Taitale pensava em realizar o maior feito que suas mãos haviam produzido, mas antes, precisaria de algum tempo para concluir seu proje...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 6)

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Taitale pensava em realizar o maior feito que suas mãos haviam produzido, mas antes, precisaria de algum tempo para concluir seu projeto em Baía da Traição. Firmou um acordo com o Coronel: a edificação do Curral-Labirinto somente começaria quando Alceu retornasse em definitivo da Europa. Não seria obra a ser construída às pressas. Nem mesmo seria um trabalho para uma safra. Depois de traçado o “Mapa do Labirinto”, seria preciso o braço forte de cada vaqueiro disponível, além da presença do veterinário
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para observar os ânimos do bicho a cada estaca enterrada no curral.

Este desafio exigiria do artesão uma estranheza não menor do que aquela que seu ofício se acostumara a embelezar. Se antes ele trabalhava a imagem de um sorriso que não se consumia e aperreava a morte na eternidade, pensava que, agora, uma edificação concreta aprisionaria, ainda viva, a fera que trazia um ciclo de pavor e sofrimento aos seus conterrâneos sertanejos.

Feitas todas as contas, o fazendeiro anunciou que iniciaria a extração de madeira da mata virgem paraibana. Transportaria de trem até a estação Borborema e de carros de boi até Cuité. Exigiu que o molde do cercado fosse erguido segundo as formas que lhe apareceram em sonho. Nasceria ali, então, o “Curral-Labirinto”: uma construção em espiral, com uma única entrada e saída. As chaves dos portões permaneceriam sob o domínio constante do fazendeiro; já o “Mapa do Labirinto” seria confiado ao artesão e guardado por seus descendentes.

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Pequenos cochos, espalhados em ordem, deveriam garantir uma alimentação regrada à besta, com facheiro e farelo de milho. Nem engordar, nem emagrecer era preciso, apenas conservar a sua força necessária para abarcar todas as vacas no cio. Bebedouros seriam feitos sob medida: pequenas contenções de água estariam dispostas em todo percurso do estábulo. O “boi-da-cara-preta” poderia mergulhar a focinheira, mas o risco de morrer de sede ou o perigo de se afogar deveria ser mitigado pelo tamanho do recipiente.

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O cercado se ergueria alto o bastante para a intimidação da criatura. Se o monstro ousasse pular, jamais ultrapassaria os limites demarcados. A construção teria robustez para resistir a toda chifrada endemoninhada sem se desfazer em barrocada. A fortaleza do curral se estenderia por todas as faixas de terras do pecuarista, ligando as demarcações das propriedades do Agreste ao Sertão.

Coronel Sinom ordenou que o bicho não estivesse nem demasiado vivo, a ponto de lhe atrair trabalho ou atenção do povo, tampouco exageradamente morto, que causasse consternação popular e fraqueza de ofício. E para que ninguém o acusasse de vingança, haveria cocheiras disponíveis nas divisas macrorregionais, destinadas a oferecer frescor e hidratação ao “boi-da-cara-preta” durante a transição das vegetações agrestina-sertaneja.

O touro correria solto e desembestado no interior da prisão para onde ele quisesse, usufruindo da quentura do campo e da frieza planaltina regional. Aproveitaria de todas as outras benesses naturais providas pelo Coronel. Assim foi definida a forma para o encarceramento da besta mais temida de toda a região Nordeste.

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Ao mesmo tempo, Sinom tramitou o aceite formal de Nhô Ageu, pai de Alceu. Este era outro coronel interessado no êxito do confinamento do animal que trazia aborrecimentos a parte da casta oligárquica. O homem também pensava na continuidade de sua prole sob linhagem de sangue nobre nordestino. Ageu era influente na assembleia do Rio de Janeiro, sendo um mais ricos da região; diziam que suas posses só não superavam as de Delmiro Gouveia.

