Tive a oportunidade de trabalhar e viver cinco anos na Colômbia, quase dois no México e aproximadamente quatro anos no Peru. Isso aumento...

E os livros? Até quando resistirão?

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Tive a oportunidade de trabalhar e viver cinco anos na Colômbia, quase dois no México e aproximadamente quatro anos no Peru. Isso aumentou a chance que tive de poder ler no original muitas obras de famosos escritores, a exemplo de vários livros do Gabriel García Márquez (Gabo), o excelente “El labirinto de la soledad”, de Octavio Paz, mostrando as idiossincrasias do povo mexicano, e muito mais livros do laureado Mario Vargas Llosa, de quem sou fã incondicional.

Durante minhas viagens a Buenos Aires, fazia sempre questão de visitar uma ou duas livrarias. Sabemos que a cidade portenha e o país são famosos pela sua cultura. Sempre pedia orientação a um dos funcionários para que me orientasse na compra de livros. Em uma dessas ocasiões, um deles me indicou o livro “La casa de las belas durmientes”, escrita pelo Nobel de Literatura, o japonês Yasunari Kawabata.
CC.0
Livro excelente, uma obra mestra esotérica e uma das mais valiosas criações da literatura japonesa. Qual não foi minha surpresa quando comprei o novo livro do Gabo publicado muitos anos depois, intitulado “Memoria de mis putas tristes”, cuja história foi inspirada no livro de Kawabata. Para meu gosto, o roteiro desse romance estava demasiadamente similar ao livro do ganhador do Nobel japonês.

O motivo principal de preferir Vargas Llosa é porque ele transforma temas históricos em romances. Antes de escrevê-los, viaja antes ao local - passou seis meses no sertão da Bahia, antes de escrever o romance “La Guerra del fin del mundo” (sobre Antônio Conselheiro e “Os Sertões” de Euclides da Cunha – foi surpreendido, na hora da despedida, com um forte abraço e um beijo na boca da dona da pensão onde se hospedara nesse período), além de uma maneira peculiar de escrever, a qual me agrada muito. Outros muito bons são: “La fiesta del chivo” (mostrando o horror durante os 30 anos da ditadura Trujillo na República Dominicana – Juscelino Kubitschek participou das comemorações dos 25 anos do governo ditatorial de Trujillo em Santo Domingo) e “La tentación de lo imposible” (sobre o livro de Victor Hugo, “Os miseráveis” – passou um ano na França estudando esse livro e ao final comentou que foi o melhor livro que havia lido durante sua vida), os quais servem como exemplos.

Vargas Llosa, logo após o anúncio do Prêmio Nobel de Literatura em 2010, começou a escrever seu discurso intitulado “Elogio da leitura” e que seria lido durante a solenidade de entrega desse importantíssimo laurel. Em alguns trechos de sua exegese cita:

[... A literatura cria uma fraternidade dentro da diversidade humana e eclipsa as fronteiras erguidas entre homens e mulheres pela ignorância, pelas ideologias, pelas religiões, pelos idiomas e pela estupidez...].

[... A literatura é uma representação falsa da vida que, não obstante, nos ajuda a entendê-la melhor, a nos orientarmos pelo labirinto onde nascemos, transcorremos e morremos. Ela compensa com os reveses e frustações
que a vida de verdade nos inflige e graças a ela deciframos, ao menos parcialmente, o hieróglifo que costuma ser a existência para a grande maioria dos seres humanos, principalmente para aqueles de nós que alimentamos mais dúvidas do que certezas e que confessamos nossa perplexidade diante de questões como a transcendência, o destino individual e coletivo, a alma, o sentido ou a insensatez da História, as idas e vindas do conhecimento racional...].

[... A literatura introduz em nossos espíritos o inconformismo e a rebeldia, que estão por trás de todas as façanhas que contribuíram para diminuir a violência nas relações humanas...].

