Capítulo I Meus pais, a Rússia e dias felizes de deslumbramento Retorno sempre às minhas lembranças, como filho pródigo do afeto e d...

Recordações

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Capítulo I
Meus pais, a Rússia e dias felizes de deslumbramento

Retorno sempre às minhas lembranças, como filho pródigo do afeto e da felicidade vivida na infância. Transpira em mim sempre o prazer de revolver emoções por vezes pesarosas que latejam num distante passado. Diante de mim tenho a cumplicidade de uma xicara de café ladeada por um cigarro que arde solitário e sonolento, e ambos acalentam os meus nervos, que resistem à solidão, impregnados de fumo e de cafeína. Solitária, uma página em branco se exibe provocativamente, expondo-me a sua virgindade.

Recuando décadas, amparo-me no cenário de uma viagem que meus pais fizeram à então União Soviética no pós-guerra, em Julho de 1957, quarenta anos depois da Grande Revolução Russa de 1917,
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junto a centenas de parlamentares brasileiros, convivas do Kremlin, que foram a Moscou participar do 6º Festival Internacional da Juventude. Era o degelo da Guerra Fria. Ao saber da viagem, da qual fora intimada por meu pai, minha mãe, apreensiva, disse-lhe: "— Lá para o meio dos comunistas?! Virgem Mãe! Não é perigoso?" — Não teve alternativa. Ficou dividida entre o medo e as orações.

Um argumento fora decisivo para ambos saírem pelo mundo numa viagem longa e penosa. Pouco tempo antes, meu pai havia sido diagnosticado com um câncer inicial da próstata, por Dr. Alberto Gentille, médico do Hospital dos Servidores do Rio. Gentille era considerado uma “sumidade” na oncologia brasileira. Meu pai pediu-lhe a opinião sobre a viagem à Rússia. O médico concordou e o estimulou, porque eram mundialmente reconhecidos os avanços clínicos e os protocolos cirúrgicos de tratamentos da avançada medicina soviética.

Não hesitaram e atravessaram o Atlântico num avião da Panair do Brasil, em 14 de Julho de 1957. Viajaram até Roma e depois seguiram para Paris, onde, na Gare de L'Est, foram acomodados no trem para Moscou. Adentraram a “Cortina de Ferro” pela Tchecoslováquia. Passaram por Praga, Varsóvia, Kiev, Vilna, Riga e Leningrado, até chegarem a Moscou. Minha mãe adorou o Museu l'Hermitage. Sempre mostrou-se entusiasmada quando descrevia a sua preciosa visita. Era um lindo verão.

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Acervo FB
Em todas as etapas da longa viagem, os parlamentares brasileiros eram recebidos alegremente por entusiastas “comunistas locais”, que acorreiam ao trem e lhes ofereciam enormes buquês de flores. A cordialidade, segundo a minha mãe, era uma honrosa manifestação de paz e amizade aos brasileiros por aquelas pessoas que sofreram os horrores nazistas e que depois foram acudidos pelos russos. Essa demonstração de fraternidade dos povos eslavos a todos encantou. Eles não viram "criancinhas sendo devoradas por comunistas", ao conrário do que pejorativamente pregavam no Brasil.

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Chegando a Moscou, os brasileiros foram efusivamente recepcionados pelos acordes do hino brasileiro e saudados por uma bela exibição das danças folclóricas cossacas. Homens e mulheres bailavam com polcas ritmadas pela linda sonoridade das balailakas. Foram instalados em belos e refinados aposentos do enorme Hotel Ukraína. Durante os dias seguintes, deslizaram por museus, parques e monumentos. Passeraram de barcos no rio Volga. Assistiram à Sinfônica e ao Lago dos Cisnes no Ballet Bolshoi. Encantaram-se com a Praça Vermelha e com a visita ao Kremlin. De quebra, foram aos mausoléus do grande líder Lenine e do menos reverenciado Stalin. Enfrentaram filas quilométricas para ver os ilustres esquifes com os corpos embalsamados.

