Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular des...

Um homem e seus espaços

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Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular dessa espécie poética surgida na Idade Média. Ao mesmo tempo, enfatiza-lhe o aspecto confessional. Expor a alma como flores numa janela é mostrá-la ao mundo, com a delicadeza de suas pétalas, e ao mesmo tempo aliviar o espírito graças ao arejamento que esse ato produz.

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ALCR
Sei que o poeta se refere à janela da alma, e não a uma dessas em que a gente se debruça para olhar a rua, as pessoas, o movimento, e às vezes para se dar a ver. Mas a imagem remete inevitavelmente à outra pelo que há, nesse retângulo fronteiriço entre a casa e o mundo, de exposição e descompromisso com o lado “sério” da vida. Ir à janela é se alhear por instantes de deveres e cogitações. Não se pense, contudo, que o português via a quadra como uma espécie menor. Tanto não via, que chegou a produzir várias delas.

Pode-se então dizer que Petrônio Souto está em excelente companhia. E bem que ele faz jus a isso. Suas quadras não são exercícios gratuitos,
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Petrônio Souto ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
feitos para a diversão de amigos e parentes. Há nelas uma recorrência temática que aponta para um projeto – o de traduzir sua visão de mundo e fazer uma espécie de ajuste de contas com a vida. Ele julga a cidade onde nasceu, diz o que pensa sobre a política, revela com tocante sinceridade como enfrenta a passagem do tempo – entre outras referências das quais emerge o rigoroso perfil do homem. O que ele poderia escrever numa autobiografia está condensado nesses pequenos recortes produzidos com rigor métrico e rítmico.

Petrônio é um homem da sua cidade, e suas postagens nas redes sociais vêm mostrando isso. Nelas aparecem ruas, praças, igrejas, em registros rigorosamente datados a fim de que o internauta proceda ao confronto entre o passado e o presente. Desse confronto tem-se imagens de uma João Pessoa que não existe mais. O amor pela cidade transparece já na quadra inicial, em que ele evoca o bairro do Róger (ou “Roggers”, como então se escrevia), onde viveu por mais de 20 anos:

“É Rogers seu nome antigo bairro do meu coração. Somente nele consigo reanimar a paixão.”
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Bairro do Róger, João Pessoa (PB) ▪️ Foto: Google
A preferência pela grafia antiga, mais do que uma concessão nostálgica, reitera o contraste entre o ontem e o hoje. O Róger é o ponto de partida para uma excursão no tempo que visa recompor os espaços que o progresso desfigurou mas permanecem íntegros na memória do eu lírico.

A esse primeiro local sucedem outros, como o pequeno terraço da Ordem Terceira de São Francisco (onde ele tinha o “seu cantinho”), o coreto da Bica e sobretudo o coreto inglês, antigamente situado na Praça João Pessoa. O resgate desses locais é um pouco o regate do homem, que tem nas lembranças um meio de preservar a sua identidade. O que perdemos do que amamos, e que em nós se impregnou afetivamente, é um pouco a perda de nós mesmos.

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Antigo coreto inglês da Praça Comendador Felizardo Leite, hoje Praça João Pessoa ▪️ Acervo: Petrônio Souto
Se o futuro é incerto, e o presente um melancólico retrato do que restou, a saída é se refugiar no passado. Evocá-lo é resgatar um tempo em que as coisas existiam aparentemente imunes aos desacertos humanos; é restaurar as marcas de uma nobreza que o tempo soterrou em razão de interesses mesquinhos e do deslumbramento com o progresso. Afinal,

Enterramos no passado o amor, a delicadeza, pra construir o reinado do ódio, da malvadeza”.
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1931 – Ângulo raríssimo da antiga Praça Comendador Felizardo Leite (originalmente Largo do Colégio dos Jesuítas), atual Praça João Pessoa, com o coreto inglês e parte das torres da Igreja de N. S. das Mercês (por trás do prédio de A União (ambos demolidos)
Entre os “malvados” incluem-se os administradores inescrupulosos, que sem compromisso com a cidade e seu povo deixaram que ela perdesse as suas características originais e se transformasse num deprimente arremedo do que foi.

