No começo disseram a ela que era um vírus mortal. Recomendaram para que ela ficasse em casa. Ela ficou. Foi sensibilizada por palavras ...

O bem comum

adriano de leon ambiente de leitura carlos romero pandemia confinamento covid bem comum liberdade tragedia humana

No começo disseram a ela que era um vírus mortal. Recomendaram para que ela ficasse em casa.

Ela ficou.

Foi sensibilizada por palavras lindas como amor ao próximo, sensibilidade, empatia, doação.

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Passaram-se dias e também meses. As horas se alongavam ao longo das noites e dos dias que, como o feitiço de Áquila, sempre voltavam para o mesmo segundo.

Disseram que havia outras janelas, as brilhantes janelas de vidro das telas. As magníficas janelas por onde chegavam notícias de mortes, visitas virtuais a museus e mesmo a bosques. Janelas que lhe trariam os espetáculos das lives, dos artistas em suas residências confortabilíssimas. Janelas frias de uma temporalidade vazia e nua.

Criaram até um slogan, uma marca destes novos tempos: #ficaemcasa. Tudo seria providenciado para ela, como uma prisioneira de luxo. Compras, suprimentos, bebidas, aulas, um comércio de tudo, uma economia do triunfante mundo virtual. Para que mundo real?

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Nas notícias, uma espetacularização da morte. Sim, o vírus era mortal, como todos os são. Mas a mortalidade deste vírus era maior. Ele matou a vida, sem que a morte chegasse. Era como se o apocalipse houvesse ocorrido e agora a vida dela fosse a de um sobrevivente do caos.

Mas nada a se preocupar. Ela tinha tudo.

Entre noites, entre dias, ela se incomodava, mas calava de vergonha. Ela pensava em Rosa, sua diarista. Ela pagava para que Rosa ficasse em casa. Numa casa de 50 metros quadrados com mais 8 almas. O marido de Rosa era alcoólico e saía todas as noites para beber e jogar biriba. Seus filhos pequenos tinham que se reversar para assistir aulas on-line num celular que não foi feito para isto. Rosa tinha que sair de casa para ir à feira. Rosa encontrava suas amigas pelas ruas. Algumas desesperadas por nada ter em casa. A ajuda mínima do governo foi solapada por pessoas que nem precisavam, mas que sabiam como ter acesso àquele montante. Rosa e sua comunidade estavam onde sempre estiveram: no caos da vida cotidiana, no caos da luta do mais forte, no caos da luta pela sobrevivência. Rosa ainda se incriminava porque as notícias diziam que a culpa pelos recentes contágios eram deles. Eles, os de sempre, os ignorantes e bestas-feras. Eles que pediram para ser assim. Eles que não mereciam as bênçãos de prosperidade de um deus monetário.

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Um carro de som anunciou na comunidade de Rosa as medidas de confinamento. Ameaçaram toda comunidade com prisões. Ora, com vírus ou sem vírus, a vida daquela comunidade era de prisões e de morte. Ser preso ou morrer eram primos carnais. Todos os dias, negros, pardos e pobres eram presos ou morriam. Era quase um destino. Escapar era um dom, talvez. Sempre foram tratados como vírus, de tão mortais que eram para os outros, para aqueles outros que mesmo pardos eram tão brancos, quase imunes a quase tudo que os ligasse a estes outros, e estes imundos e traidores do #ficaemcasa.

Enquanto isto, ela estava em casa, seguia as regras. Não ousava nem expressar seu incômodo, pois qualquer dito fora do controle social seria interpretado como ofensa pública e falta de empatia.

Eram muitos funcionários, muitos assalariados vivendo o sonho e o pesadelo de #ficaemcasa. Para se aquietarem, a grande novidade era a visita de casas dos famosos. Estes, os ídolos da nação, que generosamente abriam suas casas para um tour no nosso abismo social.

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Não era a primeira vez que ela ficava privada de liberdade. Em junho de 1968 ela foi presa e acusada de subversão. Isolada numa cela úmida e imunda. Submetida a três estupros. Mas era tudo pelo bem comum, como agora. Ela era o vírus da época, devendo ser extirpada pelo bem comum. O bem comum das pessoas de fé e civilizadas.

O bem comum era a justificativa ideal para todo tipo de controle. Em 1940, o filme O Judeu Eterno, exibido gratuitamente nas salas de cinema da Alemanha, comparavam o judeu a ratazanas e cupins que acabavam com a riqueza e com a arte alemã. A população alemã e mais tarde o mundo inteiro, aceitou o extermínio em massa de judeus, ciganos, mendigos e homossexuais em nome da limpeza, em nome da harmonia social. Pelo bem comum vale tudo. Vale exterminar o outro, este pestilento, em nome de todos.

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Ela assistia a tudo calada. Sofria. A saúde acima de tudo era o que diziam. Dentro das casas, a tristeza e a agonia. A masculinidade tóxica massacrando o feminino. Mulheres tendo que ligar para a polícia fingindo pedir pizza, um código para seu salvamento. A morte psíquica rondando uma multidão de silenciados. Pânico e depressão rondando as casas protegidas.

