A verossimilhança é, na ficção, uma invenção de Hesíodo, na Teogonia. Aristóteles a sistematiza, como uma das essências da ação de criar f...

Da necessidade na ficção

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A verossimilhança é, na ficção, uma invenção de Hesíodo, na Teogonia. Aristóteles a sistematiza, como uma das essências da ação de criar ficcionalmente, ao teorizar sobre a tragédia, na Arte poética, dizendo que o trabalho do criador (ποιητοῦ ἔργον) é dizer não o que ocorreu, mas o que é poderia ter ocorrido, segundo a verossimilhança (κατὰ τὸ εἰκὸς, 1451a). Neste mesmo trecho, o filósofo cria o conceito de “necessidade” (τὸ ἀναγκαῖον), que passaria a designar uma característica fundamental da obra ficcional: se algo não tem utilidade ou não vai ser usado funcionalmente no texto, não há necessidade de ser citado. Ou nas palavras de Aristóteles, “o que é acrescentado ou não acrescentado, e não resulta em clareza, não faz parte do todo” (1451a).

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Recorro a dois trechos de Le Docteur Pascal, de Zola, lido recentemente e com os exemplos ainda frescos na minha mente. O doutor Pascal que dá nome ao romance é, por escolha, um médico do campo, cuja vida doa ao tratamento dos pobres, não se importando com dinheiro e fama, apesar de ser um cientista dedicado à medicina. Afastado da vida urbana de Plassans, cidade onde nasceu, no sul da França, perto de Marseille, ele vive com a empregada Martine e a sobrinha Clotilde, em um pequeno sítio, dividindo o seu tempo entre a educação da moça, que lhe fora enviada pelo irmão Saccard, um dos tubarões do mundo da especulação financeira de Paris (v. La Curée e L’Argent, obras da série Les Rougon-Macquart), e as suas pesquisas científicas.

Pascal educa Clotilde, vê-la crescer, tornar-se de menina desengonçada (“dégingandée”), de sexo indefinido, em fina criatura, cheia de encanto e amor (“du galopin sans sexe, s’était dégagée cette fine créature de charme et d’amour”, Chapitre II). Ele a adora, por ser a única afeição que tem, sendo ele um médico solteirão, afastado, também por opção, dos prazeres mundanos. Já Clotilde o venera e o trata como “mestre” (maître). Não é previsível que apareça uma relação amorosa entre ambos, mas também não é improvável isto acontecer, tendo em vista o estreitamento das relações entre tio e sobrinha, além do fato de que ela está praticamente isolada do contato com outros homens, o que não impede que o doutor Ramond, discípulo de Pascal, a ame e queira com ela casar-se.

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O leitor vai acompanhando a trama, envolvido pelo estudo da hereditariedade, que consome grande parte da vida de Pascal, mas quem for leitor atento saberá ver nas pistas deixadas pelo caminho que os dois vão se enamorar e terão uma relação amorosa íntima, não mais como tio e sobrinha, mas como amantes.

Um dos momentos decisivos para que o leitor abra os olhos, em relação ao que vai acontecer, é por ocasião de uma tempestade nas vizinhanças, quando ambos, Pascal e Clotilde, lutam pela posse dos dossiers do médico sobre a família, cuja mãe, querendo queimar, incumbe a neta de pegá-los. Sem poder dormir, Pascal vê, da janela de seu quarto, os raios riscando o céu. Desconfiado, ele surpreende Clotilde, no gabinete de trabalho, com a intenção de apossar-se dos documentos. Ambos vestidos apenas com simples roupas de dormir: ele só com a calça do pijama; ela apenas com uma curta saia e uma camisa, insistindo o romanista na nudez da moça: pés nus, pernas nuas, braços nus, espádua nua... Nudez entrevista, na escuridão do quarto, menos pela vela do que pelos clarões dos raios. Para retirar os documentos de Clotilde, Pascal tem de usar a força, abraçando-a com intensidade, o que a faz mudar a perspectiva dela sobre o tio, depois que resolve se submeter à sua vontade e entregar os documentos:

“Ela se aproximou, ela o ajudou, dominada, abatida por este abraço de homem que havia como entrado em sua carne. A vela, que queimava com uma chama alta na noite pesada, os iluminava; e o longínquo barulho do raio não cessava, a janela aberta sobre a tempestade parecia em fogo”.
(Capítulo IV, tradução nossa)

A cena cria um clima de tensão e emoção, que, até então, não se vira no romance. A descarga elétrica das tempestades é chamada pelo francês de “foudre”, podendo metaforicamente designar a centelha que inflama o amor, do mesmo modo que a expressão “coup de foudre” pode ser tanto o raio que atinge algo ou alguém, causando a desgraça ou a morte, quanto o denominado “amor à primeira vista”. Não há dúvidas a respeito do fato: o que acontece na natureza,
como fenômeno físico, atinge também os corações de Pascal e de Clotilde, que os levará, mais adiante a viver esse amor (a partir do Capítulo VII).

Do mesmo modo, o fenômeno do mistral, vento frio e violento, comum no vale do Ródano, no sul da França, torna-se capital para o momento da separação de Clotilde e Pascal. O mistral leva e destrói tudo o que não tenha solidez, com a sua força natural irreprimível. Levando também Clotilde, quando Pascal, diante de uma situação insustentável de pobreza – o notário fugira de Plassans, levando o seu dinheiro e de todos os que nele confiaram – resolve, de modo altruísta, abrir mão do amor de Clotilde e enviá-la a Paris, para cuidar do irmão dela, Maxime, doente e milionário. É uma separação dolorosa e violenta, como a força do mistral, agindo sobre o que não tem uma firme sustentação:

“E era uma raiva, uma tromba furiosa, contínua, que flagelava a casa, a sacudia dos porões aos sótãos, durante dias, durante noites, sem parar. As telhas voavam, os ferrolhos das janelas eram arrancados, enquanto pelas fendas, no interior, o vento penetrava, em um ronco violento de queixa, e as portas, ao menor esquecimento, se fechavam como um troar de canhões. Dir-se-ia um cerco a se sustentar, no meio do clamor e da angústia”.
(Capítulo XI, tradução nossa)

Nestes dois casos apresentados, brevemente, vê-se que tanto a tempestade e os relâmpagos, quanto o mistral têm uma função na narrativa, de revelação do amor, aclarando as trevas que o escondiam, e do seu abandono, diante de uma força maior. É isto que chamamos “necessidade”, excelentemente traduzida, nos momentos que antecedem a partida de Clotilde, através do discurso indireto-livre, com narração:

“Mas eles continuavam firmes, o coração em sangue. Meu Deus! era então verdade que eles já não estavam mais juntos? E eles escutavam então o vento, o vento terrível, que ameaçava desventrar a casa”.
(Capítulo XI, tradução nossa)


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