Fico a imaginar a cena. Um homem modestíssimo, sem prendas nem rendas, em cima de um burro, a transpor em triunfo a Porta Dourada de Jer...

Domingo de Ramos

Fico a imaginar a cena. Um homem modestíssimo, sem prendas nem rendas, em cima de um burro, a transpor em triunfo a Porta Dourada de Jerusalém, uma das mais antigas cidades do mundo.

Um burro, sim, símbolo da paz e do trabalho. Não um cavalo em cujo lombo reis e generais pisavam, e ainda pisam, terras e povos conquistados. Não nesse bicho hoje representado pela força mecânica dos motores em tanques e carros blindados.

Felix Louis Leullier
Eu me esforço na recomposição dos fatos. Um pobretão e seu batalhão de desvalidos – se abstraídos os poderes dos Céus e da Fé não comungados pela maioria – num desfile longo, demorado, à frente do qual uma multidão igualmente pobre forrava o chão com seus mantos e distribuía ramos com o verde da esperança.

Quantos, entre os mais abastados, com seus empreendimentos, suas atividades, seus empregos e seus salários, foram às sacadas e janelas entre curiosos e assustados? Quantos nas hostes de Pôncio Pilatos e em Roma, a Casa Grande daqueles tempos, se alarmaram com tamanho poder de arregimentação de vítimas numerosas da espoliação numa época sem imprensa nem internet?

Marcos, Matheus, Lucas e João contaram como foi aquela festa. O primeiro fala da procura fácil por um burrinho nunca anteriormente montado. Fácil, sim, porquanto o animal tivera a localização prevista e indicada por quem logo mais o montaria.

“Ide à aldeia que está defronte de vós e, logo que ali entrardes, encontrareis preso um jumentinho sobre o qual não montou homem algum. Soltai-o e trazei-mo. E, se alguém vos perguntar porque fazeis isso, dizei-lhe que o Senhor precisa dele. E logo o deixará trazer para aqui”. Foi esta a missão confiada a alguns acompanhantes e por estes cumprida com exatidão.
Felix Louis Leullier
O único reparo a tal relato pode ficar por conta dos sucessivos tradutores, gente caidíssima pelo “vós”, mania que apenas serve para complicar as conjugações.

Não lembro se João falou da busca pelo burrinho, mas Lucas e Matheus falaram, sim. E com o mesmo enredo de Marcos que, tal como Lucas, não chegou a conhecer em carne e osso aquele que assombraria muita gente em Jerusalém à frente do mais incrível desfile de toda a história da cidade. Matheus e João o conheceram, embora eu não seja capaz de garantir que também ali estivessem naquele momento, naquelas ruas. Preciso, entretanto, confessar meus poucos conhecimentos desses assuntos e, de antemão, pedir desculpas por algum tropeço. Como o quarteto dos quais agora tomo os termos, falo por ouvir dizer. Dada a exatidão daquilo que eles expuseram sem discordâncias, cada um a seu modo, não duvido, porém, de que tudo se passou conforme dito, tido e havido.

Como seria aquela convivência? É o que me pergunto, vez ou outra. Acho que aquele era um homem com os ânimos e os gestos dos humanos. Isso, porque me ocorrem passagens como aquela do suprimento de vinhos numa festa de casamento. E como a das chibatadas nos mercadores da fé. Paciência sempre teve limites, não é não?

Felix Louis Leullier
Ah, os vendilhões do Templo e, por extensão, da Pátria... Não tenho a menor dúvida de que todos, sem exceção, têm encontro marcado com o fogo do Inferno.

Mas voltemos àquele desfile. Um dia de júbilo e festa e uma sexta-feira seguinte de paixão e dor assim determinada, não esqueçamos, por outra multidão de incomodados em meio à qual, certamente, muitos pobres de Jó ignorantes eternos das causas da própria desgraça.

Foi a eles que Pilatos conferiu o julgamento que salvou Barrabás. Não quis a responsabilidade. Lavou as mãos a fim de não manchá-las com o sangue do justo. Evidentemente, não conseguiu: a história lhe fez justiça. Postou-se aos olhos da Cristandade como símbolo da covardia e da submissão aos ditames do Império.

Aos degradados de ontem (pescadores, lavradores, escravos e mulheres apedrejadas), como aos de hoje, restaram a esperança e a fé. Pelo menos, isso.

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