O autor Carlos Drummond de Andrade não era tão “gauche” quanto o eu lírico do “Poema de sete faces”: “Vai, Carlos! ser ‘gauche’ na vida”. C...

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O autor Carlos Drummond de Andrade não era tão “gauche” quanto o eu lírico do “Poema de sete faces”: “Vai, Carlos! ser ‘gauche’ na vida”. Com efeito, embora timidamente, por vias oblíquas, de acordo com o seu temperamento discreto, recatado, bem que ele cuidou, aplicadamente, da posteridade da sua poesia. Para tanto, lançou mão de um certo histrionismo para asfaltar o caminho de sua obra poética. Aliás, o simples fato de viver, durante um período, distante dos refletores, dos microfones da mídia, mais o expunha do que o escondia. Criou um tipo, como também o criaram J. D. Salinger e Dalton Trevisan, ambos reclusos num anonimato que tinha lá uma certa eficácia em termos de publicidade. E o que dizer do Jean Paul Sartre que recusou o Prêmio Nobel de Literatura? Que, não o aceitando, ganhou mais evidência, mais notoriedade.

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Vicente de Carvalho
O autor de “A Rosa do povo” não foi um missivista como Mário de Andrade, em cuja vida breve – a arte foi longa! – respondeu, compulsivamente, a todos os que o escreviam, fossem eles poetas federais, estaduais ou municipais. E por que essa ânsia desenfreada de responder a todos indistintamente? Pela simples razão de Vicente de Carvalho, “O poeta do mar”, parnasiano da melhor cepa e do qual ele era fã de carteirinha, ter lhe dado o silêncio como resposta a uma carta em que anexara um poema – fruto dos seus verdes anos – sobre o qual solicitara a opinião do consagrado poeta. Depois daquele instante, quem sabe os que o escreviam, todos, sem exceção, não passaram a ser o Mário de Andrade que, desta feita, obteria a pronta resposta de Vicente de Carvalho?

Quando editor do “Correio das Artes”, convoquei escritores de todos os quadrantes do país para colaborar no número especial do encarte de “A União” sobre os 80 anos de Drummond. A receptividade foi tamanha que um só número não foi suficiente para abrigar os textos dos que desejavam saudar o poeta octogenário. E a homenagem prosseguiu, através dos ensaios, crônicas, poemas, artigos, veiculados nas edições posteriores ao número especial do tabloide. Pois bem. Não sei ao certo, exatamente, o número de colaboradores que, conjugando esforços com a editoria e com o conselho consultivo do “Correio das Artes”, prestaram o justíssimo tributo a Drummond. Só sei que, quase de uma só carrada, chegaram os cartões do poeta agradecendo a todos quantos haviam escrito sobre ele. Para alguns, foi a glória!

Li, faz pouco tempo, sobre algo que já tinha certeza: Drummond sempre elogiava os livros a ele destinados. Elogios breves, elípticos, mas, de qualquer forma, elogios*.


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* Affonso Romano de Sant’Anna, em “Quase diário:1980-1999)”, L&PM Editores, Rio Grande Sul, 2017, sobre Carlos Drummond de Andrade:

“(...) Aliás, na sua entrevista na Globo, parte que possivelmente cortarão, outras inverdades: diz que só responde carta de poeta quando gosta de seus versos. Há milhares de cartinhas e bilhetes para todos os poetas medíocres do país. Ele só para de elogiar os poetas exatamente quando o poeta começa a crescer”.



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Cassiano Ricardo
Cassiano Ricardo, diferentemente de Drummond, sempre saudou efusivamente quem estreava em livro, artifício do qual se valia para, de algum modo, permanecer lembrado pelos mais jovens. E nem precisava disso quem, autor de “Jeremias sem-chorar”, marcara profundamente toda uma geração de poetas e de leitores de poesia.

João Cabral, por sua vez, jamais incensou os jovens poetas. E pelo que sei, tampouco escreveu prefácio louvaminheiro sobre o livro de quem quer que seja. Vai ver, nunca escreveu sequer um prefácio, o que não o impediu de, ao seu modo, também vender o peixe grande de sua antilira, através das muitas idiossincrasias que o tornaram um “gauche”, um excêntrico, dentro e fora da poesia.

Em última análise, dando os trâmites por findos, resta-me dizer que uns mais, outros menos, quase todos utilizam de artifícios mil para promover e valorizar a sua obra literária, o que é natural.


Sérgio de Castro Pinto é doutor em literatura, professor e poeta
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