Ah, quem ainda goza do vigor dos seus melhores anos nem seria capaz de imaginar que penúria é enfrentar o atrevimento de um calendário que tenho pendurado em uma parede de meu gabinete. Este vai substituindo as folhinhas dos meses com uma velocidade que me angustia. Daí meu padecimento em pensar que os anos que tenho pela frente já não são tantos e que bom seria se o tempo fosse mais vagaroso, que este tivesse a preguiça que ando tendo de uns tempos para cá.
Luiz Augusto Paiva da Mata ▪️ Acervo do autor
Não trocaria esta suposta sabedoria que acumulei ao longo de sete décadas pela impetuosidade quase irresponsável de minha juventude. Era o que de melhor havia em mim. Agora, fazer o quê? Vou tentando inventar um pouco de alegria nesse estágio de minha passagem pelo planeta. Por isso é que hoje quero trazer aqui algo de tragicômico que me ocorreu quando já estava prestes a largar o giz. Para quem não sabe, durante um pouquinho mais de 50 anos lecionei.
Vamos ao ocorrido.
Já deixando o tablado, minhas aulas ocorriam, se não me falha a memória, não mais que dois dias da semana, e isso num só período. Para quem já tivera carga horária de 60 aulas semanais, essa jornada reduzida era um paraíso. Ainda mais para quem estava pendurando as chuteiras ou, se preferirem, largando o giz.
Acrescento que a atividade me foi prazerosa; sempre me fascinou a arte de ensinar. Não posso negar que bate, vez ou outra, aquela saudade matreira. O magistério trouxe raros dissabores
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Fernando C. A. V. era, na ocasião — segunda década deste século —, professor e proprietário de um renomado curso pré-vestibular (na verdade, pré-Enem), que mais à frente se tornaria um conceituado educandário na capital paraibana. Tendo esse meu amigo que fazer uma viagem de negócios, solicitou que o substituísse em seis aulas que ocorreriam numa manhã de quarta-feira. Convite feito, convite aceito.
Numa das salas, a presença de minha filha caçula. E o primeiro dos dois fatos que pretendo relatar ocorreu onde se encontrava minha raspa de tacho.
Alunos receptivos, simpáticos, eu lá com minha álgebra depois de me apresentar. Lá pelo meio da aula, a moçada bem à vontade, quando uma garota sentada bem ao lado de minha filha, sem saber quem era o pai da colega ao lado, me perguntou:
— Professor, quantos anos o senhor tem?
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— Noventa e cinco.
Os demais esboçaram um sorriso, percebendo que minha resposta era um mero chiste, um gracejo, mas a menina acreditou e comentou discretamente com minha filha:
— Nossa, com 95 anos e tão ativo!
Pode uma coisa dessas?
Numa outra sala, a mesma situação: aquela sensação de estar sendo bem recebido e a aula fluindo normalmente. E, novamente, uma aluna pede licença e:
— Professor, posso fazer uma pergunta?
— Claro que pode.
Então a garota me veio com a mesma pergunta que eu já respondera na sala onde estava minha filha:
— Professor, quantos anos o senhor tem?
— Noventa e cinco.
E ela:
— Ah, professor, eu achava que o senhor tivesse no máximo 85...
Ela acreditou que estivesse me elogiando. Eu não completara 70. São coisas da idade que temos que ir enfrentando e, se possível, com bom humor. Mas valeu a lição. Nunca mais menti minha idade. Nem para mais, nem para menos. É um risco.








