A poesia de Olavo Bilac caracteriza-se pelo rigor formal e pelo despojamento na expressão dos estados emocionais. É comum acusá-lo de cere...

Melancolia e erotismo em Olavo Bilac

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A poesia de Olavo Bilac caracteriza-se pelo rigor formal e pelo despojamento na expressão dos estados emocionais. É comum acusá-lo de cerebral e frio, opondo-lhe o artesanato conciso ao derramamento dos românticos e ao anseio de religiosidade presente nos simbolistas. Por essa ótica, é difícil concebê-lo como um melancólico a lamentar o seu objeto perdido. A verdade, no entanto, é que em Bilac a representação melancólica perpassa diversas composições.

É por meio da Forma que o melancólico procura compensar a ferida narcísica decorrente da perda da Coisa – termo que, denotando um significante sem significado, designa na psicanálise lacaniana o Objeto Absoluto, ou melhor, o Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar.
Segundo Kristeva, “... a forma dita poética (...) é o único ‘continente’ que parece assegurar um domínio incerto, mas adequado, sobre a Coisa”.

A Beleza é o “outro mundo” capaz de assegurar ao artista, pela harmonia da prosódia e a polivalência dos signos, “um domínio sublimatório sobre a Coisa perdida”. Na ânsia de suprir o vazio interior ele apela à expressão artística, que sempre lhe parecerá insuficiente para traduzir os pensamentos e desejos humanos. Ao melancólico é motivo de enorme angústia o combate entre sentimento e expressão, ideia e forma, conforme ilustra esta conhecida passagem de “Inania verba”: O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:/A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve.../ E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,/ Que, perfume e clarão, refulgia e voava.”

Em defesa da Forma, o eu lírico dispõe a enfrentar a própria morte. Com isso, evoca outra atitude característica do melancólico, que é a sua generalizada disposição para o sacrifício. Augusto dos Anjos, por exemplo, manifesta o anseio de ser Cristo para sacrificar-se pelos homens. Álvares de Azevedo deseja sucumbir em defesa dos seus sonhos e ideais. Bilac, qual um redentor solitário, ressalta que é necessário se prevenir dos “infiéis” que querem profanar o altar da Beleza. Repugna-lhe, com efeito, “Sem sacerdote, a Crença morta /Sentir, e o susto/ Ver, e o extermínio, entrando a porta/ Do templo augusto!”.

Em outros poemas esse desejo de morte perde a aura do sacrifício e aparece, bem dentro da clave melancólica, como uma busca de aniquilamento. Não se trata agora da morte por alguém ou por alguma coisa, mas de morrer por morrer.
Presa do tédio e da desesperança, o eu lírico almeja pura e simplesmente extinguir-se. As imagens associadas a esse tipo de representação traduzem um estado de espírito que se expressa como aborrecimento e cansaço existencial.

Em tais situações, o eu lírico se mostra na total dependência das pulsões de morte, que “se contrapõem às pulsões de vida e (...) tendem para a redução completa das tensões, isto é, tendem a conduzir o ser vivo ao estado inorgânico”. Segundo Paul Ricoeur esse tipo de pulsão, sob cuja égide o indivíduo aspira nirvanicamente ao retorno à inconsciência do mineral, “expressa a crueldade do superego” e, assim, confirma no melancólico a severidade do sentimento de culpa. Em poemas como “Alma inquieta”, é nítido o desejo de extinção:

Sobre minh'alma, como sobre um trono, Senhor brutal, pesa o aborrecimento. Como tardas em vir, último outono, Lançar-me as folhas últimas ao vento! Oh! Dormir, no silêncio e no abandono, Só, sem um sonho, sem um pensamento, E, no letargo do aniquilamento, Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!

Ao contrário da nostalgia, que alude à saudade de um tempo ou de um lugar mais ou menos concretos, a melancolia se define como uma saudade indefinida (saudade do que não se teve). O melancólico não sabe o que perdeu e por isso tende a mitificar o Objeto, dotando-o de atributos ideais e ilusórios. Como o Objeto falta desde sempre, é inútil procurá-lo, mas é também impossível desistir da busca. Daí a ansiedade e o desencanto com que ele intenta reencontrá-lo. Bilac expressa esse desejo em poemas
como “Paráfrase de Baudelaire”, no qual se lê: “- Terra santa da luz, do sonho e dos amores.../ Terra que nunca vi, terra que não existe,/ Mas da qual, entretanto, eu, desterrado e triste,/ Sinto no coração, ralado de ansiedade,/ Uma saudade eterna, uma fatal saudade!/ Minha pátria ideal! Em vão estendo os braços/ Para teu lado! Em vão para teu lado os passos/ Movo! Em vão!...”.