Moscou acolheu 131 Delegações da Juventude Mundial. No Estádio Nacional Lenine, foram realizados dias de festas com monumentais desfiles cívicos e folclóricos. Uma multidão incalculável era adornada pelos pavilhões nacionais. Os acenos eram sempre de Paz e Amizade entre os Povos, sendo este o tema do Festival. O hino da Internacional soviética era o pano de fundo.

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Durante 2 semanas, Moscou tornou-se a capital mundial da alegria da fraternidade entre os povos. Dias e noites, multidões concentravam-se festivamente na Praça Vermelha, chegando a aglomerar centenas de milhares de visitantes e russos sob o som da música oficial Noites de Moscou, que imperou nas monumentais festas de rua.

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Os russos exibiram muitos progressos tecnológicos às delegações, especialmente aqueles idealizados pelo Gosplan, que, durante décadas, priorizou as grandes e regionalizadas indústrias de base. Conduziram os visitantes a inúmeras fábricas de automóveis, de aviões, de equipamentos agrícolas e também mostraram as kholkoses comunardas. Aos curiosos, foram liberadas entrevistas e conversas com trabalhadores russos, traduzidas pelos intérpretes locais. Aos meus pais e aos demais brasileiros, ficou marcada uma enorme impressão das conquistas soviéticas. Foram notificados dos avanços da tecnologia no espaço, na qual o Sputnik fôra gestado. Sabiam das armas nucleares atômicas.

Chamou atenção a dominante presença do quantitativo de mulheres que superavam em muito os contingentes do sexo oposto. Não demorou a entenderem o porquê da rarefação de homens. Informaram-lhes que a população masculina russa fora dizimada no combate aos nazifascistas, e que os mortos atingiam mais de duas dezenas de milhões de russos militares e civis.

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URSS ▪ 1950s ▪EnglishRussia
Meu pai voltou eufórico com o que vira e, chegando à Paraiba, passou a proferir discursos e palestras com o intuito de desmistificar a brutal propaganda antissoviética. Não teve êxito em suas explanações. O anticomunismo local era virulento. Lembro-me que, aos nove anos o acompanhei, a convite da imprensa, numa palestra na API. Foi muito aplaudido e bem recebido. Gonzaga Rodrigues há muito tempo me falara da coragem de meu pai ao semear politicamente verdades sobre a intrépida Rússia. A API foi o único local público que o recebeu bem.

Em varias ocasiões, meu pai exibia uma foto que fora publicada num jornal cotidiano russo, na qual a cena era ele dançando animadamente um xaxado nordestino ao som de acordes dedilhados num piano por D. Yeda Lucena, esposa de seu amigo Augusto Lucena. Cercados de entusiasmo, foram aplaudidos por alguns “comunistas”. Era a avant première nordestina em Moscou.

O jornal russo, possivelmente o Pravda, publicou fotos da alegria brasileira. Tempos depois, uma edição do Jornal do Commércio de Pernambuco também destacou, em primeira página, o episódio do xaxado na Rússia. Os nordestinos, com a especial alma poética de Luiz Gonzaga, derreteram o gelo antissoviético. Nominando Diniz, José Fernandes de Lima, Luis Ribeiro Coutinho, entre outros, eram parlamentares paraibanos presentes à viagem.

A linda Pomba de Paz de Picasso foi um dos símbolos adotados pelo 6º Festival pela Paz e Fraternidade.
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Capítulo II
De Moscou ao raivoso anticomunismo na Paraíba

Ao retornar à Paraíba, muito feliz, são e salvo, meu pai passou a ser alvo de ataques anticomunistas. Passaram a agredi-lo na Assembleia Legislativa. Não pouparam críticas na imprensa paraibana por suas “comunistas intervenções”. Na Assembleia, composta de virulentos latifundiários, interpelavam-no sobre os crimes da Revolução Russa. E ele, pacientemente, remetia-se à sua visão das conquistas soviéticas, muito longe de 1917.

