Logo cedo, na cozinha da casa-grande, Naucete acompanhava Dandara no preparo do almoço. Desde a violência sofrida no galpão da fazenda...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 7)

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Logo cedo, na cozinha da casa-grande, Naucete acompanhava Dandara no preparo do almoço. Desde a violência sofrida no galpão da fazenda, a governanta revelou ao marido seu desejo de que a menina morasse com eles. Taitale concordou de imediato, vendo também a oportunidade para que Naucete tivesse mais uma companhia durante as longas viagens que ele fazia trabalho. A partir de então, ela assumiu
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definitivamente os cuidados com a adolescente. Dandara, que se tornara uma bela moça, já não chamava sua protetora apenas pelo nome, pois tinha por ela afeição materna.

Naucete passou a ensinar a Dandara os segredos da sobrevivência à dureza do sertão, inclusive aqueles escondidos na culinária. Mais do que preparar um prato, mostrava-lhe a arte de permanecer firme e com bom humor diante das dificuldades do cotidiano.

A cozinha da casa-grande ficava do lado de fora. Perpétua exigia que a fumaça do ambiente exterior não impregnasse as dependências forradas com linho e seda.

⏤ Cuidem para que meus janelões coloniais não sejam infestados de fumaça com esse calor infernal ⏤ repetia Sinhá, abanando-se em seu leque Duvelleroy.

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No terreiro, caldeirões borbulhavam sobre um fogão de ferro fundido aquecido a lenha. Uma peixeira fincada num tronco de aroeira reluzia com o fio de corte, aguardando pela definição do prato da madame.

Naucete orientava Dandara a ter calma e respeito com os animais, bem como não gastar energia desnecessária. Primeiramente, algumas galinhas eram tangidas para um ponto do cercado; os pintinhos por perto facilitavam a captura. Um pouco de farelo de milho tranquilizava as aves antes da abordagem. Mesmo assim, o
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ímpeto juvenil de resolver tudo de uma vez e instinto aguçado das galinhas arrancavam gargalhadas da criadagem e até da própria Sinhá.

As galinhas pareciam sentir o calor irradiando ao seu redor, enxergando o reflexo da peixeira afiada. Corriam pelo galinheiro, debatendo-se num cacarejar desesperado. Algumas voavam sobre a cerca, fazendo Dandara correr desengonçada atrás da comida de sua patroa. Outras se enfurnavam sob o saiote de Naucete, bicando suas pernas e aumentando o tom do aperreio das cozinheiras, enquanto a plateia se divertia com a cena.

Definido o prato do dia, a ave tinha seu destino traçado. No terreiro, a vida escoava pela terra batida; na cozinha, tudo ganharia outro rumo. O bicho era contido com cuidado: pés atados, asas presas ao corpo, a cabeça segura com decisão. Dandara vacilava antes de fazer o corte no pescoço da galinha, e o vermelho quente se espalhava, respingando em suas roupas.

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Naucete já deixara um tacho de cobre à espera para recolher o que caía desordenado. Vendo a hesitação da outra, tomou-lhe a peixeira e, com gesto seguro, aprofundou o corte de um lado do pescoço, conduzindo o fio espesso até que descesse sem desperdício. Quando tudo se acalmou, mexeu o líquido no tacho com a colher de pau e juntou suco de umbu, cujo aroma ácido lembrava o do vinagre.

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O vapor das penas escaldadas subia carregando um bafo de pele queimada, causando náusea a Dandara. Naucete guiava suas mãos, ensinando-a a puxar as penas com precisão. Após a fase mais sangrenta, orientava-a a abrir o ventre da ave com uma incisão profunda. Contudo não podia cortar o fel. Sua aprendiz devia limpar todo o interior, separando fígado e coração. Cada gesto exigia paciência, pois Sinhá era enjoada com cheiros e sabores, e qualquer descuido estragaria o seu almoço.

Finalmente, a carcaça era cortada em miúdos, lavada em água quente e colocada para cozinhar com os demais temperos. Sendo cabidela, o sangue era adicionado à panela. Cominho e pimenta-do-reino davam origem a um molho espesso e perfumado, exatamente ao gosto de Sinhá Perpétua.

O resto do trabalho correu como a governanta tinha planejado. De tão bom que estava a cabidela, as cozinheiras quase ganharam um elogio de Nhanhá. Ela só não comeu mais satisfeita
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porque lembrou do pato com laranjas que comera em sua última visita à França.

⏤ A textura dessa cabidela quase me transportou ao Le Train Bleu ⏤ disse Perpétua, atraindo os olhares incrédulos daqueles que conheciam suas aventuras pelos brechós.

Ao chegar em casa, Naucete assentou-se por alguns instantes, fechando os olhos para descansar. Logo, a lembrança de Sinhá-dona trouxe-lhe propósito. Organizou a rotina da casa e reuniu Dandara e Orací à mesa, acendendo uma lamparina no cantinho que chamava especial, onde falaria sobre leitura e escrita.

Recordava o temor que o povo tinha do “boi-da-cara-preta”. Todos riram com a história de Ariane conversando com o touro. Orací se divertia imitando os mugidos no casarão.

⏤ Muuuu! — Uhhhh... ⏤ Muuuu! ⏤ Uhhhh... ⏤ Muuuu! — Uhhhh... ⏤ Muuuu!

