Dona Zefinha é uma idosa que vive num sítio há muitos anos. A casa fica às margens de uma estrada; da janela da sala ela vê o movimento de...

Cachorros não comem pessoas?

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Dona Zefinha é uma idosa que vive num sítio há muitos anos. A casa fica às margens de uma estrada; da janela da sala ela vê o movimento de veículos e pessoas, de outra, que fica no quarto de dormir, avista boa parte da pequena propriedade. O mato está verde, o plantio cresce viçoso, mas o barreiro ainda não juntou água.

Meu avô me disse certa vez:

“As secas da atualidade são grandes como as de antigamente, mas não são devastadoras porque hoje se tem assistência, no passado não tinha.”

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Otávio Nogueira
Ele lembrou dos anos de 1940.

“Eram tempos difíceis... a gente morava numa região menos árida, ainda tinha água, comida pros animais... A estrada parecia uma procissão, com retirantes que passavam carregando o que podiam, uns nem esperança tinham mais. Um ou outro parava, pedia água, alguma esmola. Em nossa sala não faltava um saco de farinha, um garajal de rapadura. Aquelas figuras humanas olhavam para o céu, mais a procurar Deus do que a chuva. Deus parecia não estar ali.

— Fica olhando para quê, mulher? – resmungara o marido.

— Vamos rezar e esperar, Deus vai olhar por nós – dissera ela enquanto abanava, das moscas e do calor, um menino de colo.”

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Otávio Nogueira
  Meu avô me contava e seus olhos pareciam hipnotizados, meio que perdidos no tempo. Então ele continuava:

“Eu disse àquelas pessoas: — Esperem a quentura diminuir, e depois vocês seguem caminho. Mas a mulher não parecia ouvir... Foi quando seu marido respondeu: — Deus não está lá em cima, mulher... Ele está pra lá! – Apontava o dedo para a estrada empoeirada. — Vamos simbora, ainda temos dois dias de estrada!“

Agora muitos anos se passaram. 2021 foi um ano terrível para a humanidade, e novamente a chuva não veio. A seca se arrastou, brigou por mais um ano. Venceu.

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Otávio Nogueira
Com a pandemia as portas se fecharam. O jeito foi ficar, olhar para o céu, rezar e torcer para o dia de São José trazer água. Veio o dia de São José, e o homem do campo lembrou da canção de Patativa: “...Mas nada de chuva, tá tudo sem jeito, lhe foge do peito o resto da fé.” E fugiu mesmo, mas não nas preces de dona Zefinha.

A Pandemia perdeu a força, a seca também. Em fevereiro passado começou a chover, mas foram eventos localizados.

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Otávio Nogueira
Dona Zefinha entra, vai à cozinha, mexe o feijão, volta, reza para São José garantir a colheita, encher a cisterna e o barreiro. Que o santo também traga paz para a família, conceda descanso eterno para o marido que morreu de Covid e garantia para a filha que arranjou emprego na prefeitura. Por último, suas orações andam quilômetros, milhares, alcançam o estado de Goías, o filho está pra lá há seis meses. Os olhos umedecem, ela sente muito sua falta, aliviada pelas ligações de whatsapp e pelas palavras de “está tudo bem”.

O mundo de Dona Zefinha é muito pequeno, talvez do tamanho do que vê e das histórias que ouve de quem passa pela sua porta. Não imagina ela que o rapaz vive miseravelmente numa periferia de Rio Verde e que do outro lado do mundo existe um lugar chamado Mariupol, onde crianças estão sendo bombardeadas e cachorros estão comendo pessoas e pessoas estão se alimentando de cachorros. Melhor que não imagine!

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