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Alceu nasceu entre a pompa e os negócios do pai. Assim que pegou marra, foi mandado para o Recife. Lá conheceu o clã de Sinom e outras famílias tradicionais, que se reuniam entre os goles de licores finos e petiscos de queijo do reino apimentado, preparando o paladar antes do prato principal que resolveria antigas disputas da terra.

Quando o menino se fez moço, partiu para a Europa — quatro anos antes da Primeira Grande Guerra. Influenciado pela mãe, devota de São Francisco de Assis, escolheu estudar Ciências Naturais em Coimbra, especializando-se em Zoologia. Depois da teoria decorada, percorreu estábulos por toda a Europa, aprendendo a lidar com animais doentes e auxiliando nos cruzamentos de raças. Foi então que reencontrou Ariane, já moça e radiante, em Paris.

A jovem levava consigo livros e uma vontade imensa de aplicar os ideais que absorvera na França: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Juntos, discutiam as responsabilidades que os aguardavam no retorno ao Nordeste e como transplantar aquelas propostas humanitárias para o cenário local.

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Antecipando o iminente retorno do casal, Coronel Sinom tratou de garantir a aceitação do médico no seio da família. A menina já se tornara mulher, e a liberdade prática que o casal desfrutara na Europa pouco lhe importava naquele momento: via nisso um destino útil com ideais inofensivos para a realidade que enfrentariam quando retornassem à pátria.

O veterinário seria uma mão de obra valiosa no acordo com Taitale, e por isso era preciso organizar os dotes sem demora. Nhonhô Sinom negociou a hospedagem do rapaz na fazenda com promessa delicada. Batido o martelo com Ageu ao preço da noiva e as demais garantias, convocou o doutor para visitar Ariane com rigor e cortesia;
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ao mesmo tempo, incumbindo-o do cuidado das demais crias da fazenda. Haveria um noivado glorioso para que o enlace fosse anunciado. Ambos retornariam para Cuité em definitivo, e tudo se resolveria com o enunciado nos jornais da Parahyba e Pernambuco.

Contudo, para o latifundiário, a prioridade maior nos dias que lhe restavam era com a saúde daquele que garantiria a continuidade de suas ambições: o tinhoso “boi-da-cara-preta”. Enviou uma carta ao filho do Coronel do Açúcar e do Engenho do Alambique Pernambucano, numa escrita firme e sublinhada: "Não deixe morrer nenhum dos meus bezerros! Quanto ao “boi-da-cara-preta”, dê-lhe a maior atenção do mundo. Quero manso e reproduzindo".

Enquanto limpava as esporas das botas sujas de esterco, o latifundiário ditava as ordens que trariam a normalidade aos recônditos do Nordeste. Desde que decidiu aprisionar o “boi-da-cara-preta”, o fazendeiro carregava nas costas uma carga silenciosa de consequências e precisava negociar a permanência de sua austeridade com outras autoridades.

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O Coronel ia à cidade apreensivo, montado em seu velho trotador. Três jagunços de confiança o seguiam à meia-distância: dois por detrás e um como guia olheiro dos arredores para garantir a sua segurança. Sinom trajava um terno de linho fino com colarinho sob medida para uma gravata borboleta impecável. Usava uma veste elegante que escondia uma bainha de couro com um Colt 45 e um coldre velado no tornozelo, portando uma pequena Browning 25 debaixo da meia de uma de suas botas.

No poeirão do trote baixo, sentia ao longe o fedor da morte, espalhado numa légua distante. O odor fétido veio num bafo que soprava à sua frente. De repente, o silêncio do vale foi quebrado por um som horripilante vindo do alto da colina:

⏤ Car-car-ááá! Car-car-ááá! Car-car-ááá! ⏤ gritava o pássaro, atraído pela carniça presa ao chão.