É comum nesse tipo de poética a manifestação de uma exacerbada consciência de si mesmo. No âmbito da representação lírica, "o sujeito (...) se entrega à reflexão, imagem exemplar da vocação meditativa do melancólico" (é impossível, quanto a esse ponto, não lembrar as torturadas cogitações de Augusto dos Anjos – parte delas associada à atividade do estudo, com a qual pretende “iludir ‘sua’ desgraça”). A meditação corresponde à propensão do eu lírico a sondar o micro e o macrocosmo, que são, projetivamente, enigmas da própria subjetividade.

Outro traço comum à poética da melancolia é a presença do sentimento de exílio (ou, melhor dizendo, de autoexílio). Se tomamos Álvares de Azevedo e Olavo Bilac como típicos representantes, respectivamente, da estética romântica e da parnasiana, um traço distintivo entre a melancolia em um e em outro é a maneira como buscam pôr fim ou pelo menos compensar a sensação de exílio. No romântico, o degredo só termina com a morte. Não se percebe nele o desejo de um encontro real, que amenize a perda. Pelo contrário: o eu lírico se compraz em lamentá-la, compensando-a no sonho ou no devaneio. Incorpóreo e distante, o Objeto aparece nas suas fantasias como um ente espiritualizado, que se dilui, como figura física, na abstrata atmosfera do sentimento que deve inspirar. Mais importante do que a amada, é o Amor.

Já no parnasiano aparece como uma vigorosa opção a nota sensual; nele emerge sem maiores entraves a preferência pelo corpo. Essa atitude transparece em composições de recorte clássico como “O julgamento de Frineia”, “Satânia” e “A tentação de Xenócrates”, nas quais se exaltam a beleza e o poder de sedução de famosas cortesãs da Antiguidade. Na primeira delas, por exemplo, o Areópago julga o comportamento da dissoluta Frineia, que “leva ao lar a cizânia e as famílias enluta”. Sem argumentos para responder a Eutias, que pedia a condenação da mulher, Hipérides retira o véu que a cobre e revela-lhe a nudez, deslumbrando os juízes. Nua, Frineia representa o “triunfo imortal da Carne e da Beleza”.

Essa atitude de valorização do corpo estende-se à apreciação do objeto amoroso, que é requisitado menos por sua beleza espiritual do que pela física. No soneto XXX, o eu lírico depõe com franqueza:

Não me basta saber que sou amado, Nem só desejo o teu amor: desejo Ter nos braços teu corpo delicado, Ter na boca a doçura do teu beijo. E as justas ambições que me consomem Não me envergonham: pois maior baixeza Não há que a terra pelo céu trocar; E mais eleva o coração de um homem Ser de homem sempre e, na maior pureza, Ficar na terra e humanamente amar.

Como se vê, o eu lírico bilaquiano rejeita a visão de mundo romântica, para qual a mulher é um ser etéreo e espiritualizado que se presta antes à adoração do que à posse. Ele afirma a legitimidade do seu desejo. Advogando a justeza dos seus impulsos eróticos, o que considera “baixo” é trocar a terra pelo céu, o corpo pelo espírito – e não o contrário. Nos versos finais exalta o humanismo pleno, de base greco-latina, em detrimento do fundo cristão que, no Romantismo, inspira e molda a imagem do objeto amoroso.

Outra referência característica da poética da melancolia é da perda da crença. Enquanto topos melancólico, ela constitui uma variante do mito do paraíso perdido. No autor de “Sarças de Fogo” ocorre, por exemplo, no soneto “Rios e Pântanos”; o eu lírico contrapõe o sentimento de equilíbrio e de felicidade, característico de uma alma que crê, ao negro desengano trazido pela descrença. Eis como, no referido soneto, Bilac representa esses dois momentos:

Muita vez houve céu dentro de um peito: Céu coberto de estrelas resplendentes, Sobre rios alvíssimos, de leito De fina prata e margens florescentes... Um dia veio, em que a descrença o aspeito Mudou de tudo: em túrbidas enchentes, A água um manto de lodo e trevas feito Estendeu pelas veigas recendentes.