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Francisco de Paula Barreto Sobrinho
Nunca fora comunista. O seu entusiasmo era apenas lastreado em observações de fatos extraídos de uma contemporânea visão da realidade soviética do pós-guerra. Em toda a sua simplicidade, meu pai nunca adentrou nos pressupostos do movimento comunista. Com toda a certeza, a sua limitada percepção ideológica nunca foi além do seu bom e honesto senso de observador fiel do que pudera ver.

Lembro que ele sempre foi apoiado e defendido pelo nobre e emérito professor João Santa Cruz, comunista histórico, mestre da Faculdade de Direito, muito estimado e raivosamente perseguido pela Ditadura. Dele ouvi afetuosos relatos sobre o meu pai.

A contaminação e a radical heresia da propaganda anticomunista foram violentas contra meu pai e passaram a atingir também minha mãe. Logo ela, que era extremamente católica, foi insultada e expulsa da Igreja de Santo Antônio, em Tambaú. Tudo ocorreu em missa, numa manhã de domingo, pelo Padre Hildon Bandeira. Eu estava ao seu lado. O desarvorado e agressivo clérigo, de dedo em riste, apontando para ela, minha pobre mãe, disse-lhe, furioso, que na igreja católica dele não havia lugar para comunistas, e que se retirasse para não macular o oficio religioso.

Além de virulento anticomunista, comportou-se como um anticristo sem fé e sem piedade. Foi um ataque ideológico agressivo e desumano.

Vi minha mãe sair, derramando lágrimas. Aflito, como qualquer criança, não havia entendido nada. Ela, humilhada e comovida, retirou-se envolvida em seu véu branco. Levava na mão os seus ultrajados missal e terço. Logo ela, uma fervorosa católica, que ainda em Moscou, com outras senhoras, exigiram orar e assistir a uma missa na capela do Consulado da França. Tinha fotos de sua presença e assegurava que o oficio não havia sido conduzido por um clérigo ortodoxo.

Meu pai, indignado, foi a D. Manoel Pereira, digno arcebispo auxiliar da Paraíba, que o acolheu e prontamente lavrou uma dura repreensão ao agressivo e desumano ato perpetrado contra a minha mãe.

Durante toda a minha infância, ficou impregnada a minha admiração sobre a Rússia Soviética legada pelos meus pais, completamente divorciados dos cânones marxistas leninistas.

Os volumosos relatos e fotos aportados pelos meus pais concederam-me o privilégio de saber, ainda criança e jovem, que o mundo não se limitava ao poderio ianque. Pude saber que a então sofrida sociedade soviética havia dado importantes contribuições tecnológicas, sociais, musicais, literárias e culturais. Se o Socialismo foi apenas adjetivado é também verdade que, na trajetória histórica, este nunca chegou a ser o sujeito e objeto de um socialismo real leninista. O furor estalinista atropelou brutalmente o socialismo humanista.

Nos dias em que permaneceram em Moscou, todos os brasileiros foram tratados com nobreza, em especial meu pai. Graças ao Dr. Buda, médico maranhense e comunista histórico, conduziu-o a consultas aos especialistas russos no Hospital Geral de Moscou. Ficou interno por um ou dois dias, realizou exames e as primeiras profilaxias na próstata.

Dr. Buda e os médicos do Hospital foram formidáveis, segundo soube. Passaram ao meu pai a confiança e a tranquilidade de um possível tratamento, tudo às expensas do “comunismo russo”. Foi uma decisão difícil. Ele teria que permanecer lá e ficaria longe da minha mãe. Ele, sem domínio de qualquer idioma. Ela, sem experiência de vida. O camarada maranhense se dispôs a colocar à disposição a filha adulta como intérprete. Não o convenceu.

Poderia ter tido um tratamento de radioterapia e quimioterapia de última geração. Toda a profilaxia duraria provavelmente dois ou três meses. Hesitou, contrito e profundamente agradecido, e, em seguida, pegou o comboio brasileiro de volta. Teria sido, talvez, a grande oportunidade em vida de se curar do câncer naquele hospital, um dos avançados centros de tratamento do mundo.

