Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei ...

A voz das pedras

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Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei as águas lisas por muito tempo, eram de um azul-claro pacificado, como um lençol de seda estendido sobre a superfície da Terra. Uma felicidade simples preenchia os minutos. Ao redor da minha solidão havia pedras de todos os formatos e cores. Duas delas atraíram o meu olhar. Rolei-as entre os dedos e as coloquei no bolso.

Juntaram-se a outras na minha mesa de trabalho. Com elas estão pedras da baía de San Francisco, do Vale dos Reis, do Ganges, do Mar da Galiléia, do Rio Oiapoque. Estão misturadas e já não as identifico.
Pedras não devem ser separadas segundo sua origem. Asiáticas, africanas, europeias, norte-americanas e amazônicas, elas se deitam sobre meus livros, indiferentes a classificações.

Às vezes as acaricio. Fecho os olhos e deixo a ponta dos dedos adivinhar-lhes a textura. São porosas, duro manganês, arredondadas, polidas ou ásperas.

Não sei por que coleciono pedras, conchas e pétalas secas. Por vezes me sinto como um túmulo egípcio, lotado de quinquilharias, e quero me livrar delas.

Algo me impede.

Por que as recolho? Um apego inesperado a momentos que se foram? Um jeito secreto de parar o tempo? De trazer o instante feliz para a eternidade do sentimento? Por que manter pedaços mortos do mundo, carcaças nacaradas de moluscos desaparecidos, restos desidratados do que já foi viço, perfume e cor? Não sei, não sei. Talvez seja sinal evidente de um amor invencível pela natureza o que me faz recolher e guardar essas lembranças que deixarei para trás quando a minha hora chegar.

Penso nisso e me vem um desejo de subverter a realidade e criar minha própria lenda. Nela, quando eu estiver de volta ao pó, imersa na natureza, o corpo vai se dissolver entre flores. Sobre o meu túmulo, meus amados vão colocar as pedras que recolhi. O tempo seguirá soprando folhas e poeira sobre os dias, até que, numa tarde de verão, chegará alguém de alma pura.

Alguém que acreditará em sonhos de amor. Ao passar por ali, tocará as pedras com as pontas dos dedos e elas lhe contarão as minhas histórias. Falarão de águas límpidas descendo do Himalaia, areias douradas, um lago cercado de neve e miúdas flores da Califórnia, que nascem nas encostas e resistem aos fortes ventos que sopram do oceano.

E minha memória se erguerá de novo, ecoando na voz das pedras.


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  1. Belo texto. Lembrou-me os meus idos de 63, 64, quando, aos 22, 23 anos, eu saía todo dia - a las cinco de la tarde en punto - de meu expediente na agência do Banco do Brasil, em Pombal - alto sertão da Paraíba, tirava a gravata, vestia um calção e corria por uma longa vereda até o rio perene da cidade, onde mergulhava, maravilhado. Como gostava de, nadando junto ao fundo da límpida corrente, ouvir o ronrolar de todos aqueles belos seixos roliços de várias cores, daquelas... rolling stones.

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