No primeiro dos textos, abordando dois capítulos em Os Miseráveis, tratei da maneira como o autor induz o leitor ao erro, em nome da técnica da narrativa e apelando à catarsis (leia aqui). Neste segundo texto, a minha intenção é tratar de alguns aspectos da tradução do romance de Victor Hugo, para a língua portuguesa. Antes de passar, contudo, ao capítulo específico,
“Javert déraillé” (Parte V, Livro IV, capítulo único, cujo nome é o mesmo do Livro em que ele se encerra), gostaria de introduzir o tema das complicações de tradução, pois no capítulo analisado anteriormente, “Jean Valjean se venge” (V, I, 19, p. 971-973), tratei de alguma delas.
Traduções nunca são pacíficas e dependem de escolhas feitas pelo tradutor. Sempre advoguei que as escolhas não podem ser distantes da estrutura e do contexto daquilo que se traduz. Ao mesmo tempo, ponho-me na pele do tradutor, principalmente de tradutores de textos longos, como é o caso de Os Miseráveis, pressionados pela editora e pelo tempo. Ainda assim, causam-me um certo desconforto algumas escolhas feitas. É o que passarei a discutir, procurando mais o diálogo com a linguagem do que a crítica que se exaure nela mesma.
Em determinado momento do diálogo entre Jean Valjean, o carrasco que perdoa, e Javert, a vítima que não assimila o perdão, o inspetor muda o tratamento ao ex-forçado, alvo de sua permanente perseguição, usando “vós” em lugar de “tu” (V, I, 19, p. 973):
“Vous m’ennuyez. Tuez-moi plutôt.”
“Vós me aborreceis. Matai-me, é melhor.”
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Numa tradução do capítulo, para a sala de aula, tentei fazer o uso de “você” para “tu”, e de “senhor” para “vós”, tendo como resultado “Você me aborrece. Mate-me, é melhor”. Funcionou até o momento em que o narrador chama a atenção para a mudança de tratamento de Javert, com relação a Jean Valjean (V, I, 19, p. 973):
“Javert ne s’apercevait pas lui-même qu’il ne tutoyait plus Jean Valjean.”
“O próprio Javert não se apercebia de que não tuteava mais Jean Valjean.”
Digamos, inicialmente, que “você” só substitui o “tu” (tu) ou o “vós” (vous), na tradução do francês para o português, ocasionalmente. Para pessoas, desconhecidas ou conhecidas, com as quais não se tem intimidade, o “vós” (vous) é, por assim dizer, uma obrigação
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exigida pelas regras da polidez. Noblesse oblige, ou seja, a polidez exige polidez. Assim, para tornar ainda mais complexa a tradução o tu e o vous, em francês, marcam, respectivamente, a intimidade e a formalidade. Tu se usa com os amigos e em família; vous com os demais – desconhecidos, conhecidos sem intimidade, inimigos, presidente da república, o papa e Deus. Aqui no Brasil, a construção com “vós” foi abolida até do “Pai-Nosso”, pela dificuldade de flexão, sobretudo quando se trata do imperativo afirmativo. Não que a construção com “tu” seja mais fácil, o “tu”, porém, virou, de certa forma, coloquial, trazendo consigo todas as corruptelas possíveis da flexão verbal, do tipo “tu foi, tu viu”...
As complicações não param por aí. No caso de Javert e Jean Valjean, a distinção marcada pelos dois pronomes deixa claro o estabelecimento de uma hierarquia que distancia Javert, o inspetor de polícia (vous), de Jean Valjean, o ex-forçado e foragido (tu). Ao tratar Jean Valjean por vous, Javert, inconscientemente, vai concedendo ao seu maior inimigo o estatuto de um igual; um respeito que o levará a uma aflitiva reflexão mais adiante, no Capítulo “Javert déraillé”, cuja análise virá em seguida.
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Há ainda uma outra complicação. A leitura da obra por um português não seria entendida, com a substituição do tu por “você”, tendo em vista que você é pronome de cerimônia, não de informalidade ou intimidade. A frase, “O próprio Javert não se apercebia de que não chamava mais Jean Valjean de você”, teria, em Portugal, o sentido inverso do que tem no Brasil.
A minha opção, para evitar incompreensões, é manter o uso da língua original, por mais que se possa parecer pedante ou distanciado do uso de nossa língua. Tenhamos em mente que uma das funções da tradução não é apenas o entendimento do texto,
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mas sobretudo da cultura da língua original, envolvendo os seus vários usos e registros. O texto de Victor Hugo é do século XIX, iniciado no final da primeira metade (1840) e concluído no início da segunda (1862), nada mais natural que se mantenha o uso e a cultura da língua original, situando-a em sua época, quando a formalidade era bem maior.
Tratando agora do segundo capítulo, digo que optei por traduzir “Javert déraillé” como “Javert descarrilhado”, tendo em vista que o descarrilhamento do personagem é fruto de seu espanto, em relação à atitude de Jean Valjean ao libertá-lo (Parte V, Livro 1, capítulo 19). Traduzir o título do capítulo Javert déraillé, como Javert sem rumo não é fiel à estrutura do texto. Um trem perder o seu rumo, não é a mesma coisa de um trem descarrilhar. Javert tem um rumo, que é o cumprimento estrito da lei, mas a situação lhe impõe sair dos trilhos, ao deixar de lado a perseguição implacável a Jean Valjean. É aí que a locomotiva descarrilha, descarrilhamento que o leva à ruína. Javert sabe como voltar ao rumo, conforme a frase incompleta, mas cheia de sentidos óbvios, para quem conhece a estrutura do romance (V, 4, p. 1045):
“Ele não tinha senão duas maneiras de sair da situação. Uma era ir resolutamente a Jean Valjean e devolver à prisão o condenado a trabalhos forçados. A outra...”
