O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788–1860) introduziu o pensamento indiano e conceitos budistas na metafísica alemã. Sua filo...

Força vital do fazer o bem

filosofia natureza budismo schopenhauer
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788–1860) introduziu o pensamento indiano e conceitos budistas na metafísica alemã. Sua filosofia apresenta o conceito de “Vontade”, que representa a força da existência e a causa de todo sofrimento humano. Esse trabalho está na sua dissertação Sobre a Quadrúplice Raiz do Princípio de Razão Suficiente, publicada em 1813. Ele acreditava no amor como meta na existência, entretanto, não o relacionava com a felicidade. Esse argumento apresenta — o amor — de modo a se tornar um desejo irracional para a reprodução da espécie, a fim de manter a continuidade à vida e ao sofrimento.

Em relação à felicidade, Schopenhauer afirmava que o seu prazer é uma sensação de ânsia que o amor apresenta. De forma a gerar um interrompimento temporário de um ‘impulso sexual’, que é uma fuga de uma dor imposta pelo desejo. Diante disso, somente o sofrimento é positivo, pois se faz sentir com banalidade,
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e a felicidade é um sentimento negativo por ser uma interrupção momentânea de um tédio. Ele considerava o ‘impulso de reprodução’ um determinante para a existência, por isso que muitos amantes perdem a vida por obedecer a essa excitação. Essa tese está no seu trabalho Sobre a Vontade da Natureza (1836).

Arthur Schopenhauer incorporou à vida humana um conceito de Vontade para definir uma ‘força vital’ que está em todos os seres, a qual necessita de sobreviver através do ‘desejo sexual’ para se reproduzir e multiplicar, e devido ao desejo de sempre querer mais, a Vontade conduz ao sofrimento humano, pois a necessidade para sobrevivência nunca está satisfeita com um único desejo. E que a Vontade é a ‘essência’ do ser humano, em razão do fato do humano ser não mais que um tipo de ser, em meio a vários outros tipos de seres encontrados na Natureza. Nesse contexto, Schopenhauer faz uso de uma razão analógica, e estende essa substância primordial — a Vontade — a todos os demais seres, concebendo-a como essência não só humana, mas do mundo e de toda espécie. Também procura uma forma de libertação dessa Vontade, a partir de escritos budistas e na filosofia oriental, que diz que a única forma de se libertar do próprio impulso é a total renúncia de todos os desejos, a qual resulta no Nirvana. Ele identifica esse mecanismo no cristianismo primitivo, que apresenta a busca da solidariedade entre todos.

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Nadine Marfurt
Em seu livro O Mundo como Vontade e Representação (1819), Arthur Schopenhauer afirma que o mundo é a síntese entre o subjetivo e o objetivo, entre a realidade exterior e a consciência humana. Nesse livro, ele diz: “Por mais maciço e imenso que seja este mundo, sua existência depende, em qualquer momento, apenas de um fio único e delgadíssimo: a consciência em que aparece”. Em outro texto conceitua:

“O mundo como representação, isto é, unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto, suas formas são o espaço e o tempo, donde há pluralidade. Noutra metade é o sujeito, não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação, tão perfeitamente quanto todos os milhões de seres semelhantes que existem, mas, também, se esse ser desaparece, o mundo como representação não mais existe”.
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Ludwig Sigismund Ruhl ▪ 1815
Nesse livro, O Mundo Como Vontade e Representação, a experiência interna do indivíduo revela-o que é um ser que se move a si mesmo, é um ser ativo cujo comportamento expressa sua vontade. Essa consciência interior e irracional que cada um possui de si como vontade é primitiva e indivisível, isto é, a Vontade revelar-se-ia imediatamente a todas as pessoas como o “em-si”, e a percepção que as pessoas têm de si mesmas como vontades é distinta da percepção que as mesmas têm como corpo através de uma compreensão externa mediada pelo princípio de razão. E que o corpo humano é apenas objetivação da Vontade, tal como aparece sob as condições da percepção externa.

Isso pode ser entendido desta forma: o que se quer e o que se faz são uma e a mesma coisa, vistos, porém, de perspectivas diferentes. Para Schopenhauer, da mesma forma como nos seres humanos, a Vontade seria o princípio fundamental da Natureza. Por exemplo: no puro comportamento instintivo de um animal,
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Goh Win Nie
afirmam-se tendências, em cuja objetivação se constituem os corpos. Essas diversas tendências não passariam de disfarces sob os quais se oculta uma vontade única, superior, de caráter metafísico, isto é, do que há de íntimo no mundo experienciável, que está presente igualmente em todas espécies e animais, que nasce e cresce, e nas complexas ações humanas. Essa Vontade é independente da representação e, portanto, não se submete às leis da razão. Essa tese fundamenta que o real é em si mesmo irracional, enquanto Vontade. As formas racionais da consciência são ilusórias aparências, e a essência de todas as coisas são imprópria à razão, porque a consciência é a superfície da mente, da qual não conhece o seu interior, mas apenas a sua crosta. Schopenhauer afirmava: “O mundo é minha representação, e o ser humano é fragmentado e passional, que age influenciado por forças que fogem de seu controle”. E a vida não é outra coisa senão um combate perpétuo pela própria existência, que ao final — o ser humano — será derrotada.

Arthur Schopenhauer afirmava que o mundo em que se vive é uma ilusão e deve-se repudiá-lo. Encontrava na arte a possibilidade de transcendência, em especial na música, que retira o ser humano do tempo, do espaço e do corpo, resgatando-o, por uns instantes, das angústias da própria existência. E que a salvação para o ser humano está no fazer o bem, porque deve-se ser bom com todos. A sua ética está na contemplação da verdade, e não nos mandamentos religiosos.

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