“Muitos serão chamados, poucos serão escolhidos”. Não, não se trata da passagem bíblica, encontrada no Evangelho de Mateus (22,14), sobre...

Augusto dos Anjos, leitor de Haeckel

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“Muitos serão chamados, poucos serão escolhidos”. Não, não se trata da passagem bíblica, encontrada no Evangelho de Mateus (22,14), sobre a salvação dos que se aplicam ao trabalho de transformação, de modo a alcançar o reino de Deus. Na realidade, é uma citação do ateu Ernst Haeckel, sobre a luta cruel e sem piedade, que se trava na natureza, para a sobrevivência (HAECKEL apud WILLMANN, Rainer e VOSS, Julia.
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Ernst Haeckel ▪ 1834—1919CC0
The Art and Science of Ernst Haeckel, Köln: Taschen, 2020, p. 59).

Dentre os livros e os saberes multivariados que respondem pela formação cultural de Augusto dos Anjos – Filosofia, História, Mitologia, Literatura, Biologia, Física, Química, Cristianismo, Budismo e Espiritismo – é inegável a influência que a biologia evolutiva de Ernst Haeckel exerceu sobre o poeta. Não tenho como afirmar que Augusto dos Anjos tenha lido Charles Darwin, e se o fez não foi com a mesma intensidade com que leu Haeckel, textualmente citado no soneto “Agonia de um Filósofo” e no soneto de abertura de “Os Doentes”, em que se observa, neste, uma possível alusão ao prótilo (v. o soneto “Sonho de um Monista”), e naquele uma alusão ao momento da simbiose de uma célula:

No hierático areopago heterogêneo* Das ideias, percorro, como um gênio, Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!.. “Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

Até onde podemos saber, o poeta do Pau d'Arco acompanha a visão evolutiva do cientista alemão não apenas no sentido biológico de suas ideias, mas aplicando-a também ao crescimento do homem com relação à sua espiritualidade.
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Augusto dos Anjos ▪ 1884—1914CC0
Se a vida é luta e sofrimento, não é, contudo, para vivermos atolados na lamentação. O que deve nos mover são as lições que podemos aprender com a árdua existência, conforme vemos no soneto dialogal “O Mar, a Escada e o Homem”, em que o homem, apesar de sua evolução biológica, como espécie, pareça uma nau que trocou o vapor pela hélice, mas o seguir em frente, singrando “a água hórrida” do mar da vida não torna menos difícil o trabalho da “nau árdega”. Para atingir a superioridade, cabe ao homem não apenas rasgar a horizontalidade desse Mar, mas vencer “a verticalidade da Escada íngreme”, em busca da ascensão mais do espírito do que da matéria. Em suma, a pergunta que a Escada faz ao Homem – “já transpuseste os meus degraus?!” – é o que vai determinar o que ele será: Augusto (o que acrescenta), Hércules (o que enfrenta) ou simplesmente Homem (o que soluça), entregando-se ao “pandemônio aterrador do Caos”.

A vida é, pois, “árdua liça”, que submete o homem a travessias horizontais (existência material) e verticais (experiência espiritual), a que o homem poderá voltar várias vezes, a depender se transpôs ou não, um a um, os degraus da íngreme escada. Ao cumprir o ciclo apenas material, a matéria retornará ao elemento inorgânico de onde veio, para começar tudo de novo. É o que nos ensina o eu de “Os Doentes”, grandioso poema que nos revela mais a nossa doença do espírito do que a nossa doença do corpo, sendo esta uma consequência nefasta daquela (Parte III, Estrofes 57-60, versos 223-238):

A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. Não me incomoda esse último abandono. Se a carne individual hoje apodrece, Amanhã, como Cristo, reaparece Na universalidade do carbono! A vida vem do éter que se condensa, Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. Eu voltarei, cansado da árdua liça, À substância inorgânica primeva, De onde, por epigênesis, veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa!

