Tem gente achando que salvará o planeta plantando alface na varanda gourmet do apartamento de luxo. E também consumindo alimentos orgânicos e outros produtos considerados corretos do ponto de vista da sustentabilidade ambiental. Coitados, estão enganados, é o que afirma o antropólogo Michel Alcoforado em artigo publicado em 6.12.2019. Enganados porque os demais hábitos dessa tribo superam – e muito -, em termos de danos ao meio ambiente, os benefícios alcançados pela alface de estufa. Exemplo: as inúmeras viagens de avião que fazem anualmente. E então o estudioso apresenta os dados estatísticos que embasam sua afirmação, dando-lhe credibilidade. É algo para se pensar.
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De fato, com frequência, a parca alface da varanda gourmet serve apenas para tranquilizar a consciência do feliz proprietário, fazendo-o acreditar que é alguém do bem, um cidadão exemplar que está fazendo a sua parte na luta pela salvação do planeta. Assim como os frequentadores de jantares “inteligentinhos” sentem-se moralmente bem ao discutir a fome das periferias do mundo degustando camarões e chablis.
Sabemos todos que a dificuldade dos discursos é percorrer a distância até a prática. Como se diz, falar é fácil, difícil é fazer. E é mesmo. E é isso que nos faz, na maioria dos casos, descrentes das “boas intenções” de muita gente. A hipocrisia alheia explica nosso ceticismo. E não esqueçamos que também somos, todos nós, hipócritas em alguma medida, para que ninguém pense que queremos ser santos.
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Também não se vê o governo, em todos os níveis, atuar na educação ambiental da sociedade, através das escolas e da publicidade. Pelo contrário, percebe-se uma certa omissão nesse sentido, como se inexistisse verdadeira preocupação com o assunto. Em questões desse tipo, sabe-se, ou o governo toma a frente, inclusive impondo multas e sanções penais, ou a coisa não anda. A população, nestes tristes trópicos, não costuma ter “espírito público”. E muito menos as elites, diga-se de passagem.
Falar nestas últimas, as elites brasileiras, o mesmo Alcoforado comparou-as com as elites americanas, no que se refere à disposição para fazer doações à sociedade. Eis a sua conclusão:
“Enquanto os bilionários norte-americanos acreditam que trabalharam duro e tiveram sucesso também ‘por causa da sociedade’, lhes parece normal que tenham de retribuir através das doações. Os ricos brasileiros pensam diferente. Eles falam com rancor do sucesso obtido ‘apesar da sociedade’ onde cresceram, não se sentem em dívida com ninguém e, consequentemente, não doam”.
É exatamente isso, não é mesmo? Mas também fico pensando se o Estado brasileiro, que toma tanto da sociedade, através de altos impostos, e lhe retorna proporcionalmente tão pouco, não contribui para essa “cultura do egoísmo”, criando um círculo vicioso, no qual quem não recebe também não dá nada em troca.
São bem chatinhos os ecofundamentalistas, assim como os fundamentalistas em geral. Por isso, dentro do possível, dispenso os jantares “inteligentinhos”. Principalmente se do respectivo cardápio constar alfaces cultivadas em varanda gourmet de apartamentos de luxo. Neste caso específico, sou mais a autenticidade simples de um legítimo sarapatel com limão e pimenta.









