... ou crônica da certeza Chamava-se Isaltina, ou Tina, ou Isa. Com o passar dos anos, foi reduzindo tudo, até o próprio nome.

Daqui a cem anos

reflexao solidao montanhas futuro
... ou crônica da certeza

Chamava-se Isaltina, ou Tina, ou Isa. Com o passar dos anos, foi reduzindo tudo, até o próprio nome.

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Possuía uma alma intensa, um coração aventureiro e um otimismo que a fazia diferente ou, na visão de algumas pessoas, inconsequente.

A fatalidade a ensinou que, numa projeção sobre o futuro, daqui a cem anos não veria a mesma praia que amava, nem ouviria a música que preenchia suas manhãs de domingo. Muito menos teria ao seu lado as pessoas que hoje aqueciam seu coração.

Daqui a cem anos, os abraços que deu, as bocas que beijou ou o intenso amor que viveu teriam se dissolvido em pó ou vento. Tudo teria sumido com ela.

Talvez ainda permanecesse existindo num álbum de fotos da família, que alguém mais cuidadoso guardara — e a apontariam dizendo: “Era uma tia meio estranha, imprudente.”

Essa consciência, no entanto, não lhe doía. Pelo contrário, era como um convite para ser mais autêntica em sua vida. Entendia que a única e inevitável certeza que existia após nascer era a partida.
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E repetia sempre uma frase lida em algum livro: “Pior do que morrer é não viver por medo de dar errado.” Norteava sua ousadia por essa frase.

E, dessa maneira, levava a vida, reinventando-se em cada fase.

Arriscou-se em aventuras.

Caminhou duzentos quilômetros por altas montanhas, não somente pela paisagem, mas pela urgência de aprender com a exaustão do próprio corpo. Subiu e desceu inúmeros morros íngremes, que exigiam não apenas fôlego, mas determinação e coragem.

Nos primeiros dias, o corpo reclamou. As pernas doíam, os pés criaram bolhas, e os ombros ardiam sob o peso da mochila. Mas, a cada amanhecer, havia uma força secreta que a empurrava adiante.

Enquanto caminhava, pensava no tempo. Daqui a cem anos, sabia que aquela trilha não teria mais suas pegadas, nem ouviria o precioso som que as árvores faziam com o vento, ou veria a festa das aves ao entardecer, quando buscavam seus ninhos.

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Mas, naquele instante, tudo estava intensamente vivo: o cheiro da terra molhada, o suor escorrendo pelo corpo, o coração batendo forte e os abraços que a embalavam ao final dos dias.

A cada quilômetro, entendia que viver era isso: risco, entrega, presença. Não precisava explicar o significado de ter completado aquela jornada. Não era sobre duzentos quilômetros; era para mostrar a si mesma que a vida precisava ser experimentada até o limite, sem reservas, sem medo.

Não existia garantia do amanhã, mas existia o instante que pulsava, queimava e solicitava coragem. E ela teve uma certeza: viveu e foi intensamente feliz.

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E assim, Isa se reinventou em cada fase. Arriscou-se a viver em outras cidades, mudou de endereço diversas vezes, aceitou convites que não faziam sentido para os outros, mas que, para ela, eram total possibilidade. Era intensa, aventureira, vulnerável, mas jamais foi covarde diante da vida.

Chorava quando precisava, ria até a barriga doer, ficava com o coração quebrantado com as dores que via pelo mundo e não se intimidava em demonstrar e falar de seus sentimentos.

Agora, quando faz uma retrospectiva do que viveu, não encontra feitos heroicos, nem somas de dinheiro guardado, mas uma vida rica de alegria, de familiares amorosos, amigos afetuosos e um intenso sentido de existir com verdade e, quase sempre, feliz. Resume sua vida em uma frase: “Vivi o risco, a entrega, o riso e o medo. Vivi porque tive coragem. E isto, ninguém pode me tirar.”

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