Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular dessa espécie poética surgida na Idade Média. Ao mesmo tempo, enfatiza-lhe o aspecto confessional. Expor a alma como flores numa janela é mostrá-la ao mundo, com a delicadeza de suas pétalas, e ao mesmo tempo aliviar o espírito graças ao arejamento que esse ato produz.
ALCR
Pode-se então dizer que Petrônio Souto está em excelente companhia. E bem que ele faz jus a isso. Suas quadras não são exercícios gratuitos,
Petrônio Souto ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
Petrônio é um homem da sua cidade, e suas postagens nas redes sociais vêm mostrando isso. Nelas aparecem ruas, praças, igrejas, em registros rigorosamente datados a fim de que o internauta proceda ao confronto entre o passado e o presente. Desse confronto tem-se imagens de uma João Pessoa que não existe mais. O amor pela cidade transparece já na quadra inicial, em que ele evoca o bairro do Róger (ou “Roggers”, como então se escrevia), onde viveu por mais de 20 anos:
“É Rogers seu nome antigo
bairro do meu coração.
Somente nele consigo
reanimar a paixão.”
Bairro do Róger, João Pessoa (PB) ▪️ Foto: Google
A esse primeiro local sucedem outros, como o pequeno terraço da Ordem Terceira de São Francisco (onde ele tinha o “seu cantinho”), o coreto da Bica e sobretudo o coreto inglês, antigamente situado na Praça João Pessoa. O resgate desses locais é um pouco o regate do homem, que tem nas lembranças um meio de preservar a sua identidade. O que perdemos do que amamos, e que em nós se impregnou afetivamente, é um pouco a perda de nós mesmos.
Antigo coreto inglês da Praça Comendador Felizardo Leite, hoje Praça João Pessoa ▪️ Acervo: Petrônio Souto
Enterramos no passado
o amor, a delicadeza,
pra construir o reinado
do ódio, da malvadeza”.
1931 – Ângulo raríssimo da antiga Praça Comendador Felizardo Leite (originalmente Largo do Colégio dos Jesuítas), atual Praça João Pessoa, com o coreto inglês e parte das torres da Igreja de N. S. das Mercês (por trás do prédio de A União (ambos demolidos)
Petrônio atribui grande parte desse descaso ao jogo político, que faz os agentes públicos privilegiarem os próprios interesses em detrimento do que interessa à comunidade. O resultado é o afastamento cada vez maior da população, que os vê com ceticismo e desconfiança. Eles seriam os maiores responsáveis por o país não ter alcançado a grandeza à qual estava destinado:
“Não fosse a classe política,
o Brasil era um colosso!...
Faz da Nação paralítica
e do povo aumenta o fosso.”
Antigo Palácio Monroe, na então Avenida Central (atual Avenida Rio Branco - RJ) em 1906. Setenta anos depois, a edificação enfrentou amarga destruição, com autorização do presidente Ernesto Geisel ▪️ Fonte: rememberio.org
“A ideologia é um limite
à maneira de ver e de pensar;
e o mais grave é que nem permite
ter olhos livres para se olhar...”.
Av. Guedes Pereira, em João Pessoa, na década de 1930 ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
“Fardo pesado, o Estado
sacrifica o cidadão:
nada oferece o danado
– e ainda nos tira o pão.”
Não há como escapar do aparato estatal, que limita as aspirações individuais e, por vezes, rebaixa a dignidade dos que estão a seu serviço. A não ser para alguns – os espertos e os “amigos do rei” –, a condição de funcionário púbico não premia os que por décadas se dedicam a servir à máquina pública. Daí o tom de queixa e protesto com o qual o autor se refere aos anos que dedicou ao serviço público. Chega a atribuí-los a uma espécie de trama maléfica do Destino:
“Nunca se é o que quer
e o Acaso define a Vida:
castigo é ser barnabé
no Estado da Paraíba.”
Antiga Academia de Comércio na Rua das Trincheiras, em João Pessoa (PB) ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
Mas sempre há compensações para as durezas da vida. Uma delas é se voltar para a Natureza, cuja contemplação propicia o sossego que o corpo (e sobretudo a alma) reclama. Morando há mais de 10 anos no 9º andar do Edifício João Marques de Almeida, praia do Cabo Branco, o autor dispõe de um observatório privilegiado.
“Não moro em apartamento,
moro numa bela paisagem.
Aqui o meu pensamento
está sempre de viagem”
Enseada da praia do Cabo Branco em João Pessoa-PB ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
No plano pessoal, compensa-o a existência das quatro filhas. Elas são o lado bom, a possibilidade de superar frustrações e desencantos:
“Minha vidinha ordinária,
sem brilho, de poucas trilhas,
tornou-se extraordinária
ante a presença das filhas.”
Petrônio Souto com as quatro filhas ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
Muito mais eu poderia dizer sobre essas quadras, porém deixo ao leitor o prazer de conhecê-las e degustá-las. Nesses retalhos de impressões, vivências e juízos sobre os homens e o mundo, Petrônio imprime as marcas de um espírito atilado, irônico e também generoso. Sem medo de se desnudar, ele arrosta preconceitos e visões pré-formadas. Com a sabedoria de quem ultrapassou a casa dos 70, mostra que pouco valem o apego material e o fascínio pelo poder para a conquista do bem-estar (certamente a melhor tradução da felicidade). E se hoje ele está em paz, concorreu para isso um sentimento que o norteou ao longo da vida – um sentimento sem o qual é impossível aceitar a si e aos outros e que ele explicita nesta espécie de súmula e profissão de fé:
“O que vivi, nesses setenta anos,
me faz valorizar o que hoje sou.
Sulquei desconhecidos oceanos,
mas sempre usando a bússola do amor.”
Texto de Apresentação do livro “PS Em poucas letras”, de Petrônio Souto, a ser lançado em março na FCJA















