Continuamos nesta semana o assunto das edições anotadas, cuja discussão foi iniciada com o texto da semana passada – “Edições anotadas (Pa...

Edições anotadas (Parte II)

euclides da cunha canudos critica literaria edicao anotada
Continuamos nesta semana o assunto das edições anotadas, cuja discussão foi iniciada com o texto da semana passada – “Edições anotadas (Parte I)”. Diferentemente de uma edição crítica, que se destina a levar a público um texto que se aproxime do animus auctoralis, de modo que o estudioso se sinta mais à vontade pela sua fidelidade, as edições anotadas ou comentadas devem ficar atentas não só ao que precisa de esclarecimento, mas também, na medida do possível, deve apontar, no seu comentário, algum lapso que o autor tenha cometido. Fiquemos com uma passagem de “O Homem”, em que Euclides da Cunha confunde equinócio de primavera com o equinócio de outono:

“Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de São José, 19 de março, procura novo augúrio, o último”
— Capítulo III, p. 232 —
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Arraial de Canudos, visto pela Estrada do Rosário ▪ litogravura de Demétrio Urpia ▪ 1897 ▪ Biblioteca Nacional
Euclides se refere à experiência que os sertanejos fazem no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro, em que se expõem ao relento seis pedrinhas de sal, representando os seis meses vindouros, as quais, se permanecerem intactas, pressagiam a seca; se ficarem úmidas, é sinal de bom inverno, que deverá acontecer ou não três meses depois, em março. Sabemos que no hemisfério sul, onde vivemos, o dia 20 de março, seguinte ao dia de São José, a que se refere o escritor, é regularmente o dia do equinócio de outono, podendo ocorrer no dia 21. Para quem vive no hemisfério norte, este dia corresponde ao equinócio de primavera. Houve, claro, uma confusão de Euclides da Cunha e, para desfazê-la, o texto mereceria uma nota.

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O que encontramos na edição anotada preparada por Leopoldo M. Bernucci (Os sertões: Campanha de Canudos; edição, prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci. 2ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Arquivo do Estado, 2001) é exatamente o seguinte:

"equinócio de primavera ponto vernal ou o dia 21 de março, quando se registra, ao cortar o Sol – no seu movimento anual aparente, o equador celeste – uma igual duração do dia e da noite. É o início da primavera"
— nota 239, p. 232 —

Observe-se que a nota é simplesmente técnica e não desfaz a confusão de Euclides da Cunha. Ao contrário, ela a ratifica. É primavera no hemisfério norte; para nós do hemisfério sul é o início do outono. A nota, portanto, não cumpre a sua função de mão dupla saindo do texto, para dar a sua significação, e voltando ao texto, para nos trazer a sua significância.

Fato semelhante ocorre com as duas referências a Canudos como “a Troia de taipa dos jagunços” (“O Homem”, Capítulo II, p. 192, e Capítulo V, p. 290). A primeira referência, que gerou a nota 31, é apenas en passant, já a segunda nos mostra uma conexão com uma localização de Canudos, descrita em “A Terra”. Vejamos o que diz a nota 31:

“Metáfora usada para aludir a Troia, situada na região onde hoje é a Turquia, e que resistiu durante toda uma década contra a tomada dos gregos. Homero, de forma épica, narra na Ilíada os acontecimentos que levaram por fim a cidade a ser invadida pelos guerreiros gregos. A metáfora em Euclides é complexa, pois se por um lado enobrece a resistência de Canudos e a coragem e persistência dos jagunços, ao evocar as famosas façanhas cantadas por Homero, por outro compromete estas mesmas qualidades, através do uso do epíteto de taipa, designando as construções do arraial versus as de pedra dos antigos troianos.”
— p. 192 —

Em primeiro lugar só podemos aceitar a definição de metáfora, no texto citado, se for em um sentido genérico, para designar uma linguagem figurada. Na própria explicação da nota sobre enobrecimento e comprometimento das qualidades, vê-se que a figura utilizada por Euclides é um oxímoro, muito utilizada ao longo do texto de Os sertões, como “Hércules-Quasímodo”, a que já nos referimos no texto anterior, para designar o sertanejo (“O Homem”, Capítulo III, p. 207), ou “tumulto disciplinado”, para caracterizar o arraial fundado por Conselheiro (Capítulo V, p. 305), dentre tantos outros.

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Em segundo lugar, na Ilíada não se vê a invasão de Troia, nem sua destruição pelos Argivos, ainda que exista uma vaga prolepse de que isto acontecerá. A narrativa desse épico de Homero se situa entre a querela de Aquiles e Agamêmnon (Canto I) e os funerais de Heitor (Canto XXIV). Se quisermos saber a respeito da destruição de Troia, deveremos ir para a Odisseia, onde conheceremos que a cidade foi destruída, embora os detalhes não sejam dados. Só no Livro II da Eneida, de Virgílio, é que teremos um minucioso relato da destruição da cidade.

O melhor sentido para o oxímoro “Troia de taipa dos jagunços” encontra-se na segunda referência (“O Homem”, Capítulo V, p. 290), com a retomada da localização de Canudos. Em “A Terra”, Euclides da Cunha nos
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dá uma situação detalhada de Canudos, com uma visão de cima, a partir do morro da Favela, em que “o arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado”, tendo “em roda, uma elipse majestosa de montanhas...” (Capítulo II, p. 98), de modo que “presa numa dessas voltas via-se uma depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres...” (p. 99).

A elipse de montanhas que circundava Canudos se compunha, na visão de Euclides da Cunha, da Caipã (norte), Canabrava (nordeste), Poço de Cima (mais ao nordeste), Cocorobó (leste), Calumbi (sul), Cambaio (oeste, p. 99). Esta disposição é retomada no Capítulo V de “O Homem”: Canudos é “tapera colossal”, “urbs monstruosa”, “furna escuríssima” (p. 291-292), “arx monstruosa” (p. 306), de modo a acentuar oxímoro “Troia de taipa dos jagunços”, erigida em lugar “cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito” (p. 290).

Observe-se como Euclides da Cunha estabelece o contraste. Urbs é a cidade, arx é a cidadela, ambas palavras latinas. É a arx que protege a urbs, por se encontrar sempre em local elevado. Troia é protegida pelas muralhas de sua elevada cidadela, Canudos era protegida pelo cinturão de montanhas, “tapera dentro de uma furna” (p. 297), cujos habitantes, em lugar dos heróis homéricos formam “polipeiro humano” (p. 298).

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A retomada da descrição de Canudos, cingida por “uma elipse de eixos dilatados” e isolada “do resto do mundo por um cinturão de serras” (p. 295) consolida, portanto, o oxímoro entre o arraial de Conselheiro e a gloriosa cidade de Homero. Por outro lado, a nota da página 192 deveria remeter o leitor para a página 290, onde se desvenda melhor o sentido da expressão “Troia de taipa dos jagunços”, em que se vê que há mais uma degradação do termo usado do que um enaltecimento.

Enfim, como já afirmei em outro ensaio, aqui publicado – Os sertões, a guerra e as guerras” –, a referência a Troia é também proléptica, por apontar para a destruição do arraial de Canudos. O que podemos constatar disso tudo é que Euclides da Cunha não faz referências gratuitas, mas sempre com conhecimento de causa. A sua erudição é inconteste e quando ela a traz para dentro de sua obra, o desafio ao leitor está lançado.

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