A Tadeu , nosso irmão, de quem não nos despedimos, apartado que foi de nós, repentinamente, tendo encontrado sepultura nas terras das Min...

Elegia a um irmão morto

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A Tadeu, nosso irmão, de quem não nos despedimos, apartado que foi de nós, repentinamente, tendo encontrado sepultura nas terras das Minas Gerais.

Catulo, poeta latino do século I a. C. (84—54), é o único dos neóteroi (literalmente, "os mais jovens"), assim chamados, polêmica e pejorativamente, por Cícero, para designar os novos poetas que procuravam inovações na poesia latina, imitando os alexandrinos gregos. Desses novos, Catulo é o único cuja obra sobreviveu, sendo considerado um dos criadores da lírica latina.

Sua obra é constituída de poemas líricos amorosos, dentre eles algumas elegias, quase sempre tratando do seu amor complicado e instável por Lésbia, e epigramas críticos e ferinos, algumas vezes, de teor pornográfico.
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Queremos, contudo, fazer menção a uma das suas elegias, em que Catulo faz uma homenagem ao irmão morto e sepultado em Troia, o que lhe causou grande dor.

A primeira referência à morte do irmão encontra-se no Carmen LXV, em que vemos o Catulo persona enviando uma tradução de versos de Calímaco, um dos alexandrinos por ele cultivado, ao amigo Órtalo, lamentando a morte do irmão, enterrado, longe da pátria. O poeta queixa-se do pensamento que flutua por tantos males e o impede de dedicar-se às atividades do amor e da poesia, diante das lembranças dolorosas do irmão morto, com as águas da garganta do Letes banhando seus pálidos pés (pallidulum manans alluit unda pedem, verso 6). Nesse momento, ele expressa a dor da falta e o amor eterno do irmão (at certe semper amabo, verso 11), que ele traduzirá sempre em cantos dolorosos (semper maesta tua carmina morte tegam, verso 12).

Catulo ainda confessa essa dor terrível, em dois outros Carmina, o LXVIII e o CI. No Carmen LXVIII, em carta a Álio, Catulo, que deveria enviar uns poemas de amor e erotismo a esse amigo, chora a morte do irmão, dizendo-se triste e impossibilitado de escrever sobre esse motivo alegre – Não peças mais a um infeliz dons afortunados (ne amplius a misero dona beata petas, verso 14). A morte roubou-lhe o irmão e o enterrou na Troia nefasta, explica, esse sepulcro comum à Europa e à Ásia (Troia nefas commune sepulcrum Asiae Europiaeque, verso 89); aquela Troia acerba, cinza de todos as forças e de todas as virtudes (Troia uirum et uirtutum omnium acerba cinis, verso 90), numa alusão aos heróis épicos da Ilíada. É no Carmen CI, contudo, que Catulo expressa o auge dessa dor, fazendo uma elegia exclusiva sobre a morte prematura do irmão. O poeta, por ocasião de uma viagem à Tróade, visita o túmulo do irmão, cumprindo os deveres fúnebres. É tocante ouvir o poeta referir-se a sua fala vã “à cinza muda”, assim como é tocante, diante desse golpe da Fortuna, roubando-lhe o ente querido, cumprimentá-lo e, ao mesmo tempo, dele despedir-se.

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O poema é breve, constituído de 10 versos apenas, construído na forma do dístico elegíaco. Não pela forma mista de hexâmetros (os versos ímpares) e pentâmetros (os versos pares), mas pelo conteúdo de tristeza e infelicidade, condensados em perfeita síntese, temos diante de nós o que pode apropriadamente ser chamado de elegia.

Como se chama o seu irmão? O que ele fazia em Troia? Como morreu? Por que foi parar em Troia, pela profissão, a passeio? A cinza, antes acerba, no Carmen LXVIII, mostra agora, neste Carmen CI, o porquê de sua aspereza: ela é muda. Diante da morte, tudo cala, nada fala. A não ser ela mesma, com sua crueza, impondo a sua dor. Catulo nada diz de seu irmão, nem o nome; em nenhum momento o poeta se refere ao que ele fora fazer em Troia ou à razão de sua morte. Tudo, enfim, são circunstâncias que, se explicam algo sobre o fato, não mudam o seu sentido inexorável. E a explicação aliviaria a dor brutal causada pelo impacto da morte. O desejo do poeta é expressar essa dor, não suavizá-la. Por isso a apresentação do irmão despatriado e anônimo; irmão amado, destinado ao olvido, banhado que será pelas águas do Letes, o rio do esquecimento que habita o Hades. Neste Dia de Finados, a minha tradução do Carmen CI de Catulo, em versos heptassílabos duplos, acompanhada do texto latino, é a homenagem que dispenso a todos quantos perderam pessoas queridas, estando longe delas, sem terem tido tempo de se despedir.

CI Catulli Carmen. Ad inferias
Mūltās pēr gēntēs ēt mūltă pĕr ǣquŏră vēctŭs      ādvĕnĭō hās mĭsĕrās, frātĕr, ăd īnfĕrĭās, ūt tē pōstrēmō dōnārēm mūnĕrĕ mōrtĭs      ēt mūtām nēquīquām āllŏquĕrēr cĭnĕrĕm, quāndŏquĭdēm fōrtūnă mĭhī tētĕ ābstŭlĭt īpsŭm,      hēu mĭsĕr īndīgnē frātĕr ădēmptĕ mĭhī. nūnc tămĕn īntĕrĕā hǣc, prīscō quǣ mōrĕ părēntŭm      trādĭtă sūnt trīstī mūnĕrĕ ăd īnfĕrĭās, āccĭpĕ frātērnō mūltūm mānāntĭă flētū,      ātquĕ īn pērpĕtŭūm, frātĕr, ăvē ātquĕ vălē.
Tradução em duplo heptassílabo: Carmen CI de Catulo – Sacrifício aos Manes
Por muitos povos e mares, viajando, meu irmão, venho com estas tristes coisas, aos rituais dos Manes para a ti sacrificar, no extremo dever da morte e invoque, inutilmente, a mudez de tuas cinzas, uma vez que a fortuna te arrebatou de mim. Ó meu mísero irmão, me levado injustamente! Estas coisas, entrementes, dos costumes ancestrais são trazidas – triste encargo! – a teu ritual funesto, de fraterno pranto, aceita, já agora tão banhadas, e pra sempre, meu irmão, te saúdo e dou-te adeus.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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  1. Textu ocasione conveniens divina alte. Gratulationes! Prof. Milton Marques!👏👏👏👏

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