É nas quartas-feiras, a mais fresca de todas, tanto pelo ar que recebe da compacta reserva florestal da cidade, quanto pela frescura mesma...

A feira de Jaguaribe

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É nas quartas-feiras, a mais fresca de todas, tanto pelo ar que recebe da compacta reserva florestal da cidade, quanto pela frescura mesma das frutas e hortaliças. Pena que os últimos melhoramentos não tenham levado em conta o espacejamento mais respirável e higiênico. Ficou apertado e antiestético.

Sempre chego antes das 7. Pego a quarta de queijo, o abacaxi de talo curto, que é o mais doce, e, se o arrocho permitir, escolho a macaxeira na casca, às vezes ensoada. E nunca volto em cima dos pés.
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Seguindo em frente, demoro o olhar na gulodice da Cagepa a usurpar umidade e o ar do Jaguaribe com a extensa sede mata a dentro; dobro na Cinep, para mim sempre de Marcelo Lopes, Patrício Leal, Ernani e Chico Antônio, e saio até acostar na Praça Aquiles Leal.

A partir daí, se me fosse dada imaginação generosa, em vez de crônica viria uma sonata à Zé Lins do Rego como a de “Pureza”, novela pouquíssimo editada, ao entrar na pracinha do antigo Onze. Trata-se de um pequeno triângulo entre o final da rua 24 de maio e as duas ruelas que vêm da 12 de outubro. É um recanto de antiga cidade do interior só agredido pelo raio do tráfego que vem de duas ou três confluências. Mas a pracinha não dá na vista de quem não tem o que ler no lodo das árvores ou na hera dos muros. Esse lodo e essas heras que pegam e se criam de lembranças conservadas à sua sombra, sob o seu amparo. De ânsias e suspiros que, não se consumando, restaram ali impregnados. A última vez que estacionei lá, o carro era o de Martinho Moreira Franco, que hoje estaria aniversariando na freguesia familiar do Poço, seu melhor lugar neste mundo depois de Jaguaribe. E depois, certamente, do lugar de perene paz a que foi chamado antes do tempo.

Não vem carro, apresso o passo para atravessar a rua e verificar o estado em que se acha o busto de Aquiles, a cuja instalação estive presente.

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Ali, no tempo em que conhecíamos e sabíamos o nome de todos os nossos médicos, quando entrávamos na clínica ou no hospital sabendo de antemão quem ia nos atender, foi erguida uma herma ao grande cirurgião Aquiles Leal. Se a capital se felicitava por dispor de uma boa dúzia deles, Aquiles, de morte prematura, era dos mais admirados. A estátua expressava de fato um forte sentimento da cidade, um justo reconhecimento. Que fizeram dela – perguntei-me, caminhando entre os canteiros e julgando que falava em pensamento. Mas ouço a resposta de uma moça que fazia a sua ginástica.

- A estátua, senhor, não existe mais, ou melhor, existe a coluna, o suporte, e no lugar do busto colocaram Nossa Senhora... Mas continua Praça Aquiles Leal.

- Ah, muito obrigado.

Custa compreender esse desdém pessoense pelo culto da estátua. A de Augusto dos Anjos ralava perdida entre os carros que se atropelavam usurpando o espaço verde do Parque. A do presidente Camilo de Holanda foi arrancada há três ou quatro anos do pedestal. A de Epitácio, roubada há anos, deu trabalho recuperar. A de André Vidal é um dormitório de morador de rua. Só a do general Álvaro Machado, na Praça do Bispo, mantém-se intocável.

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