Semelhante contraste verifica-se em “Idealismo”, de Augusto dos Anjos. Depois de representar seu coração como uma catedral “onde um nume de amor, em serenatas,/ Canta a aleluia virginal das crenças”, o eu lírico refere o momento decisivo em que, “no desespero dos iconoclastas”, quebra imagem dos seus sonhos.

A descrença promove a perda do sentimento de Unidade, própria da união com o Absoluto, e precipita o melancólico em dualismos que ele busca em vão conciliar. A antítese é por excelência a figura que traduz essa ruptura,
tipificada no soneto “Pomba e Chacal”, de Sarças de Fogo. Nele, representa-se a Natureza como uma “mãe piedosa e pura” mas, ao mesmo tempo, como uma “implacável assassina” que distribui ao homem “o veneno e o bálsamo”, os sorrisos e as lágrimas.

A fixação nos contrastes faculta ao melancólico ver em tudo o seu avesso – na felicidade, a tristeza; no sensualismo do corpo, o esqueleto; na saúde, a doença; no esplendor, a ruína; na vida a morte, enfim. “Pomba e Chacal”, cuja antítese do título alude aos conflitos existentes no reino natural, ilustra a equação vida-morte que, na sensibilidade melancólica, é percebida pela via dos contrastes. Na segunda quadra desse poema, o eu lírico se pergunta e ao mesmo tempo responde, perplexo: “Pois o berço, onde a boca pequenina/ Abre o infante a sorrir, é a miniatura/A vaga imagem de uma sepultura,/ O gérmen vivo de uma atroz ruína?// Sempre o contraste! Pássaros cantando/ Sobre túmulos...”.

Outra das angústias sentidas pelo melancólico liga-se ao sentimento da passagem do tempo, ou seja, da transitoriedade da vida e do mundo. Citando Olivier Pot, para quem a melancolia é um estado de passagem, Jaime Ginzburg observa que “o reconhecimento por parte da consciência (...) do mover-se de uma faixa etária à outra, da maturidade à velhice, é melancólico." Esse desespero ante o efêmero remonta ao Barroco, que procura compensá-lo com o carpe diem. Ao melancólico no entanto, que sempre vê no erotismo uma ameaça, falta a disposição para fruir o aqui e o agora. É-lhe impossível contrapor à consciência da efemeridade a intensificação dos impulsos vitais. A passagem do tempo assusta-o e ao mesmo tempo o fascina, pois lhe a acena com a perspectiva da morte.

Composições como “Sahara Vitae” e “No liminar da morte”, de Sarças de Fogo, tematizam esse fatídico percurso, ante o qual só resta ao homem se conformar. No primeiro poema, a referência à inelutabilidade do destino aparece sob a forma alegórica da viagem no deserto,
que condena os viajantes, ansiosos pelo “oásis do amor”, ao “simum da morte”. No segundo, o apelo a Tanatos ressalta a ambiguidade de que a morte se reveste para o melancólico, que ao mesmo tempo a rejeita e a deseja. São dela, morte, as palavras finais do soneto, convocando-o às “núpcias com o nada” que vai enfim trazer alívio à angústia da perda: “Vem! que enfim gozarás entre meus braços/ Toda a volúpia, todos os encantos,/ Toda a delícia do repouso eterno!”.

Não falta, pois, à lírica do parnasiano Olavo Bilac a presença da melancolia. Nele, contudo, ao contrário do que ocorre num Álvares de Azevedo ou num Cruz e Sousa, a expressão melancólica tempera-se de um racionalismo e de um rigor compositivo que atenuam as representações da perda do Objeto. Enquanto no romântico e no simbolista são intensos o sentimento de culpa e o desejo de extinção, no parnasiano tais disposições são contrabalançadas pelo erotismo e pelo anseio vital.

É certo que em alguns momentos prevalece o pessimismo, e a morte é desejada. No entanto ela aparece mais como uma contingência do destino do que como um preço a ser pago pelo prazer. Ainda ao contrário do que acontece com os românticos, o parnasiano não se compraz na dor da perda. Tampouco se consome em idealizações que lhe acenem com a dimensão transcendente do objeto de amor. Em Bilac, a despeito de tudo o que no homem é incompleto e faltoso, percebe-se para além da tristeza o desejo de exaltar e fruir o corpo da mulher – dimensão imanente da Harmonia e da Beleza.

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