As reticências que marcam o final da frase são o descarrilhamento dessa potente locomotiva que resolve parar de resfolegar sobre os trilhos inexoráveis da justiça.
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Vejamos o que acontece neste capítulo único, intitulado “Javert déraillé”.
Da atitude de Napoleão à cabeça baixa; dos braços cruzados sobre o peito às mãos atrás das costas; da resolução à incerteza, tudo demonstra o grande abalo nas convicções de Javert, após o perdão que lhe foi concedido por Jean Valjean. Em um estado inusitado de grande ansiedade e aflição, Javert “se enfurnava nas ruas silenciosas” (p. 1039). A sua ida à Pont au Change, em cujo parapeito ele reflete sobre os acontecimentos recentes, é uma prolepse de seu suicídio, revelado na alusão à perigosa correnteza que naquele lugar do Sena se formava. A atitude de Javert diz tudo do que lhe ocorre (p. 1039):
“Uma novidade, uma revolução, uma catástrofe acabava de acontecer em seu íntimo, e havia algo para examinar.
Javert sofria aflitivamente.”
Tendo conhecido apenas uma linha reta em toda a sua vida (p. 1040), o inspetor agora se via diante de duas vias, que se excluíam. Qual delas era a verdadeira, qual delas era a falsa? A da lei implacável e inflexível ou a da humanização da lei? Prender Jean Valjean, independentemente de ele ter salvado a sua vida ou retribuir o favor, deixando-o em liberdade, extinguindo a perseguição cerrada e injusta sobre ele? O conflito se materializa, diante da perigosa corredeira do Sena: “Trair a sociedade, para permanecer fiel à sua consciência” ou fazer o contrário, trair a consciência rígida, para permanecer fiel à humanização exigida pela sociedade? Javert já não sabe, as suas certezas estão em processo de desmoronamento (p. 1040):
“Onde ele se encontrava? Ele se procurava e não se achava mais.”
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Aterrado, aflito, ansioso, perdido, pensando em uma situação para a qual ele não encontrava saída – o clássico estado de aporia –, ele tinha Jean Valjean como o cerne de onde partia o peso na consciência, que o esmagava (p. 1041):
“Ele tentou se debater; fora reduzido a confessar no seu íntimo a sublimidade daquele miserável. Isso era odioso.”
A sublimidade de Jean Valjean o incomodava, causando um grande conflito íntimo, vez que o forçado se elevara pela virtude do perdão à vizinhança do anjo. A situação, estilisticamente falando, exige o oxímoro, como figura-síntese, expressando o paroxismo da contradição lógica: Jean Valjean
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é o “anjo infame”; é o “herói repugnante” (p. 1041). Do oxímoro se passa ao quiasmo, no cruzamento genial dos dois personagens, cujas personalidades tanto se aproximam, quanto se afastam: Jean Valjean alçado x Javert degradado, cujo ápice é a “probidade tenebrosa” (p. 1043).
É o momento em que Javert tem consciência de que fora arrancado de toda a firmeza que achava ter sob os pés – “Ele se sentia desenraizado” (p. 1042). De arrancado de sua raiz, para descarrilhado é um átimo. Diante do impasse entre a aplicação da lei e a dádiva da indulgência, Javert se sente “vazio, inútil, deslocado de sua vida, destituído, dissolvido” (p. 1043-4, itálicos nossos):
“Certo, era estranho que o condutor da ordem, que o mecânico da autoridade, montado sobre o trem cego de via rígida, pudesse ser apeado por um golpe de luz! Que o imutável, o direto, o correto, o geométrico, o passivo, o perfeito, pudesse fletir! que ele tivesse por locomotiva um Caminho de Damasco.”
Assim como Saulo caiu do cavalo, a locomotiva descarrilhou, ambos por um golpe de luz divino (Jesus, para Saulo; o perdão para Javert), embora resultando em caminhos diferentes. Saulo segue o caminho da propagação da luz; Javert opta pela negação de segui-la, embora a reconheça, escolhendo as trevas do suicídio. Saulo renasce e vira Paulo, o pequeno diante de Jesus, porém grande na sua conversão e no seu apostolado; Javert se apequena, ao não conseguir assimilar o que o lampejo do perdão lhe mostrara, e desaparece (p. 1044-5):
“Ele não via em tudo isso senão uma imensa dificuldade de ser. [...]. Tudo aquilo de que ele se convencera desabava.”
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Toda a introspecção que remói o espírito de Javert ocorre no parapeito da Pont au Change, olhando a violência das águas, naquele ponto do rio. Deixar-se levar pela celeridade da corredeira é mais fácil do que recuar e enfrentar a situação. O inflexível inspetor de polícia, com o desmoronamento do que ele cria ser a única verdade possível, cede à fraqueza de matar-se. Viver exige mais energia e disposição ao combate diário pela vida do que a crença dogmática em um sistema qualquer. Quando um trem descarrilha, para voltar aos trilhos deverá ser completamente transformado e não existe transformação que não exija trabalho redobrado e constante. A outra opção é desistir e juntar-se aos escombros.