Além de citar nominalmente Haeckel, Augusto faz várias referências a seus estudos, dentre eles a primeira dissertação do cientista, em 1862, que trata especificamente sobre as Radiolaria, como podemos ver na última estrofe acima. Ressalte-se, além disso os estudos que Haeckel fez dos cnidários.
Vejamos como Richard Dawkins se refere a estes organismos (A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais; tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2009):

“Os cnidários têm dois planos corporais alternativos: pólipo e medusa. As anêmonas-do-mar e as hidras são típicos pólipos: sedentárias, boca na parte superior, e a extremidade oposta fica no chão, como uma planta.

[...] Muitos pólipos reproduzem-se brotando vegetativamente, como plantas. [...] Esses ‘hidrozoários coloniais’ ramificam-se sucessivamente, e com isso fica fácil entendermos por que eles eram confundidos com plantas. Às vezes, mais de um tipo de pólipo cresce na mesma árvore poliposa, e eles se especializam em diferentes papéis, como alimentação, defesa ou reprodução. Podemos concebê-los como uma colônia de pólipos, mas há um sentido no qual todos são parte de um indivíduo, pois a árvore é um clone: todos os pólipos têm os mesmos genes”.
— p. 538-9 —

Lembremos que a Sombra se define, inicialmente, como um “Polipo de recônditas reentrâncias” (“Monólogo de uma Sombra”, estrofe 1, verso 3), mas o poeta não para por aí, mostrando como tudo no universo se conecta e que é do inorgânico que surge o orgânico, ele expande a ação do pólipo inicial para a amplidão da evolução, com base na teoria da recapitulação de Haeckel, em que “a ontogênese recapitula a filogênese” (DAWKINS, p. 565). Vejamos três estrofes de “As Cismas do Destino” (Parte II, estrofes 42-44, versos 165-176):

Nessa época que os sábios não ensinam, A pedra dura, os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigmeias! Deus subjuga-as, cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O, E o meu sonho crescia no silêncio, Maior que as epopeias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares, Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos polipos.

Ao estudioso de Haeckel, a última estrofe acima não deixa qualquer dúvida de onde vem o conhecimento de Augusto, na área da biologia evolutiva – “tipos ontogênicos”, “foraminíferos dos mares”, “grei liliputiana dos polipos"...

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Haeckel Actiniae ▪ Anêmonas marinhas desenhadas por Ernst Haeckel para ilustrar seu livro Kunstformen der Natur (Formas de Arte da Natureza) ▪ 1904 ▪ CC0
Afirma-nos Dawkins que Haeckel “era um entusiasta da hoje ultrapassada teoria da recapitulação” e que, embora atraente, “caiu em desuso. Ou melhor, hoje é considerada uma pequena parte de algo que é verdade em certos casos, porém não em todos” (p. 566).

Mais importante do que constatar o desuso da teoria da recapitulação, nos dias atuais, é verificar que Augusto dos Anjos, com a pouca idade que tinha e com toda a adversidade geográfica e de comunicação, encontrava-se em plena consonância com o que havia de mais moderno e aceitável nos estudos da Ciências Biológicas da época, veiculado em uma língua de difícil transmissão, o alemão. Isto não o impediu de saber transformar um conhecimento científico de ponta, em uma poesia de grande qualidade, cuja concepção é a de que não basta conhecermos o processo bioquímico que a criou, é necessário aceitarmos o árduo desafio de elevar o espírito que a anima.
* O deslocamento prosódico de areópago para areopago tem o intuito de contemplar o ritmo do decassílabo, com pausas na 2ª, 6ª e 10ª – No hie//ti/co a/reo/pa/go he/te/ro//neo.

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  1. Raíssa Romero21/5/22 17:00

    Que linda crônica sobre a espiritualidade de Augusto dos Anjos, e ao mesmo tempo a biologia evolutiva de Haeckel, que foi um grande cientista, apesar do fracasso da teoria da recapitulação, da qual ele era adepto. Interessante como Augusto dos Anjos conseguiu adquirir conhecimento sobre evolução das espécies e da biologia, sem perder sua espiritualidade, nem a fé! Parabéns, Milton Marques Júnior

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  2. Obrigado, Raíssa!

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  3. Mais um texto estimulante de ler e sempre com o olhar perspicaz do Professor Milton, uma leitura que nos convida a sempre voltar a Augusto dos Anjos.

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