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Sinom mediu a direção com os olhos e observou a estrada ladeada pela Caatinga, imponente e desolada. Das terras vizinhas, chegavam notícias de cangaceiros afoitos: matavam inocentes, desmoralizavam o governo e afrontavam a temperança dos coronéis. Suspeitou que o aviso da ave carnicenta fosse um mau presságio para o seu futuro.

Na volta para casa, viu um grande mandacaru que se erguia à sua frente. Conforme se aproximava da planta, cinzenta, rodeada de pedriscos, percebeu que ela lembrava um trono divinal.
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Seus braços espinhentos se estendiam ao céu como um encosto de assento, enquanto a claridade do entardecer refletia um arco ao seu redor: parecendo destacar o local do território de Sertânica. Parou por algum tempo, contemplando o cacto, mas desistiu de achar um sentido lógico em meio à sequidão do campo aberto; continou viagem à fazenda.

Chegando exausto da jornada, apeou do cavalo e sentou-se em sua velha cadeira de balanço no terraço do casarão, embalando-se num vai-e-vem. Sedento, recebeu das mãos de uma serviçal uma jarra de suco de caju e um pouco de água fria para refrescar a nuca e os pulsos.

No ranger da madeira contra o piso do terraço, sua mente apoquentada digeria o desaforo ouvido pela manhã. Mas a silhueta irrequieta de Perpétua, que brincava no canteiro, trouxe-lhe um breve momento de alegria. Contemplava a energia da mulher ao seu lado, refrescando a pele rósea como quem tenta controlar a dispersão das gotículas na fonte de seu jardim.

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Nhonhô Sinom recapitulava a imagem límpida de quem o acompanhara em todos aqueles anos de trabalho árduo. Pensava na discussão travada na Comarca e sentia-se traído. No passado, apoiara o desmembramento de Picuhy; agora, porém, seus pares do latifúndio instavam contra o retorno de Cuité à condição de município. Vira manobras emancipatórias converterem-se em postes faiscando luz, iluminando as cidades da Mata às cercanias do Sertão. Ainda assim, seu vilarejo permanecia isolado e à luz do lampião.

Das terras vizinhas, chegavam notícias de cangaceiros afoitos: matavam inocentes, desmoralizavam o governo e afrontavam a temperança dos coronéis.
⏤ Perpétua, precisamos conversar ⏤ disse o Coronel, com um chamado endurecido.

Incomodada com o chamado repentino, Sinhá caminhou à marquise e sentou-se num pequeno balaústre formado por sinuosos pilares italianos. Ficou do lado de fora, aproveitando a luz solar que tirava sua palidez refinada.

⏤ Diga homem. Que cara de assombramento é essa? Parece que se encontrou com um fantasma na cidade... ⏤ respondeu a mulher num tom debochado.

⏤ No fim do ano, nossa Ariane termina seus estudos linguísticos... Estou me perguntando o que precisaremos fazer para validar o voto popular... ⏤ mas antes de concluir seu pensamento, a sua Sinhá rebateu com firmeza.

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⏤ Vamos falar com Padre João! Precisamos ensiná-los a assinarem o nome próprio ⏤ propôs rapidamente Perpétua ⏤ Vamos fundar uma escola para alfabetização em Cuité.

Nhonhô Sinom fitou os olhos da mulher e consentiu em cumplicidade:

⏤ A Igreja será nossa base educacional e nossa doutora dará os trâmites de ensino suficiente ao seu propósito ⏤ retrucou o fazendeiro.

O fazendeiro prosseguiu traçando planos para o vilarejo tornar a condição de município parahybano, ao tempo que a sua interlocução era observada com orgulho por Perpétua. Ela o ouvia atentamente, mas sem conter seu entusiasmo, replicou:

⏤ Bem pensado, Coronel. Mais uma vez, seremos piedosos com o nosso povo. Quem sabe Ariane ainda se encante com o poder! ⏤ arrematou Perpétua num comprometimento que parodiava a ironia de seu nome.

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