Cada vez que olho para uma distância não inaugurada, vejo o quanto de mim ainda precisa chegar. Tenho sede de fazer passado. Mas, não ...

Distâncias não inauguradas

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Cada vez que olho para uma distância não inaugurada, vejo o quanto de mim ainda precisa chegar. Tenho sede de fazer passado. Mas, não me esqueço do presente. É só existindo no que acredito que me componho. Não sei quanta pulsão há em mim, porém disponho meu sangue. Jamais poderia dizer as palavras que digo se um dia elas não tivessem me faltado...

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Arte: A. Streeton, S.XIX
Não quero plateias, embora precise de vozes individuais para constituir meus sonhos, para fazerem o coro da obra de arte considerada a pedra filosofal desta trajetória. Em coro, sem couraça. Precisarei equilibrar o momento e as pessoas que nele estiverem envolvidas. A vida é pouca para o tanto de impulsão recebida. Vontade sincrônica de partir e ficar.

Será que todo excesso de mim é sobra? Nem tudo ao alcance da minha mão é meu. As impressões digitais revelam marcas de um mundo real. Quanto já passou em minhas mãos e não peguei por estar de coração fechado. Não me culpo. Talvez não houvesse espaço por ter sido algo pequeno. Foi só então no agora que entendi o ontem. Meu desejo não era presente, mas futuro. Cansa ser imediatista. Meus ombros suportam o mundo. E o meu coração o que suporta?

Vez em quando a imprevisibilidade precisa nos guiar. A vida só tem valor no que dela ainda não se manifestou. Do contrário, já estaremos cessados. E é preciso estarmos dispostos
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Arte: A. Streeton, 1918
a toda experiência sem nos preocuparmos com a durabilidade. É fundamental a busca pela paciência diante de tanta coisa que nenhuma súplica pode conquistar. Tolerar coisas, abraçar causas e causar pessoas. Precisamos beirar o limite, menos que isso não é viver. É dever de todos nós carregarmos o tanto que somos capazes, não falo de sobrecarregar, mas, sobretudo, carregar. Carregados, estaremos prontos para as lutas diárias. São condições para um crescimento consciente e sereno.

A medida da vida está para o seu intervalo. Entre o som e o silêncio. Entre um batimento e uma respiração. Entre o nascer e o pôr do sol. Entre aquilo que somos e gostaríamos de ser. No novo está o velho. No velho está o novo. Mesclar a novidade com o já conhecido faz parte dessa busca essencial de acertarmos os termos.

Tomar o tempo como aliado só é possível a partir da construção da vida como um artesão. Tudo entrelaçado. Um mosaico formado – onde nenhuma peça está deslocada. Tempo uno. Passado, presente e futuro em um único turno.

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Arte: A. Streeton, 1889
Clarice sabia que “amar os outros é a única salvação individual [...], que ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”. Aos sete anos eu já entendia que a palavra não se resume a um signo, que seu significado ultrapassa o entendimento – me espantei, assim, intui o que é a poesia: um não saber, mas um sentir. Na veia veio a poesia. Venho de uma chegada e procuro uma partida. Que seja uma partida inteiramente plural.

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  1. O poeta reflete. E compartilha seus pensamentos. Nós, leitores, refletimos sobre suas palavras refletidas e nesse processo em algum ponto nos encontramos na mesma encruzilhada, no meio da floresta densa. Parabéns, Leo. Francisco Gil Messias.

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