou pelos fatos recolhidos nos livros de História. Ambos alimentados pela oração e animados pelos benditos e ladainhas que ouvíamos ao redor do oratório.

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Caminhávamos em passos arrastados, empurrados pelo vento, como se estivéssemos andando pelas veredas de Alagoa Nova ou Serraria, duas beldades do Brejo. Parávamos, observávamos as casas e dávamos mais uns passos adiante, sem pressa, buscando encontrar a cidade de cada um, quando aqui chegamos com o matulão às costas. Gonzaga chegou em 1951 e eu, em junho de 1971, com a mesma saudade e incertezas. Naquele final de manhã, estendíamos o olhar para os frontispícios das residências, outrora habitadas, a fim de restabelecer a vida e o sorriso das janelas que completavam a rua.

Na sombra das raquíticas árvores da praça, levantamos os olhares para o beiral das casas, catando os resquícios do apogeu de outrora, baseado na cana, no café, na agave e no algodão.

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Recordamos que em tempos passados, no alto da platibanda, nas portas e janelas das residências não havia lodo escuro ou plantinhas crescidas nas rachaduras das paredes, mas com o passar do tempo, as casas foram expostas ao desleixo de seus donos. Residências seculares onde moças com largos decotes, sem nenhuma cerimônia, expunham parte do corpanzil quando absorviam a fresca da tarde, sob olhar de transeuntes.

Enquanto meu amigo observava e falava sobre os detalhes da arquitetura dos prédios, a marca do passado da Filipeia de Nossa Senhora das Neves, eu ouvia e continuava calado. Repousei meu espírito de agricultor na paisagem urbana para melhor compreender cada pormenor que Gonzaga Rodrigues acentuava com repetidas gesticulações. Usava palavras e gestos para mostrar todo apego pela cidade.

Encostado na parede, ele percorreu com os olhos o passado guardado nas residências e na extensão da praça, apontava onde antes existiam imponentes monumentos que registravam o apogeu que o açúcar proporcionou. Revelou com os olhos de saudade, os lugares da antiga Igreja das Mercês, onde ficava o antigo prédio do Jornal A União e velhos casarões ao redor. Tudo desfruído!

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Toda a paisagem da cidade vem sendo recordada pelo cronista em seus escritos para sua perpetuação.

Uma destruição dispensável, que na mesquinhez do olhar para o futuro, esqueceram de guardar o passado, que transformaram em pó. Mesmo que ainda existam algumas casas com eira e com beira, é pouco diante da grandiosidade histórica que representavam.

No decorrer de cem anos a cidade perdeu sua paisagem original, o que poderia ser evitado. Avultou a destruição de expressivos elementos que compõem a arquitetura como registro da história de quatrocentos anos, composta de edificações que mereciam continuar existindo. Em muitos casos teve a omissão do poder público ou o desmazelo de herdeiros. Uma barbárie a derrubada de monumentos, o que murchou a paisagem exótica e poética da cidade que enchia os olhos de senhores do mundo, do naipe de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Johan dos Passos, Mário de Andrade, de Burle Marx...

Saulo R. de Andrade
Alguns passos mais adiante, Gonzaga e eu chegamos ao Ponto de Cem Réis, antigo lugar de convergências de ideias, cuja paisagem original é uma imagem na parede, um retrato na memória de uns poucos, mas essa é outra história. Naquele espaço, como na Praça 1817 e noutros recantos que formam o centro desta cidade, no alto das casas enlameadas, arbustos suspensos se agarram às rachaduras nas paredes.

Ainda é agradável percorrer a cidade e fazer um passeio pela memória.

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  1. Como antigo morador da Rua Duque de Caxias, hoje transladado a beira do mar de Tambaú, para e, consequentemente, andarilho compulsório dessas veredas, posso dizer que as saudades são as mesmas.
    Mesmo nas manhãs de domingo resfriadas pela chuva, que nos convidava a dormir mais um pouco, éramos compulsoriamente acordados pelo toque dos muitos sinos das igrejas das cercanias, que não se curvavam a essa modorra pretendida, chamando a todos para o culto divino.

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