Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líqu...

No fim das contas

Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, nas buzinas iradas, nas euforias das notícias bombásticas, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século.

Arte: Henri Meunier, 1900
Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de positividade tóxica ou uma fria fortaleza de racionalidade, saíam confusas. Havia espaço para tudo. Num cantinho, um travesseiro macio para os dias de tristeza fina, daquela que não precisa de discurso, apenas de um canto para se aninhar. Na estante, uma coleção de pedras lisas, frias ao toque, para quando a raiva dava uns sopros quentes por dentro e precisava ser contida na palma da mão, até esfriar.

Clara não reprimia, ela habitava. A regulação emocional não era um botão de liga e desliga, nem uma represa que contém um rio. Era mais parecido com a arte do agricultor que conhece a terra. Há hora de plantar a semente da paciência, há hora de colher o fruto da alegria, e há, principalmente, tempo de deixar o campo em repouso, quando a exaustão tomava conta. Ela se permitia sentir o frio cortante da decepção, mas vestia-se com o casaco da experiência passada. Deixava o calor da ansiedade subir, mas abria as janelas da respiração profunda para criar uma corrente de ar.

Arte: Henri Meunier, 1896
Seus amigos a chamavam de “a equilibrista”. Num dia de grande contrariedade no trabalho, em vez de explodir na reunião ou definhar na cama, ela se dirigia direto à feira. Comprava limões, e passava a tarde fazendo uma torta de limão e merengue, batendo os ovos com uma força concentrada e metódica, ralando a casca amarela que soltava um aroma ácido e vívido. A frustração se transformava em energia motora, e no final, tinha um doce para dividir. A emoção não havia desaparecido; havia sido cozinhada, transformada.

O grande mal-entendido sobre regular as emoções, é achar que se trata de uma guerra a ser vencida. Um combate contra a própria humanidade. As pessoas buscavam anestesiar-se com distrações infinitas,
Arte: Henri Meunier,1897
com otimismo forçado, com uma hiperprodutividade que é apenas outra face do pânico. Queriam silenciar o termômetro interno a marteladas. Ela preferia aprender a lê-lo. Havia, é claro, os dias em que o termômetro parecia quebrar. Em que a tristeza era um oceano e não uma poça, ou a raiva um incêndio e não uma fagulha. Nesses dias, sua regulação assumia a forma mais humilde e sábia: ela recuava. Desligava o telefone. Deitava-se. Sabia que tentar “consertar” um tsunami com um balde era vaidade. Às vezes, a maior regulação está na rendição temporária, no deixar a tempestade passar, confiando na arquitetura básica do próprio ser, que sempre busca o equilíbrio.

Na varanda, ela cultivava hortelã e lavanda. A primeira, para os momentos de náusea emocional, de agitação no estômago. A segunda, para quando a mente se tornava um vespeiro. Era seu kit de primeiros socorros, ao alcance da mão.

Como ela perde o controle o tempo todo, a questão não é não perder, é saber o que fazer depois que você perde. É encontrar seu limão, sua pedra lisa, seu chá. É não ter medo da sua própria meteorologia.

Arte: Henri Meunier, 1897
A pressa é que nos faz dizer o que não devemos, gastar o que não temos, machucar quem amamos. A paz, no fim das contas, não é a ausência de tempestade, mas a habilidade de lembrar-se de como fazer uma boa torta de limão.

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