Manifestações e protestos, desde que ordeiros e pacíficos, são uma demonstração inequívoca da liberdade de expressão. Embora muitos desejem...

Culpa ou responsabilidade?

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Manifestações e protestos, desde que ordeiros e pacíficos, são uma demonstração inequívoca da liberdade de expressão. Embora muitos desejem limitá-la, a liberdade de expressão deve ser garantida e quem se sentir incomodado com ela deve buscar a justiça. O que não dá é para o estado se intrometer e cerceá-la, em nome do que quer que seja.

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Edward Colston
A retirada das ruas de estátuas de traficantes de pessoas escravizadas não pode ficar apenas nisso. Só removê-las, para derreter, destruir ou jogar fora é ação que beneficia o preconceito, porque ajuda a esconder a ignomínia e estimula a continuidade da discriminação.

Por que não usar essas estátuas didaticamente, colocando-as num museu sobre a escravidão, para que a história seja contada repetidas e infindas vezes, revelando com todas as letras a ação execrável cometida, para que ela não mais se repita?

Se as manifestações e protestos se resumirem a retirar dos logradouros esses símbolos da opressão humana, sem uma ação subsequente ensinando às novas gerações que os homens são iguais, merecedores de respeito e de amor, independente da cor da pele ou da etnia a que pertençam, isto pode até saciar um certo desejo premente de vingança, mas jamais será justiça.

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O desejo de vingança, até certo ponto compreensível por causa de nosso instinto de sobrevivência, mostra-se patente na busca de culpados. Mais do que culpa, contudo, devemos buscar responsabilidade. É a responsabilidade que nos faz assumir as consequências de nossos atos. A culpa apenas nos consome e, via de regra, nos joga ainda mais para baixo.

A responsabilidade, depois que dela tomamos consciência, nos encaminha a fazer o que é correto. Não podemos consertar os erros do passado, mas podemos começar a entender que não devemos repeti-los e passar a repudiá-los. Eis a responsabilidade, bem diferente da culpa. Esta nada muda em nós e, a depender da situação, estimula que continuemos a cometer os mesmos erros.

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Essa confusão entre culpa e responsabilidade revela-se quando queremos interferir na liberdade de expressão, censurando obras de arte. A arte é, indubitavelmente, o ambiente em que a liberdade de expressão melhor se exerce. Por outro lado, confundir ficção com realidade é a demonstração mais cabal que o que procuramos é nos vingar de algo que nos fez ou nos faz mal. É uma prova de que a nossa capacidade de raciocinar está visivelmente comprometida.

O que passa pela cabeça de alguém que aprova a censura de uma obra como E o vento levou..., porque ela conta mal a história da escravidão? Em princípio, só o autor poderia estabelecer uma censura à sua obra. Qualquer outra pessoa ou instituição que se atreva a fazer isso é um aviltamento à obra e um atentado à liberdade de expressão do seu autor.

Aristóteles já estabeleceu, há 2500 anos, a diferença entre a ficção – póiesis – e realidade. Quem quer realidade vai buscar a história, que se preocupa em contar o que acontece ou que aconteceu (nem sempre é assim, sabemos, porque a história teve e sempre terá partido...); quem busca possibilidades, o que poderia ou não acontecer pela verossimilhança e pela necessidade, vai ao encontro da ficção. Se Aristóteles não conseguiu se fazer entender por muitos que se dizem artistas e aprovam o absurdo da censura, talvez Guimarães Rosa o consiga, com uma declaração irônica, no conto “A Hora e a Vez de Augusto Matraga*”:


* Guimarães Rosa (1908-1967), no conto “A Hora e a Vez de Augusto Matraga": Sagarana (Editora Universal, 1946):

(...) “E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.””.


Se ficarmos apenas na sede de vingança, quanto tempo irá durar uma obra como o Coliseu, construída com o suor de escravos hebreus, levados
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a Roma, para a glória de Vespasiano e Tito, após suas campanhas contra os judeus, no ano 70 d.C.? Deveria ela continuar de pé, contando para as gerações como não só se alimentou do suor judaico, mas também do sangue dos escravos que ali morreram para gáudio do público que lotava os seus 80.000 lugares, ou deveria simplesmente ser demolida, por que buscamos culpados e queremos vingança?

Com esse raciocínio equivocado, terminaremos sem história.



Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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  1. Muito bem, Milton!
    Isso me leva a refletir sobre a demonização do gênio de Monteiro Lobato. Afirmam, até, que o mesmo fazia parte da klu klux khan.

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