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Naucete contava que o maior bem que Sinhá-dona lhe havia dado fora o conhecimento da palavra. Além disso, deixara uma velha arca com muitos livros e folhetos de cordel com diversas formas de aprendizado. Apesar de não compreenderem totalmente a passagem do mugido nem os mistérios do baú, Dandara e Orací sabiam que era preciso aprender a ouvi-los com atenção.

Começaram com a repetição dos fonemas iniciais do alfabeto. Em seguida, Naucete os introduziu nas cartilhas. Insistentemente, ela verificava se eles tinham aprendido a diferenciar as vogais para, assim,
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treiná-los na grafia daqueles sons.

Com o tempo, vieram as consoantes, que eles aprenderam rapidamente. Não demorou para construírem seus primeiros encontros silábicos. Passados dois anos, já montavam sozinhos seus ditados, formando palavras a partir de frases simples. Eufórico, o rapazinho percebeu que tudo aquilo era repetido nas cantorias que ouvia no coreto em frente à Igreja.

⏤ Na semana passada, ouvimos na fazenda que o Coronel quer fundar uma escola em Cuité. Então, vejam só... Há anos temos aprendido a ver o mundo através das letras. ⏤ disse-lhe com o orgulho de quem ensina.

Quando começaram a ler de verdade, a professora tirou alguns folhetos antigos do baú e determinou que, a cada dia, eles contassem uma história de que mais gostassem.

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Dandara adorava encenar as lendas mal-assombradas e escolheu uma narrativa dita de um mameluco. Um rei havia desaparecido em uma grande batalha. Segundo o narrador, teria um local encantado no Nordeste chamado “Pedra Bonita”. No final, a fábula revelava que, se a pedra fosse lavada com sangue, esse rei retornaria do além, trazendo consigo justiça e paz para o sertão.

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Impressionavam-se com o conto misterioso, mas Orací, gaiato, quebrou a expressão espaventada de todos.

⏤ Mainha, eu quero recitar aquela história do “doutor das dúzias”. ⏤ disse o garoto, entusiasmado.

Sabendo do que se tratava, Naucete entregou a Orací um livreto amassado e incentivou-o a declamar com toda a força. O menino pronunciou com uma voz teatral:

Levando um velho avarento Uma pedrada num olho, Pôs-se-lhe no mesmo instante Tamanho como um repolho. Certo doutor, não das dúzias, Mas sim médico perfeito, Dez moedas, lhe pedia Para o livrar do defeito.
Orací ria, já antecipando o desfecho, e continuou:

⏤ Dez moedas, disse o avarento! — ele interrompeu seu recital ⏤ Mas...?

⏤ Mainha, o que é mesmo um avarento? ⏤ perguntou. Naucete repetiu pacientemente o significado, e ele prosseguiu.

Dez moedas, diz o avaro Meu sangue não desperdiço: Dez moedas por um olho! O outro dou eu por isso.
O garoto lia a trama com um sorriso de chacota, imaginando o velho rabugento com o olho arroxeado.

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⏤ Mainha, quando eu crescer, vou ser um vaqueiro poeta. Vou recitar histórias de povo. Quero escrever uma rima que me faça ir para todo canto da terra ⏤ sonhou Orací.

Naucete sorriu e confirmou.

⏤ Sim, meu filho. A poesia lhe dará asas para sobrevoar os paredões de Cuité. Torne-se homem e acredite que é possível conquistar tudo que desejarmos.

Orací cresceu. No dia em que completou treze anos, Taitale presenteou-o com roupas de vaquejada e um pé-duro enegrecido: Ligeiro. Nas semanas seguintes, ensinou-o a selar e montar o corcel.

O pai ensaiou marcha batida e equipou o animal inteiro com os aparatos de vaqueiro. Forrou uma manta macia para acomodar a armação que lhe daria conforto à galopada de sua imaginação. Ajustou o cabresto e entregou-lhe as rédeas em mãos.

O jovem vestiu um gibão viçoso, chapéu de couro feito à sua medida e portava também um canivete prateado da Capital. Na montaria, trazia um cantil
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com água fresca e o estimado badoque. Taitale avisou:

⏤ Cuide-se de bicho peçonhento e da fera do campo. Não mate animal silvestre se não for matar a fome. Feito isso, nada dessa terra irá feri-lo.

Garantido pelo pai, o garoto proclamava que o sertão paraibano era dele. Estreando Ligeiro, escafedeu-se num galope duro para o planalto, e começaram as lendas de um pequeno explorador da caatinga que não temia vento seco e sol ardido.

A fama de Orací percorreu todo o Vale do Piancó até chegar nas profundezas do Alto Sertão. Vaqueiros testemunhavam um rapaz subindo a Serra de Cuité numa disparada medonha, retornando apenas ao pôr-do-sol, sempre trazendo alguma caça ou uma matula cheia de catolé e seriguela.

Ouvia-se nos sítios e arredores que, quase todas as sextas-feiras, antes do crepúsculo, viam um mancebo empinando seu cavalo no ponto mais íngreme da montanha.

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Contavam que ele desafiava o chão duro do Maciço da Borborema e que, do alto do Curimataú, seu grito ecoava pelas grutas, retinindo nos rochedos do planalto aos confins do vilarejo cuiteense:

⏤ Essa é a minha terra; meu é este sertão!

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