A afetividade cumplice da saudade foi determinante na sua decisão, com todos os riscos de retornar e morrer no Brasil, mais especificamente na Paraíba. Foram apenas as incontáveis doses de morfina que lhe acudiram numa dolorosa caminhada até o final. Ele, assim como Ivan Ilitch — personagem dolorosamente descrito por Tolstoi em seus escritos, que implorava ter um final rápido encerrando anos de sofrimento — dirigia piedosamente as suas súplicas à Virgem da Conceição, as quais foram finalmente atendidas.

A decisão dele foi motivada pelo enorme desejo de regressar ao Brasil e rever os dois filhos, minha irmã e eu, o que lhe infligia um enorme sofrimento. Não teve dúvida quanto ao regresso.

Até morrerem, meus pais nunca silenciaram as suas reverências e os seus sentimentos de elogios à generosidade russa. Da língua russa, só guardaram dois vocábulos: Tovarich, camarada — expressava meu pai — e Spassibo, obrigado — segundo minha mãe. A Rússia dos sovietes e comunistas foi sempre reconhecida por sua benevolência e espirito fraterno vividos por meus pais. Dois anos depois, aos 51 anos, em 1959, ele foi embora com muito sofrimento até o ultimo segundo final.

Tovarich e spassibo são nobres e afetuosas palavras que retenho desde a minha infância. Outras palavras que, com um certo encantamento, minha mãe pronunciava eram Mir (Paz) e Druszba (Amizade). Ela nos repetia a exaustão. Guardei-as. Sou sempre agraciado pela memória.

Reverencio até hoje a Rússia idílica de então, pela alegria e pelo olhar deles quando exortavam os sentimentos de Paz e Amizade (Mir/Druzba). Em 1957, com o Festival da Juventude, o país abriu-se para o mundo e, numa escala gigantesca, sem repressões, plantou as sementes para os Woodstocks que se seguiram.


PS ▪ A Rússia que os olhos de meus pais viram não mais existe. Restou a Rússia genocida de hoje. Uma vez em Praga, 1973, pude ler nos seus muros pixados, após a asfixia da Primavera estudantil: Ruski Damoi = russos, vão embora!

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  1. José Mário Espínola31/5/22 21:53

    O primeiro parágrafo, muito poético, nos prepara para a excelência do texto de memórias.
    Muito bem, Barreto, muito bom!

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  2. PS: Você disse Padre Hildon Bandeira?!? Padre Hildon, com o manquitolar folclórico que lhe era peculiar, não tinha, digamos, moral para cobrar atitudes de quem quer que fosse.

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  3. Eduardo Bonates1/6/22 15:01

    Meu amigo Barreto, tenho lido seus textos e apreciado as suas lembranças . Assim sendo, penso ser apropriado colecionar os textos e publicar para posteridade. É preciso que as novas gerações tenham conhecimento dos homens que ajudaram a construir a nossa brava e pequenina Paraíba.

    Ademais, informo-lhe que já está nas mãos do historiador e editor Evandro Nóbrega, um livro escrito por mim sobre a vida e obra do meu avô Plinio. O livro faz um resgate histórico da política paraibana durante 50 anos, tendo início na Revolta de Princesa até 1978, passando pela Revolução de 30, governo Vargas, constituinte 46, Prefeitura de Campina Grande, criação da SUDENE até a ditadura militar. Quando do lançamento quero desde já contar com sua presença.
    Abs
    Eduardo Bonates, PhD

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    Respostas
    1. Anônimo3/6/22 06:32

      Meu caro Bonates. Dr. Plínio sempre foi uma reserva moral e digna dos homens de bem da PB. Amigo fraterno do meu pai, deste sempre recolhi afeto e admiração. Quantos paraibanos hoje conhecem este honrado combatente da dignidade pública da Paraíba ? Lamento muito e obrigado pela sua distinção.

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  4. Anônimo9/6/22 14:32

    Textos primorosos em conteúdo e forma.

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