A moça que vem ajudar pergunta o que fazer duma cartilha de plástico escura, grossa de poeira, achada em cima do guarda-roupa. Coisa ...

Por cima do guarda-roupa

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A moça que vem ajudar pergunta o que fazer duma cartilha de plástico escura, grossa de poeira, achada em cima do guarda-roupa.

Coisa velha sempre mandam para mim. E lá vêm umas provas em papel com timbre do instituto de Maria Bronzeado onde estudou, no fiado, a maioria dos meus filhos. E, junto, uma fatura da Casa Pires, de Creusa e Adrião, de um rico jogo de talher em caixa de mogno usado uma única vez, que me lembre, num jantar que oferecemos a Tarcisio Burity aproveitando a presença, em João Pessoa, do dr. Italo Gandelmann, autoridade maior da pós-graduação em cirurgia buco-maxilo facial que filho e nora, Fabiano e Tânia, faziam na UFRJ.


E lá surge a foto de um grupo em torno da escultura de Jackson Ribeiro, “o porteiro do inferno”, ainda entre aspas, ali entre o Liceu e a Igreja Presbiteriana. Na cabeça da ladeira. “Que é aquilo?” — “Que significa?” — “Não se parece com nada que se tenha visto”.

Foi o que fe-liz-men-te ouviu o fino espírito de universal saber do cronista Juarez Batista, ao passar ao lado do grupo, para a melhor reação em crônica do seu cotidiano.

“Imagino a cara do Jackson, se estivesse por perto. Imagino-lhe o rosto espalhafatoso, o divertimento, a alegria de menino, os óculos a ponto de saltar
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do nariz longo e fino, as exclamações alucinadas:

— Mas isso é formidável! Fabuloso!

E quanto mais perguntas, quanto mais pedras, quanto mais negativas de sua obra, mais ele se animaria, mais faria daquilo tudo uma enorme brincadeira - com aquela animação de grandes braços e mãos soltos, os pés espalhados no corpo oscilante de embarcadiço, os cabelos lá em cima, de quem viu alma. A força de Jackson vem justamente daí, dessa pura inocência num homem passado pelo corrimboque-do-diabo. Dessa alegria superior do adulto que se livrou de tudo o que num adulto é desconsolo e cansaço de viver.”

E continua: “O artista é o homem largado no mundo, que outra coisa não tem a fazer senão largar-se cada vez mais. Seus polos magnéticos estão muito além de qualquer coisa próxima e imediata, e urge participar, como lhe der no juízo e aprouver à vontade de Deus, da composição instantânea das coisas. Penso, muitas vezes, que todo artista parte do pressuposto, talvez válido, permanentemente válido — de que o mundo está ainda sendo feito, e que é urgentíssimo ajudá-lo na sua invenção e no seu espetáculo“.

Acervo UFPB
Clima de coisas como estas não deve restar perdido em cima de um guarda-roupa que há três anos não se abre. E que já deve ter vindo colado de outras mudanças. O livro, a edição em livro é o que estamos devendo a esse cronista da cidade espiritual, da cidade de humor peculiar que só Juarez Batista sabia ver e ler tão bem quanto via, no mesmo prato de balança, o mundo de José Américo ou de seu extremo, Joseph Conrad, de Zé Lins ou de Thomas Hardy, de Euclides ou o da Odisseia. Não seria ou não será tão difícil recolher, com alguma paciência, esses instantes de eternidade. Além das “Crônicas do Arco da Velha”, da mocidade, há centenas desses instantes vivos, vivíssimos, em algum lugar do passado, nos arquivos, mesmo dispersos, dos jornais.

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  1. 1) Quando dei com essa foto do Jackson Ribeiro, pensei que fosse o Fernando Teixeira.
    2) Juarez da Gama Batista chamou a esposa e lhe disse, me mostrando., final dos anos 60: "Olha o Mr. White!" Referia-se ao personagem do roteiro que fizera para um longa, a partir do romance O Boqueirão, de Zé Américo. Mr White, o gringo que adorava tudo que é nosso, ao contrário do amigo brasileiro, que em tudo nos desprezava.
    3) Detalhe maravilhoso: "uma fatura da Casa Pires, de Creusa e Adrião, de um rico jogo de talher em caixa de mogno usado uma única vez, que me lembre, num jantar que oferecemos a Tarcisio Burity aproveitando a presença, em João Pessoa, do dr. Italo Gandelmann, autoridade maior da pós-graduação em cirurgia buco-maxilo facial que filho e nora, Fabiano e Tânia, faziam na UFRJ."

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    1. Era Fernando, sim, maestro. Agora Juarez!. Obrigado

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