Petrônio atribui grande parte desse descaso ao jogo político, que faz os agentes públicos privilegiarem os próprios interesses em detrimento do que interessa à comunidade. O resultado é o afastamento cada vez maior da população, que os vê com ceticismo e desconfiança. Eles seriam os maiores responsáveis por o país não ter alcançado a grandeza à qual estava destinado:

“Não fosse a classe política, o Brasil era um colosso!... Faz da Nação paralítica e do povo aumenta o fosso.”
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Antigo Palácio Monroe, na então Avenida Central (atual Avenida Rio Branco - RJ) em 1906. Setenta anos depois, a edificação enfrentou amarga destruição, com autorização do presidente Ernesto Geisel ▪️ Fonte: rememberio.org
Há várias quadras lamentando a mesquinharia política que impera no país, fruto tanto dos interesses pessoais, quanto de outro ingrediente que perverte e praticamente inviabiliza o jogo democrático – a ideologia. Responsável por uma visão apriorística e tendenciosa da realidade, a ideologia compromete a avaliação dos que atuam na cena política. Julga-os tão-somente em função de partilharem (ou não) de determinadas convicções, deixando em segundo plano as virtudes de caráter e os eventuais acertos administrativos. Impede, por via disso, a real percepção do que está em volta:

“A ideologia é um limite à maneira de ver e de pensar; e o mais grave é que nem permite ter olhos livres para se olhar...”.
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Av. Guedes Pereira, em João Pessoa, na década de 1930 ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
A política, a ideologia e especialmente o Estado compõem uma maléfica rede que tende a sufocar o indivíduo:

“Fardo pesado, o Estado sacrifica o cidadão: nada oferece o danado – e ainda nos tira o pão.”

Não há como escapar do aparato estatal, que limita as aspirações individuais e, por vezes, rebaixa a dignidade dos que estão a seu serviço. A não ser para alguns – os espertos e os “amigos do rei” –, a condição de funcionário púbico não premia os que por décadas se dedicam a servir à máquina pública. Daí o tom de queixa e protesto com o qual o autor se refere aos anos que dedicou ao serviço público. Chega a atribuí-los a uma espécie de trama maléfica do Destino:

“Nunca se é o que quer e o Acaso define a Vida: castigo é ser barnabé no Estado da Paraíba.”
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Antiga Academia de Comércio na Rua das Trincheiras, em João Pessoa (PB) ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
Ao tema ele dedica nada menos de quatro quadras, num tom de autorrecriminação, saliente-se, desproporcional ao que conseguiu em outros domínios profissionais – como os de jornalista e historiador.

Mas sempre há compensações para as durezas da vida. Uma delas é se voltar para a Natureza, cuja contemplação propicia o sossego que o corpo (e sobretudo a alma) reclama. Morando há mais de 10 anos no 9º andar do Edifício João Marques de Almeida, praia do Cabo Branco, o autor dispõe de um observatório privilegiado.

“Não moro em apartamento, moro numa bela paisagem. Aqui o meu pensamento está sempre de viagem”
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Enseada da praia do Cabo Branco em João Pessoa-PB ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
– escreve ele numa das quadras dedicadas ao mar, sem o qual afirma “não saber viver”. O mar é refrigério para o desencanto com a ambição dos homens, a feiura da cidade deteriorada pelo progresso, o caráter pouco recomendável dos que se aferram ao lema "Farinha pouca, meu pirão primeiro"...

No plano pessoal, compensa-o a existência das quatro filhas. Elas são o lado bom, a possibilidade de superar frustrações e desencantos:

“Minha vidinha ordinária, sem brilho, de poucas trilhas, tornou-se extraordinária ante a presença das filhas.”
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Petrônio Souto com as quatro filhas ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
Heroínas “neste mundo de mumunhas”, as filhas disseminam o legado que deixaram o pai e a mãe professora, com a qual o autor aprendeu que a vida “é missão, não um passeio”.

Muito mais eu poderia dizer sobre essas quadras, porém deixo ao leitor o prazer de conhecê-las e degustá-las. Nesses retalhos de impressões, vivências e juízos sobre os homens e o mundo, Petrônio imprime as marcas de um espírito atilado, irônico e também generoso. Sem medo de se desnudar, ele arrosta preconceitos e visões pré-formadas. Com a sabedoria de quem ultrapassou a casa dos 70, mostra que pouco valem o apego material e o fascínio pelo poder para a conquista do bem-estar (certamente a melhor tradução da felicidade). E se hoje ele está em paz, concorreu para isso um sentimento que o norteou ao longo da vida – um sentimento sem o qual é impossível aceitar a si e aos outros e que ele explicita nesta espécie de súmula e profissão de fé:

“O que vivi, nesses setenta anos, me faz valorizar o que hoje sou. Sulquei desconhecidos oceanos, mas sempre usando a bússola do amor.”

Texto de Apresentação do livro “PS Em poucas letras”, de Petrônio Souto, a ser lançado em março na FCJA

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  1. Texto excelente, Chico, em que se percebe não só a análise criteriosa do livro de Petrônio Souto mas também a empatia que o crítico tem para com o autor. Isso confere uma espécie de "alma" ao artigo. E Petrônio merece tudo isso, pela pessoa de bem e do bem que ele é, além de seus méritos como cidadão, jornalista e intelectual, sempre preocupado com os destinos de sua aldeia. Parabéns a você e a Petrônio. Francisco Gil Messias.

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