'O mundo tem fome de amor'. Parece clichê, mas é realidade". A poetisa Milfa Valério define com maestria o que mais se preci...

Fome de amor

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'O mundo tem fome de amor'. Parece clichê, mas é realidade". A poetisa Milfa Valério define com maestria o que mais se precisa. A necessidade de amor está a todo momento gritando nos ouvidos das pessoas, mesmo que elas não se dêem conta disso. E esse vazio que parte do coração, passa pelo estômago, atinge todas as células e a subjetividade de pensamentos humanos de todo o sempre. Sim, provavelmente, esfomeado de amor já era o Homem de Neandertal quando andava caçando com o seu estereotipado porrete aos ombros a esmagar animais/alimento e arrastá-los para sua caverna.

Ah, o amor! Como escancara Augusto dos Anjos na poesia "A um monstro". Após definir fome e amor com toda sua peculiaridade e profundidade, o poeta despeja. Ou seria escarra?: "Representam, no ardor dos seus assomos, a alegoria do que outrora fomos, e a imagem bronca do que inda hoje sois!".

A fome do amor desafia a todos. Esfomeados, o mundo busca o alimento com voracidade e velocidade, muitas vezes esquecendo ou mesmo negando alimentar os demais famintos. A voraz violência pode mascarar a todos, fazendo-os não perceber aspectos sublimes do cardápio amor.

Do mesmo modo há pressa. E assim aromas, gostos, belezas de todos os gêneros deixam de ser degustados e não se sacia plenamente a fome. E assim, cegos ou egoístas, amplia-se o ciclo de fome de amor.

Sim, como diz Luís de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;

E é fome de ser retroalimentado com um cardápio de amor bem degustado a si, aos outros e a tudo. Escancara-se a fome pelos olhos, mãos, corpo inteiro, sem admitir pela boca que é preciso comer amor. E silencia-se muitas vezes ou gagueja-se desconexões para camuflar a ânsia e a necessidade do alimento. E sem saciar-se, age-se antropofagicamente, come-se sem amor a si mesmos e tira-se pedaços dos outros; dá-se mais um passo à morte por inanição de amor.

O amor amedronta? Por vezes sim, é a resposta. E o motivo é bem simples. Abrir-se, oferecer-se como comida para saciar com amor exige desapego, permitir-se ser devorado e acreditar que não está perdendo pedaços. Se ao espalhar-se como amor o ser deixa-se pelo mundo, pessoas e coisas, ao mesmo tempo cresce, fortalece a si próprio. No final, estará saciado, alimentado totalmente, reporá todo o amor pleno que se permitiu doar e ainda manterá reservas para novas andanças.

Há sim amor a ser encontrado, espalhado pelos campos, bancos, escondidinho em pequenos potes, solto em voos, saltos, banhos, pulos, quietude. Difícil achá-lo? Pode ser a forma da procura que esteja equivocada. Há de se merecê-lo, percebê-lo, decifrá-lo. E ele é múltiplo, diverso, misterioso, terno. Não é uma única flor no jardim, mas todas as flores, incluindo as pequenas e as gigantes, as livres que brotam em meio à erva daninha, assim como as semeadas em espaços milimétricos.

O amor sempre está pronto para ser colhido e servir de alimento. A única exigência é saber ser nutriente também, compartilhar o próprio amor, permitir-se alimento. E ao ser devorado pelo outro, sentir-se pleno. Comida para a fome matada. Uma auto-alimentação e degustação coletiva. Ser o próprio amor alimento.

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