Recentemente, foi publicado pela Companhia das Letras mais um livro do escritor argentino de origem judaica naturalizado canadense, Alberto Manguel, “Encaixotando minha biblioteca”. É um pequeno grande livro que conta as digressões de Manguel sobre sua espetacular biblioteca. Viveu na Inglaterra, Espanha, Itália, Canadá, França, além de cinco anos no Taiti, muitas vezes como editor, aumentando cada vez mais seu acervo.
Montou sua grande coleção de livros em uma casa medieval na França, justamente em uma das mais belas regiões do país, o Vale do Loire, onde estão situados os castelos mais antigos e lindos do país. Nessa ocasião, sua biblioteca privada já contava com 35 mil livros, destacando-se raridades como uma Bíblia escrita à mão em um pergaminho, no século XIII, originária de um escritório alemão, e o primeiro manual de tipografia e ortografia, publicado em Veneza, no século XVI. Infelizmente, devido a aborrecimentos por causa da burocracia do governo francês, exigindo recibo de cada um de seus livros, resolveu transferir sua famosa biblioteca para outro país. Manguel recebeu convite para tornar-se o diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, cargo que já foi ocupado pelo poeta e pensador Jorge Luís Borges. No ano passado, foi convidado pelo governo de Portugal para instalar definitivamente sua valiosa biblioteca no Palácio dos Marqueses de Pombal, na rua das Janelas Verdes, em Lisboa, onde os 35 mil volumes serão o destaque do Centro de Estudos da História da Leitura, em 2022.

No citado livro, Manguel destaca alguns escritos de Francesco Petrarca, poeta e humanista italiano nascido em Arezzo, em 1304:

[... Sou perseguido por uma paixão inesgotável que até o momento não consegui ou não quis saciar. Sinto que nunca tenho um
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número suficiente de livros ...].

[... Os livros nos deliciam profundamente, correm por nossas veias, aconselham-nos e se conjugam a nós numa espécie de familiaridade ativa e aguda; e determinado livro não se insinua por si só em nosso espírito, mas abre caminho para muitos mais, provocando assim o desejo de ter outros...].

[... A descoberta da arte da leitura é íntima, obscura, secreta, quase impossível de descrever. Ela é adquirida por cada pessoa a sós, como uma espécie de epifania, ou talvez por contágio, em confronto com outros leitores. A felicidade proporcionada pela leitura, como qualquer felicidade, não pode ser forçada...].

Durante minha infância e juventude meus pais sempre me dificultaram receber a tradicional mesada entregue por muitos familiares a seus filhos. Havia apenas uma exceção. Poderia comprar praticamente qualquer quantidade de publicações que quisesse, contanto que fossem lidas. Daí a origem de meu amor pelos livros. Com o passar do tempo, o contínuo estoque desses exemplares vai aumentando e não irei mais possuir espaço para acumulá-los. Na minha vida fiz doação a várias bibliotecas e me desfiz de muitos livros, tantos técnicos como romances ou de história, embora me arrependa terrivelmente de haver me desfeito de vários deles.

Não posso imaginar essa tecnologia digital (e-book) que muitas pessoas estão a valorizar, desprezando os livros impressos.
Acredito que, muitos deles, fazem essas declarações para aparentar que são pessoas modernas e atualizadas. No meu caso particular, possuo muitos livros importantes na minha área profissional que foram digitalizados por encomenda minha com a precípua finalidade de poder consultá-los em outras cidades ou países durante trabalhos de consultoria. Seria impossível transportá-los durante um trabalho externo. Uma das maiores desvantagens do e-book é que novas tecnologias vão surgindo e as anteriores vão se tornando obsoletas, cada dia com maior rapidez. E o que faremos para lê-los, quando nosso software atual estiver desatualizado e não mais existir? Por outro lado, um livro em bom estado pode durar 500 anos ou bem mais, como prova a História.

O “Livro de Kells”, por exemplo, o mais antigo do mundo, foi escrito por São Columbkil, no ano 475, manuscrito cristão que contém os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) do Novo Testamento e é considerado por especialistas como um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval.

A grande verdade é que os livros digitalizados poderão se perder rapidamente pela mudança contínua de outras novas tecnologias. Por isso, acredito, nunca poderão nos tirar o prazer de ler um livro de verdade.

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