Até o discurso de que a família era o bem maior foi por terra. Professores e terapeutas se viram às voltas com os pais e seus filhos em guerra. Pais que gritavam contra os educandários fechados e os professores em casa. A síndrome do ninho vazio se transformou em síndrome do ninho cheio. Cheio de ódios e tragédias humanas. De pais reclamando da presença diária de seus filhos clamando por atenção. De casais que descobriram que a família era uma farsa a ser vendida nas igrejas e nos encontros sociais. De pessoas que tinham que se suportar em nome da convivência confinada.

Foi preciso um vírus, uma estrutura nanométrica para redefinir nossos valores
Os idosos, sempre estes quase invisíveis e anônimos, foram o alvo da contaminação. Também foram privados de tomar sol, de caminhar ao ar livre, de receber visitas. Agora muitos souberam o que é ser velho e exilado. Souberam o que é envelhecer em abrigos de idosos sem uma visita sequer.

Tudo em nome do bem comum. Este bem que não é comum. É de uma parte para o resto. Este bem que é inventado para castrar os diferentes e silenciar os arredios. O bem comum que criou as favelas do Rio de Janeiro quando expulsou os moradores de vilas em nome do contágio. No início do século XX, uma leva da população carioca foi removida para os morros em nome do bem comum sob dois limites: a insalubridade e a segurança. Alemanha, Paris, Brasil. Tudo igual. Como já escrevera Sigmund Freud, alertando o mundo para os desastres de querer um mundo higienizado, se eu limpo algo é porque tem sujeira. Há uma parte da humanidade que deve ser banida em nome do bem comum. São os sujos.

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Ela sofria por enxergar que tudo isto era mais uma estratégia de banimento. Ela que já fora banida das redes sociais da família. Ela que já fora expulsa pelas suas ideias do avesso. Ela que via os camburões da caveira exterminando garotos e garotas pobres em nome da limpeza dos bandidos. Ela que assistia os urros de pessoas clamando por armas e por mais militarismo em nome da limpeza social. Ela que via ditos cristãos bradarem pela morte daqueles que ousaram se fazer além da ordem binária dos sexos em nome da limpeza de gênero.

A liberdade agora era risco de vida. Como nos piores períodos da história da humanidade, sair de casa era uma afronta. Os controladores, em nome do bem comum, exigiram papeis salvo-condutos para a circulação de pessoas nas ruas. Parques, florestas, praias já haviam sido banidas, pelo bem comum.

O que não se dizia, entretanto, era que tudo isto poderia ter sido evitado se estes mesmos autoritários tivessem usado os impostos populares para o bem comum. Agora corriam para construir hospitais de última hora, hospitais estes que já existiam nos projetos, mas que se transformaram em mansões, em lagostas, em altos salários dos de sempre, dos que agora se proclamam os salvadores do bem comum. Hospitais foram construídos em 10 dias. Médicos, enfermeiras e técnicos contratados em três dias. Nunca antes. Foi preciso um vírus, uma estrutura nanométrica para redefinir nossos valores.

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Mas lá fora um grito surdo explodiu. Não era o bem comum. Eram negros, pardos, pobres, cuja alegria cotidiana era pertencer a um grupo comum, a uma torcida que a todos unificava. Foram às ruas pelo bem comum. Arriscaram-se pelo bem comum. Mas o mesmo bem comum foi usado para devolvê-los à vida nua das comunidades, à vida invisível e bruta da invisibilidade humana. Como a Geni de Chico, foram tidos como imundos pelo bem comum. Seu destino: a cadeia. As prisões de pretos, pardos e pobres que nos garante, afinal, a manutenção da ordem e do progresso.


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
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  1. Anônimo6/6/20 17:24

    O conto mais espetacular deste portal. Que lucidez! Que visão! Talvez venha a ser o conto maldito, como os de Nelson Rodrigues ou Garcia Marquez. A realidade nua. Este conto dignifica o portal www.carlosromero.com. Uma história das lutas e dos que lutam por dias melhores.

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  2. Anônimo6/6/20 17:26

    Nunca li algo tão cru e real. Fiquei envergonhado da minha posição. Comecei a olhar para os meus semelhantes que não puderam ficar em casa com mais compreensão. Quem é este autor? Um nome de coragem e luta.

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  3. Um vírus espalhado pelo mundo mostra, onde cada sociedade exposta e se mostra quem é, em solidariedade, compreensão, igualité. Enquanto Rosa mostra a face nua e crua desses tristes trópicos, entregue ao governo mais nefasto que se poderia ter. Rosa não é só um nome. Lindo e triste o seu texto, Adri"Rosa".

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  4. José Nascimento7/6/20 16:28

    Uma esperança para Rosa. Ela é uma planta e mesmo que arrancada suas flores, mesmo que cortada os seus galhos, mesmo que cortada todo o seu corpo, a Rosa brotará do chão. Basta regar.

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